O Plano Safra 2025/26, anunciado no dia 1º de julho pelo governo federal, trouxe a promessa de mais recursos para o financiamento da agricultura empresarial, com um volume total 1,5% maior do que o liberado na temporada passada.
Plano Safra: taxas de custeio continuam compensando, afirma Cogo
Apesar do aumento nominal no Plano Safra 2025/26, consultor afirma que inflação anula ganho real e alerta para juros altos e cortes na equalização.
No entanto, segundo análise do consultor em agronegócio Carlos Cogo, esse incremento não representa um aumento real — e pode até significar retrocesso quando se considera a inflação acumulada de 5,3% no período.
Em entrevista ao Canal Rural, o especialista avaliou que o programa, embora essencial, sofre com cortes na verba de equalização de juros, juros historicamente elevados e risco de liberação parcial dos recursos. A crítica foi feita com base nos números do novo plano e no cenário econômico nacional, que, segundo ele, é afetado por uma política fiscal desajustada.
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Comparativo com a safra anterior
O Plano Safra 2025/26 destina cerca de R$ 8 bilhões a mais para a agricultura empresarial em relação ao ciclo anterior. No entanto, segundo Carlos Cogo, esse crescimento fica abaixo da inflação acumulada, o que implica uma redução do poder de compra real dos produtores rurais.
“Não se trata de aumento real. Com a inflação em 5,3%, a elevação nominal de 1,5% representa uma perda concreta de capacidade de investimento”, afirma o consultor.
Esse cenário, segundo ele, reduz a eficácia do plano como instrumento de estímulo ao crescimento do agronegócio.
Cortes na equalização de juros preocupam especialistas
Redução expressiva nos subsídios
Outro ponto sensível apontado por Cogo é a queda nos recursos destinados à equalização de juros, que serve para baratear os financiamentos oferecidos ao produtor rural. Em números absolutos, o corte é significativo:
- Agricultura familiar: caiu de R$ 10,43 bilhões para R$ 9,558 bilhões
- Agricultura empresarial: caiu de R$ 5,94 bilhões para R$ 3,942 bilhões
Essa redução, segundo o consultor, compromete a competitividade do produtor nacional e pressiona os agricultores, especialmente os que dependem de crédito subsidiado para financiar sua produção.
“É um corte preocupante. Sem recursos suficientes para equalização, as taxas de juros sobem, o custo da produção aumenta e a margem do produtor encolhe”, alerta.
Juros são os mais altos da história dos Planos Safra
Custos elevados mesmo com crédito oficial
Cogo também chamou atenção para os juros cobrados nas linhas de crédito oficiais, que figuram entre os maiores já registrados nos Planos Safra. Para os médios produtores, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) oferecerá R$ 69,18 bilhões com juros de 10% ao ano, ante 8% na safra 2024/25.
Já os demais produtores enfrentarão taxas ainda mais salgadas:
- Custeio agrícola: juros de até 14% ao ano
- Investimento: variam entre 8,5% e 13,5% ao ano
Comparação com o mercado privado
Apesar dos índices elevados, o consultor pondera que, do ponto de vista técnico, as taxas do Plano Safra ainda são inferiores às praticadas no mercado privado. Ele cita como exemplo as CPRs (Cédulas de Produto Rural), que chegam a 22% ou até 25% ao ano, dependendo do perfil de risco do produtor e da operação.
“Taxa de custeio de até 14% ao ano é incompatível com o agronegócio, mas, do ponto de vista analítico, ainda é inferior à média de mercado. O problema é que, para muitos, o acesso ao Plano Safra é limitado e nem todos conseguem captar”, explica.
Pronamp: solução parcial para médios produtores
R$ 69,18 bilhões com juros de 10%
O programa voltado aos médios produtores rurais, o Pronamp, receberá R$ 69,18 bilhões em recursos, com juros de 10% ao ano. Embora a taxa seja menor que as demais linhas de custeio, ainda representa um encarecimento em relação à safra passada, quando a taxa era de 8%.
Segundo Cogo, essa elevação precisa ser analisada com cautela:
“O Pronamp ainda é uma boa alternativa para quem consegue se enquadrar nos critérios, mas os produtores precisam agir rápido, porque os recursos costumam se esgotar cedo”, recomenda.
Recursos podem não ser totalmente liberados
Histórico de liberações parciais
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Mesmo com o anúncio de cifras bilionárias, nem sempre os recursos do Plano Safra são integralmente liberados durante o ano agrícola. Carlos Cogo afirma que essa é uma tendência que se repetiu em vários ciclos anteriores, e deve se manter em 2025/26.
“O produtor que puder já deve buscar complementar a compra de insumos. Provavelmente, como nos anos anteriores, os recursos não serão totalmente disponibilizados ao longo da safra”, alerta o consultor.
Risco de frustração
Essa liberação parcial pode gerar frustração entre os produtores que planejarem seus custos com base na expectativa de financiamento oficial e acabarem sem acesso ao crédito no momento crítico da produção.
Panorama geral do Plano Safra 2025/26

Recursos totais
O Plano Safra 2025/26 anunciou mais de R$ 475 bilhões para o financiamento da agropecuária nacional, considerando todas as modalidades e faixas de produtores. Os recursos estão divididos entre:
- Agricultura familiar (Pronaf)
- Médios produtores (Pronamp)
- Agricultura empresarial
- Cooperativas e investimentos coletivos
Linhas de financiamento disponíveis
Entre as principais modalidades de crédito estão:
- Custeio agrícola e pecuário
- Investimento em infraestrutura e tecnologia
- Comercialização de produtos
- Industrialização de produtos agropecuários
Todas essas linhas seguem critérios específicos, com variações nos limites de crédito, carência, prazo de pagamento e, principalmente, nas taxas de juros.
Considerações finais de Carlos Cogo
Carlos Cogo, que é sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, finaliza sua análise com uma visão técnica, porém crítica:
“O Plano Safra segue sendo importante, mas sua eficácia está comprometida pelo contexto macroeconômico. A combinação de inflação elevada, juros altos e corte na equalização reduz o impacto positivo esperado. É preciso um ajuste de rota para não comprometer a próxima safra.”
