O Brasil continua sendo palco de uma grave crise trabalhista no setor de serviços por aplicativo. A edição 2025 do relatório da Fairwork, organização internacional que avalia condições de trabalho em plataformas digitais, divulgada na terça-feira (23), escancara uma realidade alarmante: oito das dez principais plataformas atuando no país não pontuaram em nenhum dos critérios mínimos de trabalho justo.
Direitos dos trabalhadores em foco: Uber, 99 e iFood recebem nota zero
Relatório Fairwork 2025 aponta que Uber, iFood e 99 não garantem condições mínimas de trabalho a motoristas e entregadores no Brasil.
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Plataformas como Uber, iFood, 99 e Rappi zeram critérios de trabalho decente
Entre as empresas avaliadas, Uber, iFood, 99, Americanas-Ame Flash, Lalamove, Loggi, Parafuzo e Rappi não atingiram nenhum dos dez indicadores da Fairwork, que avaliam questões como remuneração justa, condições de trabalho seguras, contratos transparentes, gestão responsável e representação dos trabalhadores.
As únicas que pontuaram – InDrive e Superprof – atingiram apenas um ponto cada, o que evidencia a sistemática precarização das relações de trabalho promovidas por esse setor no país.
Retrocesso em relação ao relatório de 2023
Segundo os pesquisadores da Fairwork, a situação em 2025 é ainda pior do que a observada no ano anterior. Plataformas que chegaram a atender minimamente algum dos critérios em 2023 agora regrediram e zeraram na avaliação atual.
Apesar da degradação das condições de trabalho, as plataformas seguem anunciando investimentos bilionários e planos de expansão no país. Um exemplo é a 99Food, que chega para competir com o iFood, e já anunciou R$ 2 bilhões em investimentos no primeiro ano, segundo revelou o presidente da 99 ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em reunião no Palácio do Planalto.
Promessas políticas não se concretizam
Enquanto as empresas são recebidas com honras no Executivo, a promessa de regulamentação do trabalho por aplicativo feita por Lula durante a campanha segue sem avanço real. O grupo de trabalho criado para tratar do tema não publicou seu relatório final, e entregadores ficaram de fora da proposta de projeto de lei que contempla apenas motoristas.
O vácuo legal mantém trabalhadores à margem
Esse impasse jurídico contribui para a permanência dos trabalhadores sem direitos trabalhistas, sem cobertura previdenciária e sem proteção contra abusos. A situação é agravada por penalizações indevidas, riscos físicos e jornadas exaustivas.
Realidade cruel: mais trabalho, menor renda
Dados recentes da PNAD Contínua de 2022, citados no relatório, mostram que motoristas e entregadores estão trabalhando mais horas para obter a mesma ou até menor renda. A queda nos ganhos por hora, combinada à ausência de reajustes e incentivos, é um dos principais motivos da insatisfação crescente da categoria.
Doença, acidentes e falta de amparo
As más condições de trabalho resultam em doenças físicas e psicológicas, acidentes frequentes e um cenário de completo abandono institucional, conforme denunciam organizações de trabalhadores.
Avanço da regulamentação na Europa contrasta com estagnação brasileira

Enquanto o Brasil patina no debate regulatório, a União Europeia aprovou uma diretriz que presume vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas, invertendo o ônus da prova e obrigando empresas a provarem que não há relação de emprego. Já no Brasil, o tema segue travado no Supremo Tribunal Federal (STF), onde ações de repercussão geral permanecem sem julgamento.
Fortalecimento da organização dos trabalhadores
Apesar da falta de avanços institucionais, o relatório Fairwork destaca o surgimento de novos sindicatos, coletivos e associações de entregadores e motoristas em todo o país.
Novas lideranças e maior visibilidade
“Um conjunto diversificado de lideranças foi formado, fortalecendo a capacidade de promoção e visibilidade de suas demandas político-sindicais”, afirmam os autores do relatório. As organizações têm denunciado não só a falta de direitos, mas também abusos e arbitrariedades cometidas pelas plataformas.
Greves e paralisações ganham força
Em março de 2025, trabalhadores organizaram um novo “breque dos apps”, como são chamadas as paralisações da categoria. A mobilização envolveu mais de 200 cidades e todas as capitais do país, com reivindicações como:
- Aumento das taxas de entrega;
- Fim das metas abusivas;
- Limitação de entregas por bicicleta;
- Políticas específicas de proteção a mulheres entregadoras.
Mulheres entregadoras ganham protagonismo
O relatório ressalta ainda o avanço na organização de entregadoras mulheres, que vêm pautando direitos relacionados à maternidade, saúde feminina, combate ao assédio e segurança nas entregas – temas historicamente ignorados pelas plataformas e pelo poder público.
Ciclo perverso: plataformas lucram com a dívida dos trabalhadores
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Outro dado alarmante da edição 2025 do Fairwork é a relação perversa entre as plataformas e o endividamento dos trabalhadores. Empresas como a Uber, o iFood e a InDrive criaram braços financeiros que oferecem cartões, empréstimos e adiantamentos para os profissionais.
Bancos próprios e cartões de crédito
- Uber: possui um banco próprio e fornece cartão de crédito a motoristas cadastrados;
- iFood: criou o iFood Pago, que já gerou mais de R$ 1,2 bilhão em receita;
- InDrive: oferece empréstimos diretos a motoristas parceiros.
Plataformas são causa e “solução” das dívidas
As mesmas empresas que impõem remunerações baixas, metas inatingíveis e penalidades abusivas são as que oferecem linhas de crédito para “ajudar” os trabalhadores — criando um ciclo de dependência econômica e controle financeiro.
“As plataformas obtêm lucros adicionais por meio dos juros sobre os financiamentos oferecidos aos trabalhadores”, afirma o relatório.
Aluguéis de veículos aprofundam dívidas
Além disso, há o envolvimento de empresas terceirizadas de aluguel de motos, bikes e carros, que muitas vezes atuam em parceria com as plataformas e debitam automaticamente valores das contas dos profissionais, fazendo com que muitos comecem o dia já no negativo.
Proximidade das plataformas com o Judiciário gera revolta
No fim de maio, um vídeo do presidente do iFood, Diego Barreto, cantando karaokê ao lado do ministro do STF, Luís Roberto Barroso, gerou revolta entre entregadores e motoristas. A proximidade entre o setor empresarial e o Judiciário foi criticada por representar conflito de interesses em julgamentos cruciais sobre vínculo empregatício.
Especialistas apontam agravamento da crise

Segundo Julice Salvagni, professora da UFRGS e coautora do relatório, os trabalhadores estão se organizando porque não têm mais alternativas.
“Eles não podem deixar de trabalhar porque dependem da renda, mas também não suportam mais as condições impostas pelas plataformas”, afirma.
A combinação entre precarização, endividamento e falta de alternativas tem transformado os trabalhadores em reféns dos aplicativos.
Imagem: Diego Thomazini/shutterstock.com
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