O Pix terá novas regras de segurança a partir de setembro, com mudanças destinadas principalmente a melhorar a identificação de transações suspeitas e o rastreamento do dinheiro movimentado após golpes e fraudes.
Uma das alterações amplia as informações disponíveis para as instituições financeiras nas chamadas notificações de infração. Na prática, bancos e demais participantes terão mais elementos para entender em que ponto da cadeia de transferências determinada movimentação aparece.
A mudança é importante porque criminosos raramente deixam o dinheiro roubado parado na primeira conta que recebeu o Pix. Os recursos podem ser transferidos rapidamente para outras contas, estratégia que dificulta o bloqueio e reduz as chances de recuperação.
As novas medidas fazem parte de uma sequência de aperfeiçoamentos promovidos pelo Banco Central (BC) na estrutura de segurança do Pix e no Mecanismo Especial de Devolução (MED).
Além das regras que entram em vigor, o BC desenvolve outras ferramentas para combater fraudes, incluindo modelos capazes de estimar a probabilidade de uma transação ser fraudulenta.
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O que muda no Pix a partir de setembro?

A principal alteração está relacionada às informações utilizadas pelas instituições durante a investigação de movimentações suspeitas.
A partir de setembro, a abertura de uma notificação de infração poderá carregar informações adicionais que ajudam a identificar a posição da transação dentro da cadeia de movimentação dos recursos.
Imagine, por exemplo, que uma vítima transfira R$ 5 mil para uma conta utilizada em um golpe.
Poucos minutos depois, o criminoso envia R$ 2 mil para uma segunda conta, R$ 2 mil para uma terceira e R$ 1 mil para uma quarta.
Olhar exclusivamente para a primeira conta pode não ser suficiente, porque o saldo provavelmente já terá desaparecido quando a vítima perceber a fraude e procurar o banco.
Quanto mais informações as instituições conseguirem compartilhar sobre o caminho percorrido pelo dinheiro, maiores são as possibilidades de identificar as contas utilizadas na sequência.
Mudança reforça rastreamento do dinheiro de golpes
A lógica acompanha uma transformação importante que já ocorreu no Mecanismo Especial de Devolução.
O MED foi criado pelo Banco Central especificamente para facilitar devoluções em situações envolvendo fraude, golpe ou determinadas falhas operacionais.
O problema do modelo original era justamente a velocidade com que criminosos movimentavam o dinheiro.
O próprio Banco Central reconheceu essa limitação ao aprimorar o mecanismo: muitas vezes, quando o cliente apresentava a reclamação, os recursos já tinham sido retirados da conta que recebeu originalmente o Pix.
A solução foi permitir que a estrutura de recuperação identificasse possíveis caminhos seguidos pelos recursos.
Desde 2 de fevereiro de 2026, a funcionalidade de recuperação de valores que rastreia transações subsequentes tornou-se obrigatória para os participantes do Pix abrangidos pela regra.
Portanto, as novidades de setembro devem ser compreendidas como mais uma etapa desse processo de aprimoramento.
O que é o Mecanismo Especial de Devolução do Pix?
O MED é uma ferramenta exclusiva do Pix criada para aumentar as possibilidades de recuperação do dinheiro quando há fraude.
Quando uma pessoa percebe que foi vítima de golpe, deve comunicar sua instituição financeira e solicitar a abertura do procedimento.
Segundo as orientações do Banco Central, o pedido relacionado a fraude pode ser registrado em até 80 dias depois da realização do Pix, embora a recomendação seja agir o mais rapidamente possível.
Quanto mais cedo o banco for avisado, maior tende a ser a possibilidade de ainda existirem recursos que possam ser bloqueados.
O procedimento envolve a análise das instituições participantes e pode resultar na devolução integral ou parcial dos valores quando os requisitos forem atendidos e houver recursos recuperáveis.
MED não garante que todo dinheiro será recuperado
Esse é um ponto fundamental para evitar falsas expectativas.
Abrir uma contestação pelo MED não significa que o Banco Central ou o banco garantirá automaticamente a devolução do Pix.
O mecanismo permite investigar a fraude, bloquear recursos quando aplicável e tentar recuperar o dinheiro disponível.
O sucesso depende de fatores como a análise do caso e a existência de valores que possam efetivamente ser bloqueados e devolvidos.
O Banco Central explica que, quando a fraude é confirmada, a devolução pode ser integral ou parcial, dependendo da disponibilidade dos recursos.
Por isso, a ampliação do rastreamento das transferências é tão importante.
Se o dinheiro não estiver mais na primeira conta, identificar rapidamente o caminho percorrido pode aumentar a possibilidade de encontrar recursos em contas utilizadas posteriormente.
MED não serve para qualquer Pix enviado por engano
Outra confusão frequente envolve o alcance da ferramenta.
O Mecanismo Especial de Devolução não funciona como um botão para cancelar qualquer transferência.
O próprio Banco Central deixa claro que o recurso é destinado às hipóteses previstas nas regras do mecanismo, como fraudes e determinadas falhas operacionais.
