O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático ao afastar o Pix das mesas de negociação com os Estados Unidos. O sistema de pagamento eletrônico desenvolvido pelo Banco Central (BC) em 2020 ganhou o mundo como um exemplo de inovação e inclusão financeira. Elogiado por especialistas, economistas e até citado em artigos de ganhadores do Nobel, o Pix segue evoluindo — e incomodando.
Nova funcionalidade do Pix promete competir com Visa e Mastercard
Pix parcelado chega em setembro e pressiona o setor de cartões. Ferramenta promete mais inclusão e reacende disputa com big techs e bandeiras globais.
A partir de setembro de 2025, a plataforma ganhará mais uma funcionalidade: o Pix parcelado. A nova ferramenta promete revolucionar o consumo no varejo e ampliar ainda mais a penetração do Pix, especialmente entre brasileiros que não têm acesso a cartão de crédito. A notícia, anunciada em junho pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já mexe com o mercado e provoca desconforto entre os gigantes do setor financeiro.
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O que é o Pix parcelado

Como a ferramenta vai funcionar
O Pix parcelado é uma funcionalidade que permitirá que o consumidor parcele compras diretamente pelo sistema Pix. A grande inovação é que o comerciante receberá o valor total da venda à vista, enquanto o cliente pagará em parcelas. A operação será intermediada por instituições financeiras e fintechs, que assumirão o risco e poderão cobrar juros pela operação — embora o custo deva ser menor que o dos cartões.
Vantagens do novo sistema
- Inclusão financeira: será uma alternativa para os 60 milhões de brasileiros que não possuem cartão de crédito.
- Liquidez para comerciantes: os estabelecimentos comerciais recebem o valor integral no momento da transação.
- Custos menores: taxas operacionais devem ser inferiores às cobradas pelas bandeiras de cartão.
Segundo o BC, essa nova fase do Pix deve impulsionar o setor varejista em um cenário de juros ainda altos, oferecendo fôlego ao consumo sem ampliar o endividamento em linhas caras de crédito.
Pix Garantido vem aí
Expectativa para 2026
Além do Pix parcelado, o Banco Central também prepara o lançamento do Pix Garantido. Previsto para entrar em operação em 2026, o sistema permitirá que empresas usem valores futuros recebíveis via Pix como garantia para empréstimos, ampliando a oferta de crédito com base em transações já contratadas.
O incômodo das gigantes do cartão
Críticas ao Banco Central
A expansão do Pix e suas funcionalidades vem gerando desconforto entre empresas como Visa, Mastercard e American Express. Desde 2022, executivos dessas companhias manifestam abertamente críticas à presença do sistema dentro do Banco Central.
Em declarações públicas, Marcelo Tangioni, CEO da Mastercard no Brasil, chegou a dizer que “o Pix é ótimo, mas não deveria estar dentro do Banco Central”. Segundo ele, isso gera desequilíbrio de competição, já que o regulador estaria atuando também como operador de mercado.
Dados que justificam a preocupação
Em 2025, o Pix já representa 49% de todas as transações financeiras do país, enquanto os cartões de crédito respondem por apenas 14% das operações. Os pagamentos por débito seguem em queda constante, e a migração para o sistema gratuito preocupa as empresas que lucram com taxas de transação.
Big techs também querem o Pix para si

Reuniões com o governo revelam intenções
Outro grupo de interesse envolvido no debate é formado pelas big techs. Meta, Google, Amazon e outras gigantes da tecnologia também miram o Pix como peça estratégica de seus ecossistemas financeiros.
Em reuniões recentes com o governo brasileiro, representantes dessas empresas propuseram formas de integração com o Pix, sugerindo inclusive sua monetização futura. A ideia, que vem sendo chamada informalmente de “Pix para todos”, busca transformar o sistema gratuito em um produto próprio, com possibilidade de cobrança por uso — contrariando a proposta original do Banco Central.
O caso WhatsApp Pay
Meta foi afetada diretamente pelo avanço do Pix
Um exemplo emblemático dessa disputa ocorreu com o lançamento do WhatsApp Pay. Anunciado pela Meta poucos meses após a estreia do Pix, o sistema de pagamentos via aplicativo enfrentou forte resistência das autoridades brasileiras.
O Banco Central e o Cade suspenderam temporariamente o funcionamento do serviço, alegando riscos à concorrência e à privacidade. A liberação só ocorreu em 2021, quando o Pix já estava consolidado. Desde então, a Meta passou a incorporar o Pix ao WhatsApp como alternativa.
Guilherme Horn, executivo da Meta, reconheceu em entrevista que o avanço do Pix desestruturou os planos originais da empresa. “A Meta queria ser pioneira, mas o Pix ocupou esse espaço”, admitiu.
Pressão internacional: Trump e o USTR
Pix foi incluído como “prática desleal” em relatório dos EUA
A influência do Pix no cenário geopolítico também ficou evidente nas tensões comerciais com os Estados Unidos. Em documento do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), o sistema brasileiro foi citado como prática “desleal”, sob alegação de beneficiar serviços públicos em detrimento da concorrência internacional.
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Donald Trump, em sua campanha eleitoral, elevou o tom. Anunciou tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros e recomendou incluir o Pix em listas de práticas investigadas. A acusação, ainda que vaga, evidencia o desconforto com o protagonismo brasileiro em sistemas de pagamento.
Proteger o mercado ou barrar concorrência?
A tentativa de desqualificar o Pix foi interpretada por analistas como um esforço para proteger as empresas americanas, como Visa, Mastercard e a própria Meta, que perdem espaço em um ambiente onde a transação é gratuita e controlada por um banco central.
A chegada da UnionPay e a nova disputa global
Entrada de gigante chinesa deve sacudir o setor
Como se não bastassem as pressões internas e americanas, o mercado brasileiro assistiu recentemente ao anúncio da entrada da gigante chinesa UnionPay, maior operadora de cartões da Ásia. A empresa mira justamente o espaço deixado pelas bandeiras tradicionais em um país onde o Pix avança rapidamente.
A movimentação promete acirrar a concorrência global. Enquanto os Estados Unidos tentam limitar o Pix, a China busca abrir espaço para suas empresas em um mercado em transformação. O Brasil, por sua vez, se firma como protagonista de um novo modelo de pagamentos mais inclusivo, digital e soberano.
O futuro do Pix e o papel do Estado

Inovação pública como motor de desenvolvimento
O caso do Pix mostra que inovação estatal pode competir com soluções privadas quando há coordenação, tecnologia e visão de longo prazo. O sucesso do sistema brasileiro não é apenas técnico — ele representa uma alternativa real à hegemonia de grandes corporações financeiras e de tecnologia.
Com o Pix parcelado e o Pix Garantido, o Banco Central amplia as funcionalidades da plataforma e mantém seu compromisso com a eficiência e a inclusão. Mas, à medida que o sistema avança, os conflitos com setores privados devem se intensificar.
O que ganha o consumidor
Para o consumidor, no entanto, o saldo é positivo. Mais opções, menos taxas e maior controle sobre o próprio dinheiro. E, ao que tudo indica, essa história está só começando.
Conclusão
O avanço do Pix parcelado representa mais do que uma evolução tecnológica: é um marco na disputa por poder dentro do sistema financeiro global. Enquanto o Banco Central brasileiro aposta em inclusão e eficiência, grandes corporações e potências estrangeiras reagem com resistência. Em meio a essa tensão, o consumidor brasileiro segue como principal beneficiado, com acesso a soluções cada vez mais rápidas, acessíveis e democráticas. O futuro do Pix, ao que tudo indica, será cada vez mais estratégico — e disputado.
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