O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil deixou de ser apenas uma inovação doméstica para se tornar referência internacional. De acordo com o estudo Beyond Borders 2026, divulgado pelo EBANX, o avanço do Pix faz parte de uma transformação estrutural mais ampla no mercado de pagamentos digitais, especialmente em economias emergentes.
Pix ganha força entre MEIs no comércio internacional
Pix já lidera o e-commerce no Brasil e avança no exterior, segundo a Beyond Borders 2026. Veja dados, tendências e projeções.
A pesquisa reúne dados da América Latina, África, Sudeste Asiático e Índia e aponta que mercados antes considerados periféricos agora lideram mudanças globais. Segundo Eduardo de Abreu, Chief Product Officer do EBANX, essas regiões desenvolveram soluções adaptadas às suas realidades locais, ampliando a competição internacional e reduzindo a dependência de modelos tradicionais baseados exclusivamente em cartões. No Brasil, os números confirmam essa mudança de protagonismo.
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Pix supera cartões no e-commerce brasileiro
Em 2025, o Pix se consolidou como o meio de pagamento mais utilizado no comércio eletrônico brasileiro. Segundo a Beyond Borders 2026, 42% do valor total das compras online foi pago com Pix, enquanto os cartões responderam por 41%.
A diferença pode parecer pequena, mas simboliza uma virada histórica. Durante décadas, cartões de crédito dominaram o e-commerce nacional. Agora, o sistema instantâneo ultrapassa esse modelo e deve ampliar a vantagem nos próximos anos.
Projeções até 2028
A estimativa é de crescimento anual composto de 18% para o Pix até 2028. Nesse cenário, o sistema deve alcançar 50% das transações digitais no Brasil, enquanto os cartões recuarão para 36%. A diferença projetada é de 14 pontos percentuais.
O dado chama atenção principalmente porque o Pix já é utilizado por 95% da população adulta, segundo dados oficiais do Banco Central. Ainda assim, o sistema continua expandindo funcionalidades e criando novas demandas.
“Alta adoção não significa saturação”, afirma Eduardo de Abreu no relatório. Cada novo recurso impulsiona novos casos de uso, especialmente entre pequenas e médias empresas.
Empresas brasileiras ampliam uso do Pix internacional
O avanço não ocorre apenas no consumo doméstico. O estudo aponta crescimento expressivo nas compras internacionais feitas por empresas brasileiras utilizando Pix.
Entre as companhias que compram no exterior com o sistema:
- 31% pertencem ao comércio
- 23% atuam no setor de serviços
O dado mais relevante envolve o perfil empresarial. O número de microempresas que utilizam Pix para compras internacionais é o dobro do registrado entre médias e grandes empresas.
Inclusão financeira dos pequenos negócios
Esse movimento evidencia um dos principais impactos estruturais do Pix: a inclusão digital e financeira. Pequenos empreendedores que antes dependiam de cartões corporativos ou intermediários financeiros agora conseguem realizar pagamentos internacionais com mais agilidade e menor custo.
Na prática, isso significa que um microempresário brasileiro pode contratar serviços de tecnologia, softwares ou fornecedores estrangeiros sem depender de linhas de crédito complexas ou tarifas elevadas.
Pix automático impulsiona pagamentos recorrentes
Outra frente de crescimento é o Pix Automático, funcionalidade que permite pagamentos recorrentes instantâneos, como assinaturas de streaming, mensalidades e serviços digitais.
Em operação desde junho do ano passado, o recurso cresce 41% ao mês, segundo dados internos do EBANX.
O impacto é relevante principalmente para os cerca de 60 milhões de brasileiros que não possuem cartão de crédito. Com o Pix Automático, esse público passou a acessar serviços digitais antes restritos a quem tinha limite aprovado em cartão.
Exemplo prático
Um consumidor sem cartão agora pode assinar uma plataforma de cursos online ou um serviço de armazenamento em nuvem utilizando pagamento automático via Pix, com autorização prévia e recorrência programada.
Para empresas digitais, isso amplia significativamente o mercado consumidor.
