Durante passagem por Brasília para participar do Encontro Anual de Gestores da Caixa, o futurista australiano Brett King afirmou que o Pix colocou o Brasil “dez anos à frente dos Estados Unidos” em tecnologia de pagamentos. A declaração reforça a percepção internacional de que o sistema criado pelo Banco Central brasileiro se tornou uma referência global em eficiência, escala e adoção popular.
Pix do Banco Central: tecnologia que coloca o Brasil na frente do mundo
Brett King afirma que o Pix colocou o Brasil dez anos à frente dos EUA em pagamentos digitais, destacando inovação, regulação e impactos globais.
As falas foram feitas em entrevista ao jornal Metrópoles, que acompanhou a agenda do especialista na capital federal. King é conhecido mundialmente por suas análises sobre transformação digital no setor financeiro e por livros que anteciparam tendências hoje consolidadas no mercado bancário.
Segundo ele, o Pix não apenas modernizou o sistema de pagamentos no Brasil, como também antecipou debates que ainda estão em fase inicial em outras economias desenvolvidas.
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Reconhecimento internacional em meio a disputas regulatórias
De acordo com reportagem do Metrópoles, as declarações de King ocorrem em um momento de maior atenção internacional sobre políticas brasileiras ligadas ao comércio digital. Em julho de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou a abertura de uma investigação envolvendo serviços de pagamento eletrônico, o que ampliou o debate sobre modelos regulatórios e concorrência no setor.
Embora o Pix não tenha sido citado nominalmente nos documentos iniciais da investigação, o sistema brasileiro passou a aparecer em análises setoriais como um elemento relevante nesse contexto. Para especialistas, isso demonstra que o modelo brasileiro passou a ser observado como possível referência — ou concorrente — em discussões globais sobre pagamentos digitais.
O governo brasileiro, por sua vez, tem sustentado que o Pix opera de forma aberta, transparente e não discriminatória, permitindo acesso amplo a instituições financeiras tradicionais e fintechs.
Da fila na agência à revolução digital bancária
Ao contextualizar sua própria trajetória, Brett King relembrou como era a relação dos clientes com os bancos no início da década passada. Em 2010, quando lançou o livro Bank 2.0, grande parte dos consumidores ainda dependia de atendimento presencial.
“Quando escrevi Bank 2.0, muita gente ainda pegava uma senha de papel na porta da agência e esperava horas para ser atendida”, afirmou.
Para King, essa lembrança ajuda a ilustrar a velocidade das transformações no setor financeiro nos últimos 15 anos. A digitalização bancária, que hoje parece natural para muitos usuários, foi impulsionada por uma combinação de fatores.
Smartphones, internet e regulação
Segundo a apuração do Metrópoles, o futurista atribui essa evolução à popularização dos smartphones, à ampliação do acesso à internet e a mudanças regulatórias que favoreceram a entrada de fintechs. No Brasil, o Banco Central teve papel central ao estimular a concorrência e criar infraestrutura pública para o sistema financeiro.
Nesse cenário, o Pix surgiu como uma solução que uniu tecnologia, regulação moderna e foco no usuário final, permitindo transferências instantâneas, gratuitas para pessoas físicas e disponíveis 24 horas por dia.
Pix como referência mundial em adoção
Questionado especificamente sobre o Pix, King foi direto ao avaliar o alcance do sistema brasileiro.
“O Pix é o sistema de pagamento que mais cresce no mundo”, declarou.
Em seguida, comparou o estágio de desenvolvimento do Brasil com o dos Estados Unidos, país que ainda depende fortemente de meios tradicionais como cartões, transferências bancárias lentas e até cheques em algumas situações.
“Por causa do Pix, o Brasil já está dez anos à frente dos Estados Unidos em tecnologia de pagamentos”, afirmou.
Para o futurista, muitos brasileiros ainda não têm plena consciência da relevância internacional do Pix e do fato de que o país se tornou um laboratório global de inovação financeira.
O desafio da identidade digital
Apesar dos avanços, King destacou que ainda existem limitações a serem superadas. Segundo ele, o principal desafio não está no Pix em si, mas na infraestrutura de identidade digital.
“A limitação que o Brasil tem hoje não é o Pix, mas a identidade”, disse.
Para o futurista, sistemas robustos de identidade digital são essenciais não apenas para pagamentos instantâneos, mas também para aplicações mais avançadas de inteligência artificial e serviços públicos digitais.
“Um documento de identidade em papel não será suficiente”, afirmou, ao defender soluções digitais seguras, interoperáveis e amplamente aceitas.
Impactos sobre cartões e grandes empresas globais
O avanço do Pix também tem provocado mudanças profundas nas estratégias de empresas tradicionais do setor de pagamentos. Em entrevista ao Metrópoles, King comentou os impactos do sistema sobre companhias como Mastercard e Visa.
“Sou consultor da Mastercard, então falamos muito sobre isso”, afirmou.
Segundo ele, essas empresas têm estudado modelos baseados em tokenização, uso intensivo de celulares e redução da dependência de cartões físicos.
“Elas querem se tornar como o Pix, uma camada de transmissão tokenizada para dados, não apenas para dinheiro”, declarou.