O MED não deve ser utilizado simplesmente porque o consumidor:
- se arrependeu de uma compra;
- digitou uma chave errada por conta própria;
- enviou dinheiro para a pessoa errada;
- teve um desacordo comercial comum com uma empresa.
Essas situações não devem ser confundidas com fraude.
Recuperação agora pode alcançar movimentações posteriores
Uma das mudanças mais relevantes implementadas no MED foi justamente deixar de observar apenas a conta inicialmente beneficiada.
O guia operacional do Banco Central define a recuperação de valores como um aprimoramento do MED que permite rastrear e bloquear recursos suspeitos não apenas na conta de destino original, mas também em transações subsequentes.
Isso responde diretamente a uma estratégia utilizada em diferentes fraudes financeiras.
Depois de receber o dinheiro, criminosos podem movimentá-lo por várias contas para dificultar a localização dos recursos.
O sistema aprimorado procura reconstruir parte desse caminho.
O Banco Central informou que o compartilhamento das informações entre participantes pode aumentar não somente a possibilidade de devolução, mas também a identificação de contas usadas em golpes.
Banco Central desenvolve um “score” para identificar fraudes
Outra frente de segurança em desenvolvimento envolve a criação de um indicador de probabilidade de fraude.
A ideia é utilizar modelos tecnológicos para estimar, em tempo real, a possibilidade de determinada transação apresentar características compatíveis com uma fraude.
O sistema poderá recorrer a ferramentas de inteligência artificial e machine learning, analisando padrões e sinais associados às operações.
Na prática, seria uma espécie de pontuação de risco.
Uma transferência considerada muito diferente do comportamento normal daquele usuário, por exemplo, poderia apresentar um nível de risco maior e receber atenção adicional dos sistemas antifraude.
Isso não significa necessariamente que toda transação considerada suspeita será automaticamente recusada.
O modelo ainda está em desenvolvimento e sua utilização dependerá da estrutura definida pelo Banco Central e pelas instituições participantes.
Bancos já podem analisar operações fora do padrão
A avaliação de risco em transferências não começa com o novo projeto.
O Pix já possui diferentes mecanismos de segurança.
Entre eles está a possibilidade de as instituições adotarem tempo diferenciado para autorizar transações não usuais que apresentem elevada probabilidade de fraude.
Também existe compartilhamento de informações relacionadas a chaves Pix, contas e CPFs ou CNPJs que tenham envolvimento com transações fraudulentas.
A nova pontuação de risco poderá ampliar a capacidade de análise, especialmente com modelos capazes de processar grandes quantidades de informações rapidamente.
Instituições consideradas de risco podem sofrer restrições
O Banco Central também avalia instrumentos adicionais para lidar com participantes que apresentem riscos para a segurança do ecossistema.
Entre as possibilidades estudadas estão medidas cautelares que podem restringir determinadas operações.
As ações em discussão podem envolver limitações no cadastramento de novas chaves, restrições de valores, horários ou até condições de acesso à infraestrutura utilizada pelo Pix.
É importante, porém, separar essas propostas das regras que já possuem data definida.
Nem todas as medidas de segurança atualmente estudadas pelo BC entrarão em vigor em setembro. Parte delas continua em desenvolvimento ou discussão.
Alertas de golpe podem ficar mais padronizados
Outra questão analisada pelo Banco Central é a forma como os clientes são avisados quando uma transferência apresenta características suspeitas.
Hoje, bancos e instituições de pagamento utilizam seus próprios sistemas antifraude e diferentes formatos de alerta.
A intenção de estabelecer requisitos mínimos para essas mensagens poderia deixar a comunicação mais uniforme.
Para o consumidor, um alerta claro no momento da transferência é particularmente relevante porque muitos golpes dependem da pressa.
Fraudes envolvendo falso funcionário de banco, falsa central de atendimento, compra inexistente ou suposto familiar em emergência normalmente tentam convencer a vítima a transferir o dinheiro antes de verificar a história.
Chaves Pix também estão no centro das medidas de segurança
O Diretório de Identificadores de Contas Transacionais (DICT) concentra informações utilizadas na infraestrutura das chaves Pix.
Esse ambiente também desempenha papel importante no combate às fraudes.
As instituições já possuem obrigações relacionadas à conformidade dos dados vinculados às chaves e às informações existentes nas bases oficiais.
Além disso, registros relacionados a fraudes podem ajudar outras instituições a avaliar riscos antes de autorizar determinadas operações.
A ampliação dos instrumentos disponíveis ao Banco Central pode reforçar esse controle sobre chaves utilizadas em esquemas criminosos.
Dados incorretos em chaves Pix já são alvo de controle
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A segurança das chaves também recebeu mudanças anteriormente.
O Banco Central passou a exigir maior conformidade entre as informações vinculadas às chaves Pix e os dados existentes nas bases da Receita Federal.
A medida busca dificultar a utilização de cadastros inconsistentes no sistema financeiro.
