O adiamento da publicação das regras de padronização do Pix Parcelado — que estava previsto para o fim de outubro — marcou um momento delicado no setor financeiro brasileiro.
Crise de segurança nas fintechs freia o Pix Parcelado e preocupa o Banco Central
O Banco Central adia as regras do Pix Parcelado após ataques cibernéticos e escândalos de lavagem de dinheiro com fintechs. Saiba mais!
A decisão do Banco Central (BC) ocorreu após uma série de episódios que abalaram a credibilidade do sistema, incluindo ataques hackers a instituições financeiras e operações da Polícia Federal que revelaram o uso de fintechs por organizações criminosas para lavagem de dinheiro.
Durante o evento Fitch in Fintechs 2025, realizado nesta terça-feira (14), executivos e analistas destacaram que a pausa representa um revés para a inovação, mas também um passo necessário para restaurar a confiança nas bases do sistema financeiro.
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Segundo fontes ouvidas pelo InfoMoney, o BC precisou redirecionar esforços para reforçar a segurança das operações digitais e garantir bases sólidas para o avanço de novos produtos financeiros.
“Não dá pra continuar inovando se a base de confiança foi abalada. O momento é de reconstrução, e isso exige uma mudança de postura de todo o ecossistema”, afirmou Auziane Morais, líder de compliance do Stark Bank.
A fala sintetiza o dilema que o Banco Central enfrenta: manter o ritmo de inovação do sistema financeiro aberto (Open Finance), sem abrir brechas para novos riscos. O Pix Parcelado, uma das iniciativas mais aguardadas pelo mercado, permitiria o fracionamento de pagamentos instantâneos, transformando o Pix em um mecanismo de crédito de curto prazo — e abrindo espaço para concorrência direta com cartões.
Especialistas alertam para impacto econômico e perda de previsibilidade
De acordo com Pedro Carvalho, diretor sênior da Fitch Ratings, o adiamento traz custos diretos e indiretos para o setor, especialmente para fintechs e provedores de infraestrutura que investiram antecipadamente em sistemas compatíveis com as futuras regras.
“Muitos players estavam se preparando para a padronização do Pix Parcelado. Com o adiamento, esses investimentos ficam represados. A incerteza pesa, porque as empresas dependem de previsibilidade para crescer”, destacou Carvalho.
O cenário de indefinição obriga empresas de tecnologia financeira a replanejar cronogramas e adiar contratações e lançamentos de produtos. Para os analistas, o risco é que o Brasil perca momentum na inovação financeira, especialmente no momento em que outros mercados latino-americanos, como México e Colômbia, avançam em iniciativas de pagamentos instantâneos.
Cooperação e governança: as novas palavras de ordem do setor
Entre as fintechs e instituições de pagamento, a reconstrução da confiança passa por cooperação e governança.
A percepção é de que a crise recente expôs lacunas éticas e operacionais, mais do que falhas regulatórias.
“Se há desconfiança do usuário, todo mundo perde. Não adianta competir em inovação se a credibilidade do sistema está em risco”, afirmou Auziane Morais, do Stark Bank.
Ela acrescentou que o setor tem mostrado maior disposição em compartilhar informações, criar mecanismos de autorregulação e implementar protocolos de compliance unificados.
Falhas de conduta e a responsabilidade das empresas
Para François Guérin, diretor de serviços de banking da Opea, a crise revelou que as regras por si só não bastam se não houver comprometimento ético das instituições e de seus colaboradores.
“Os eventos recentes mostraram que não é só uma questão de regulação. Houve um problema de conduta. Você pode colocar todas as regras, mas se a pessoa não segue as regras, não adianta”, pontuou Guérin.
Ele destacou ainda que muitas falhas ocorreram por ausência de diligência na escolha de prestadores de serviço de tecnologia (PSTIs) — empresas responsáveis por conectar instituições financeiras à Rede do Sistema Financeiro Nacional (RSFN).
“Quando analisamos os eventos, vemos que há perguntas básicas que não foram feitas. Esses episódios serviram para lembrar o mercado da importância de observar a governança dos prestadores de serviço”, completou Guérin.
Reação do Banco Central: endurecimento de regras para prestadores

Em resposta às falhas, o Banco Central anunciou em setembro novas exigências para os Prestadores de Serviços de Tecnologia da Informação (PSTI).
Entre as medidas estão:
- Capital mínimo de R$ 15 milhões para operação;
- Certificação de segurança obrigatória;
- Maior transparência sobre infraestrutura e políticas de cibersegurança;
- Exigência de auditorias regulares e reportes ao BC.