Adaptação ao novo cenário competitivo
Especialistas do setor de meios de pagamento observam que essas iniciativas refletem uma tentativa de adaptação a sistemas instantâneos, mais baratos e com menor custo operacional. A disputa atual envolve não apenas tecnologia, mas também modelos de negócio e regulação.
Nesse ambiente, o Pix se consolida como um exemplo de infraestrutura pública capaz de estimular concorrência e inovação ao mesmo tempo.
Pix além das transações financeiras
Outro ponto levantado por Brett King foi o potencial do Pix para usos que vão além das transações financeiras tradicionais.
“Talvez o Pix seja mais do que transações bancárias”, afirmou.
Como exemplo, ele citou o compartilhamento seguro de informações pessoais. Em um cenário futuro, registros de saúde poderiam ser enviados diretamente do celular do paciente para o hospital por meio de uma infraestrutura semelhante à do Pix.
“Se você for ao médico e quiser enviar seus registros de saúde, talvez envie da sua carteira no celular via Pix para o hospital”, explicou.
Open banking como modelo para outros setores
Na avaliação de King, conceitos associados ao open banking podem servir de referência para áreas como saúde, educação e serviços públicos.
“O que chamamos de open banking hoje pode se tornar um modelo para open health e outros tipos de dados”, declarou.
Segundo ele, esse tipo de aplicação exigiria regras específicas de segurança, governança e proteção de dados, mas o potencial de transformação é significativo.
Internacionalização do Pix e moedas digitais
Sobre a possibilidade de internacionalização do Pix, King afirmou que o tema já está em discussão.
“Com certeza”, respondeu ao ser questionado.
Ele mencionou conversas envolvendo o México e o uso do sistema por bancos localizados na Flórida, o que indicaria um interesse crescente em integrar o Pix a operações internacionais.
Ainda assim, o futurista ponderou que a próxima grande etapa dos pagamentos digitais pode envolver contratos inteligentes, moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) e stablecoins.
“Em meados da década de 2030, eu esperaria que muito mais transações fossem feitas com CBDCs e stablecoins”, afirmou.
Brics e novos arranjos monetários
Ao tratar do cenário internacional, King mencionou o grupo dos Brics e levantou hipóteses sobre o uso combinado de moedas digitais e sistemas de pagamento existentes.
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“A resposta provavelmente é uma combinação de ambos”, disse, sugerindo que soluções híbridas devem prevalecer no futuro próximo.
Concentração bancária e transformação do setor
Apesar dos avanços tecnológicos, o Brasil ainda apresenta elevada concentração bancária. Para Brett King, no entanto, esse quadro vem passando por mudanças estruturais importantes.
“A empresa mais valiosa do Brasil hoje é um banco digital”, afirmou, citando o Nubank como exemplo.
Segundo ele, a relação custo/receita de cerca de 26% contrasta com uma média global de 58%, números apresentados para ilustrar a eficiência de modelos digitais em comparação com bancos tradicionais.
Novo papel do Banco Central
Nesse contexto, King avaliou que o papel dos reguladores também tende a evoluir.
“No futuro, o Banco Central não será apenas um regulador”, disse.
Segundo o futurista, a autoridade monetária deve assumir cada vez mais a função de provedora de infraestrutura tecnológica para garantir um sistema bancário seguro, eficiente e competitivo. Isso inclui a digitalização de licenças bancárias e o fortalecimento de plataformas públicas como o Pix.
Inteligência artificial, investimentos e trabalho
Brett King também comentou o debate global sobre uma possível “bolha da inteligência artificial”.
“É, sim, uma bolha”, afirmou, ao mencionar o volume elevado de investimentos no setor, especialmente nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, ressaltou que a IA representa uma das tecnologias mais impactantes da história recente.
“A IA é a tecnologia de maior impacto que a humanidade verá nos últimos mil anos”, declarou.
Automação e renda básica
Em relação ao mercado de trabalho, King foi direto ao afirmar que a automação tende a substituir diversas funções humanas.
“A IA foi projetada para tirar os humanos da força de trabalho e substituí-los por algoritmos e robôs”, disse.
Segundo ele, o debate sobre renda básica universal surge como resposta a esse cenário, embora ainda não exista um modelo consolidado de implementação em larga escala.
Regulação, big techs e desafios futuros
Ao abordar governança e regulação, King afirmou que a automação pode reduzir falhas humanas em processos decisórios. Por outro lado, alertou para o poder crescente das grandes empresas de tecnologia.
“Estamos trocando um problema por outro: empresas de tecnologia que são uma caixa-preta que não entendemos”, afirmou.
Na avaliação do futurista, o grande desafio dos próximos anos será estabelecer regras claras, transparentes e eficazes para o uso da inteligência artificial e das infraestruturas digitais.
Conclusão
Com o Pix no centro de discussões internacionais, empresas globais revisando estratégias e a inteligência artificial ampliando seu espaço na economia, o Brasil ocupa hoje uma posição de destaque no debate sobre o futuro dos pagamentos. As declarações de Brett King reforçam a percepção de que o país não apenas acompanhou as transformações tecnológicas, mas passou a liderar parte desse movimento, levantando questões fundamentais sobre regulação, inovação e soberania digital.
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