Essa estratégia é importante porque contas abertas ou utilizadas com dados problemáticos podem servir como destino intermediário de dinheiro obtido por meio de golpes.
Combater as chamadas contas utilizadas para receber e redistribuir recursos fraudulentos tornou-se uma das prioridades das instituições financeiras.
Pix de R$ 0,01 também entrou no radar

Outro comportamento acompanhado pelo Banco Central envolve transferências de valores extremamente baixos, como R$ 0,01.
Em determinadas situações, usuários realizam essas operações para enviar mensagens no campo de descrição da transferência ou tentar estabelecer algum tipo de contato com o destinatário.
O problema é que funcionalidades legítimas podem ser exploradas de maneiras não previstas originalmente.
Por isso, o tema passou a ser discutido dentro do Fórum Pix, que reúne o Banco Central e participantes do mercado para avaliar aprimoramentos no sistema.
O desafio é encontrar uma solução que reduza usos potencialmente problemáticos sem prejudicar as características que tornaram o Pix uma ferramenta simples e eficiente.
O que fazer imediatamente depois de cair em um golpe do Pix?
As novas ferramentas de rastreamento não eliminam a necessidade de agir rapidamente.
O Banco Central orienta que a vítima acione o MED pelo aplicativo da instituição financeira o mais rápido possível. As instituições participantes devem oferecer esse serviço em seus aplicativos.
Desde outubro de 2025, o autoatendimento tornou possível contestar transações fraudulentas diretamente no ambiente Pix dos aplicativos, sem depender inicialmente da interação com um atendente.
Quanto menor o intervalo entre a transferência e a contestação, maior é a possibilidade de os mecanismos de segurança encontrarem recursos disponíveis para bloqueio.
A vítima também deve preservar comprovantes, mensagens e outras evidências relacionadas ao golpe.
Dependendo da situação, registrar boletim de ocorrência também pode ser importante para documentar o crime e auxiliar outras providências.
Como solicitar a devolução pelo MED?
A localização exata das opções varia conforme o aplicativo do banco, mas o procedimento deve estar disponível dentro do ambiente Pix.
Em linhas gerais, o cliente deve localizar a transação suspeita e utilizar a opção oferecida para contestar a operação ou solicitar a devolução relacionada a fraude.
Depois disso, o caso entra no fluxo de análise previsto pelo mecanismo.
O usuário também pode acompanhar a evolução da solicitação pelo aplicativo da instituição. O autoatendimento foi criado justamente para acelerar a contestação e aumentar as chances de bloquear os recursos antes que desapareçam das contas envolvidas.
Novas regras significam que o Pix ficará mais seguro?
As mudanças ampliam as ferramentas disponíveis para identificar movimentações fraudulentas, mas nenhum sistema elimina completamente os golpes.
Uma parte significativa das fraudes depende de engenharia social.
O criminoso não precisa necessariamente invadir o sistema do banco. Muitas vezes, convence a própria vítima a autorizar voluntariamente a transferência.
É o que ocorre quando alguém se passa por funcionário de banco, vendedor, advogado, parente ou representante de uma empresa e cria uma situação falsa para conseguir dinheiro.
Por isso, ferramentas tecnológicas e comportamento preventivo precisam funcionar juntos.
Como se proteger de golpes mesmo com as novas regras?
Antes de confirmar uma transferência, confira atentamente o nome e os dados apresentados pelo aplicativo.
Pedidos inesperados de dinheiro devem ser confirmados por outro canal, principalmente quando partirem supostamente de familiares ou conhecidos.
Também desconfie de pessoas que criam urgência e insistem para que o pagamento seja feito imediatamente.
Os limites do Pix podem ser ajustados pelo usuário, e pedidos de redução possuem efeito imediato. Já solicitações de aumento não são necessariamente imediatas e passam pela análise da instituição.
Manter limites compatíveis com a rotina financeira pode reduzir o tamanho do prejuízo caso o celular ou as credenciais bancárias sejam comprometidos.
Setembro marca mais uma etapa no reforço da segurança do Pix
As novas regras que começam a produzir efeitos em setembro não representam uma reformulação completa do Pix, mas fazem parte de um processo contínuo de fortalecimento da segurança do sistema.
A principal mudança está no aprimoramento das informações utilizadas durante o rastreamento de operações suspeitas.
Isso complementa uma transformação maior já implementada no MED: a possibilidade de acompanhar o dinheiro para além da conta que recebeu originalmente a transferência fraudulenta.
Ao mesmo tempo, o Banco Central trabalha em outras frentes, como análise de probabilidade de fraude, controles sobre instituições e chaves suspeitas e aperfeiçoamento dos alertas apresentados aos clientes.
Para o usuário, entretanto, a recomendação permanece simples: se perceber que caiu em um golpe, conteste a transação no aplicativo do banco imediatamente.
O MED aumenta a possibilidade de recuperação, mas não garante que todo o dinheiro voltará. Em fraudes realizadas em segundos, agir rapidamente continua sendo uma das melhores formas de aumentar as chances de encontrar e bloquear os recursos.



