Com pouco mais de três anos de operação, o Pix se tornou um fenômeno no Brasil — e agora começa a causar desconforto em esferas internacionais. Segundo o Banco Central, 76,4% da população brasileira aderiu ao sistema até 2024, o que o torna o meio de pagamento mais utilizado no país. Esse avanço não apenas transformou a forma como brasileiros lidam com dinheiro, mas também colocou o sistema na mira do governo dos Estados Unidos, que abriu uma investigação sobre possíveis práticas desleais de concorrência.
Pix desafia empresas americanas de cartão e entra na mira dos EUA
Pix desafia Visa e Mastercard e atrai atenção dos EUA. Sistema brasileiro pode gerar sanções por supostas práticas desleais.
O movimento é liderado pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que apontou o Brasil por supostamente favorecer soluções de pagamento nacionais. Embora o Pix não tenha sido citado diretamente, a investigação menciona explicitamente a atuação do governo brasileiro em práticas que podem oferecer vantagens competitivas indevidas a serviços financeiros públicos — e isso inclui, segundo analistas, o sistema criado e gerido pelo Banco Central.
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Da previsão ao protagonismo

A ascensão do Pix não surpreendeu Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, que ainda em 2022 previa que o cartão de crédito poderia deixar de existir em breve. Segundo ele, a integração entre o Open Finance e os pagamentos instantâneos eliminaria a necessidade das bandeiras tradicionais. “Acho que o cartão de crédito vai deixar de existir em algum momento em breve”, afirmou Campos Neto em evento em Brasília.
Cerca de dois anos depois dessa declaração, o Pix já movimenta cerca de R$ 2,5 trilhões mensais e atinge 168 milhões de usuários, de acordo com dados divulgados pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos).
Pix parcelado: a próxima ameaça?
Um dos poucos diferenciais mantidos pelas bandeiras como Visa e Mastercard é a possibilidade de parcelamento, amplamente adotada pelo consumidor brasileiro. No entanto, essa vantagem está prestes a diminuir: o Banco Central agendou para setembro o lançamento oficial do Pix Parcelado, que permitirá o pagamento em parcelas diretamente com o banco do consumidor, sem depender de cartão de crédito.
Embora algumas instituições financeiras já ofereçam essa funcionalidade de forma autônoma, a padronização e oficialização pelo BC promete popularizar e democratizar ainda mais a ferramenta, tornando o Pix uma alternativa completa para compras parceladas, hoje território quase exclusivo das operadoras de cartão.
Reação internacional
A Casa Branca, sob a gestão de Donald Trump, trata o avanço do Pix como um possível desequilíbrio comercial. O documento do USTR lista uma série de práticas que, na visão do governo americano, favorecem produtos e serviços nacionais em detrimento de concorrentes estrangeiros. A inclusão do sistema de pagamentos brasileiro nesse contexto ocorre junto a outras críticas relacionadas a temas como propriedade intelectual, tarifas de importação e desmatamento.
Henrique Meirelles, também ex-presidente do Banco Central, considera que a investigação é resultado da superioridade do Pix frente aos sistemas americanos. “É um sistema eficiente e rápido, melhor do que todo o sistema de pagamento nos Estados Unidos”, afirmou em entrevista à BBC News Brasil.
Além disso, Meirelles destacou que big techs americanas, como a Meta, estão sendo diretamente afetadas pela preferência dos brasileiros pelo Pix. O WhatsApp Pay, por exemplo, não teve a mesma adesão, mesmo sendo amplamente acessível.
Procurada pela revista Veja, a Meta informou que não comenta a investigação aberta pelos EUA.
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Defesa brasileira
Diante da investigação, a Febraban saiu em defesa do Pix, reforçando que se trata de uma infraestrutura pública, e não um produto comercial. “O Pix é uma infraestrutura pública de pagamento, e não um produto comercial”, disse a entidade em nota.
A federação destacou também que o sistema é aberto, não discriminatório e acessível a todas as instituições financeiras devidamente regulamentadas. Isso, segundo os bancos brasileiros, desqualifica qualquer alegação de prática desleal. Outro dado relevante apontado pela Febraban é que 70 milhões de brasileiros se digitalizaram exclusivamente para utilizar o Pix.
Silêncio das gigantes

As bandeiras de cartão de crédito, por sua vez, preferiram não se manifestar. A Visa informou que não comenta investigações em andamento. Já a Mastercard não respondeu aos pedidos de entrevista da imprensa até o fechamento desta reportagem.
Nos bastidores, porém, empresas do setor acompanham com apreensão a expansão do sistema brasileiro e a possível adoção de modelos similares em outros países em desenvolvimento.
Com informações de: VEJA
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