Guérin avalia que a reação do BC foi rápida, porém necessária:
“A reação do Banco Central foi repentina para quem está no mercado, mas se olharmos o que saiu recentemente sobre o PSTI, são regras de governança que nada mais são do que boas práticas”, afirmou o executivo da Opea.
Essas medidas devem dificultar a entrada de pequenos provedores, mas fortalecem o pilar de segurança do sistema, reduzindo a vulnerabilidade a ataques cibernéticos e vazamentos de dados.
Sobreposição regulatória reacende debate entre BC e CVM
Um dos temas mais debatidos no Fitch in Fintechs 2025 foi a sobreposição de competências entre reguladores, especialmente entre o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
De acordo com Alexandre Assolini, diretor de segurança da Vórtx, parte das falhas exploradas por criminosos decorre de lacunas criadas pela divisão regulatória.
“No Brasil, a gente tem dois reguladores, um para o mercado de capitais e outro para o sistema financeiro. Quando você tem dois, sempre tem uma fresta ali no meio — e algumas coisas caem nessa fresta”, explicou Assolini.
A ausência de uma estrutura regulatória integrada facilita o surgimento de áreas cinzentas, onde novos produtos financeiros não se enquadram claramente em nenhuma jurisdição. Essa indefinição abre espaço para abusos, especialmente em modelos híbridos de operação entre investimento e pagamento.
O pano de fundo: ataques cibernéticos e lavagem de dinheiro
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O adiamento das regras do Pix Parcelado acontece em meio a uma sucessão de crises de segurança que afetaram instituições financeiras e fintechs brasileiras nos últimos meses.
Operações da Polícia Federal e uso de fintechs pelo PCC
Em agosto, a Polícia Federal deflagrou três operações simultâneas — Carbono Oculto, Quasar e Tank — que desarticularam um esquema bilionário de sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.
As investigações revelaram o uso de pelo menos 40 fundos de investimento e diversas fintechs para movimentar recursos ligados à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
O grupo utilizava carteiras digitais e contas de pagamento para ocultar patrimônio e disfarçar transações ilícitas, escapando da vigilância de instituições tradicionais.
Segundo a PF, o esquema desviou mais de R$ 7,6 bilhões em tributos não recolhidos, além de gerar um rastro de fraudes financeiras em diferentes estados.
Crescem ataques hackers a instituições financeiras
Nos quatro meses anteriores ao evento, três grandes incidentes de cibersegurança chamaram atenção do setor:
- Julho: A C&M Software, fornecedora de serviços que conecta instituições financeiras ao BC, relatou ataque hacker à sua infraestrutura, levantando dúvidas sobre vulnerabilidades sistêmicas.
- Setembro: A Monbank sofreu um ataque cibernético que resultou no desvio de R$ 4,9 milhões. A fintech afirmou que nenhum cliente foi afetado e que R$ 4,7 milhões foram recuperados.
- Também em setembro: A Sinqia, uma das maiores empresas de tecnologia bancária do país, confirmou fraude de R$ 710 milhões em transações não autorizadas por meio do sistema Pix.
Esses episódios elevaram a pressão sobre o Banco Central, que passou a ser cobrado por maior rigor na certificação de empresas de infraestrutura e APIs bancárias.
O impacto no futuro do Pix e das fintechs

A decisão de adiar as regras do Pix Parcelado não significa retrocesso, mas um freio estratégico para reconstruir a confiança.
Segundo especialistas, o movimento deve gerar uma “fase de maturação” para o sistema de pagamentos instantâneos, que precisa equilibrar velocidade e segurança.
O Pix Parcelado é considerado uma evolução natural do ecossistema, permitindo que usuários parcelassem pagamentos diretamente pelo sistema do BC, sem depender de cartões de crédito.
O modelo promete inclusão financeira e redução de custos de crédito, mas exige infraestrutura robusta e controles antifraude avançados.
“O Brasil lidera o mundo em inovação financeira. O desafio é manter esse protagonismo sem comprometer a integridade do sistema”, resume Auziane Morais.
Conclusão: reconstruir confiança para sustentar inovação
O adiamento da padronização do Pix Parcelado reflete um momento de inflexão no sistema financeiro brasileiro.
Após uma sequência de escândalos, ataques e falhas de governança, o Banco Central busca reequilibrar sua agenda entre inovação e segurança.
Para o mercado, o episódio reforça a necessidade de cooperação, ética e diligência técnica.
Enquanto o Pix continua sendo um símbolo global de sucesso, sua expansão dependerá da confiança do usuário e da integridade das fintechs que o operam.
A reconstrução dessa base — embora custosa e demorada — é o único caminho possível para sustentar o futuro digital das finanças no país.
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