Mercados emergentes lideram inovação
O fenômeno observado no Brasil se repete em outros países emergentes.
Índia e o crescimento do UPI
Na Índia, uma empresa global de SaaS conquistou mais de 4 mil novos clientes por dia após incluir o UPI Autopay como forma de pagamento recorrente.
Segundo dados da PCMI citados na Beyond Borders:
- Cartões de crédito locais na Índia devem crescer 23% ao ano até 2028
- UPI deve crescer 15%
- Cartões internacionais, 6%
A bandeira doméstica RuPay detém 33% do mercado, atrás da Visa (43%) e à frente da Mastercard (20%) e American Express (4%).
América Latina mantém força dos cartões
Em México, Chile e Peru, os cartões ainda representam mais de 60% das transações online, segundo a PCMI. O parcelamento continua sendo diferencial competitivo e pode elevar o valor médio das compras em até 2,7 vezes, conforme dados internos do EBANX.
África: expansão via débito
Na Nigéria e no Egito, o crescimento ocorre por meio de cartões de débito. Segundo o Global Findex, do Banco Mundial, a penetração aumentou mais de 10 pontos percentuais entre 2021 e 2024.
A bandeira nigeriana Verve já emitiu 100 milhões de cartões em um país com 232 milhões de habitantes.
Stablecoins ganham espaço em economias instáveis
A Beyond Borders 2026 também destaca o avanço das stablecoins em países com inflação elevada ou restrições cambiais.
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Segundo dados da Triple A citados no estudo:
- Mais de 15% da população de Brasil, Argentina, Tailândia e Vietnã possui moedas digitais
- Na Turquia, o índice chega a 20%
- Na Argentina, quase 90% das compras de cripto são realizadas com stablecoins atreladas ao dólar
O uso dessas moedas digitais ocorre principalmente para preservação de valor e transações internacionais.
Em países com volatilidade cambial, as stablecoins funcionam como alternativa ao sistema bancário tradicional, especialmente para pagamentos internacionais e proteção contra desvalorização monetária.
Inteligência artificial entra no processo de compra
Outra tendência analisada envolve agentes de inteligência artificial atuando como compradores autônomos.
Nesse modelo, sistemas baseados em IA comparam preços, analisam reputação de lojas e concluem transações automaticamente.
Segundo a McKinsey, 20% dos consumidores aceitariam delegar compras a agentes digitais. Já a Deloitte projeta que até 2030, 30% do valor global do e-commerce poderá ser influenciado por essa tecnologia.
Para o mercado de pagamentos, isso significa transações mais automatizadas, programáveis e integradas a plataformas digitais.
O que explica o sucesso do Pix
O desempenho do Pix está diretamente ligado à combinação de fatores:
- Regulação eficiente conduzida pelo Banco Central
- Gratuidade para pessoas físicas
- Liquidação instantânea 24 horas por dia
- Baixo custo para empresas
- Integração com carteiras digitais e aplicativos bancários
Diferentemente de modelos dependentes exclusivamente de bandeiras internacionais, o Pix foi desenvolvido sob lógica de infraestrutura pública digital, com governança centralizada e interoperabilidade obrigatória entre instituições financeiras.
Essa estrutura permitiu rápida escalabilidade e alto nível de confiança do consumidor.
O futuro dos pagamentos digitais
O estudo Beyond Borders 2026 indica que o cenário global caminha para sistemas cada vez mais automatizados, programáveis e integrados a inteligência artificial.
Mercados emergentes deixam de ser apenas consumidores de tecnologia financeira para se tornarem exportadores de modelos bem-sucedidos.
No Brasil, o Pix já se consolidou como protagonista do comércio eletrônico e avança em pagamentos internacionais, recorrentes e B2B. O sistema não apenas superou cartões no e-commerce, mas também ampliou inclusão financeira e competitividade empresarial.
A tendência aponta para uma reconfiguração estrutural do setor, em que soluções locais adaptadas à realidade regulatória e socioeconômica ganham escala global.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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