Nem deu tempo de o consumidor brasileiro sentir o alívio no bolso. O café moído, medido pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou queda de 2,17% em agosto em relação a julho. Foi o segundo mês consecutivo de recuo, algo raro após um ano e meio de aumentos consecutivos.
Preço do café cai novamente, mas pode subir em breve
Após breve queda, o preço do café volta a subir no Brasil em 2025, pressionado pelo tarifaço dos EUA e pela baixa produção de arábica.
Essa redução momentânea, porém, não deve durar. O diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio, estima que os preços subirão novamente entre 10% e 15% nas próximas semanas, voltando ao patamar de dezembro, quando o quilo do café ultrapassou os R$ 80.
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Por que o alívio não durou

O motivo principal é que a indústria passou a pagar mais caro pelo café vindo das fazendas. A alta no campo ocorre desde o início de agosto, revertendo quedas observadas a partir de março. O movimento está diretamente ligado a fatores internacionais e domésticos, que pressionam o mercado de ponta a ponta.
Fatores que impulsionam a alta
O tarifaço dos EUA
O fator mais comentado é o tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos ao café brasileiro. Até o início de agosto, o impacto ainda não era claro, pois havia expectativa de que o então presidente dos EUA, Donald Trump, retirasse o café da lista de produtos taxados — como aconteceu com o suco de laranja.
No entanto, o café não foi isento. Como consequência, a bolsa de Nova York, principal referência mundial de preços, disparou. Isso ocorreu porque os EUA são os maiores compradores do café brasileiro, respondendo por mais de 30% do consumo norte-americano.
Baixos estoques globais
Outro fator de peso são os baixos estoques mundiais. Desde 2020, os maiores produtores — Brasil, Vietnã e Colômbia — enfrentam problemas climáticos, como secas e geadas, reduzindo seguidamente as safras. O resultado é uma oferta limitada e estoques reduzidos, o que mantém os preços altos.
Queda na produção brasileira
O Brasil, principal produtor global, também não escapou. A safra de café arábica deve registrar queda de 18,7% em 2025 em relação a 2024, segundo a consultoria StoneX Brasil. A expectativa inicial era positiva, mas o fim da colheita mostrou menor volume e rendimento.
O efeito das geadas no Cerrado Mineiro
Um dos episódios mais marcantes foi a ocorrência de geadas severas no Cerrado Mineiro, responsável por grande parte da produção nacional. Segundo dados da StoneX, o prejuízo alcançou 424 mil sacas, o equivalente a 25 mil toneladas.
Esse impacto somado às dificuldades climáticas dos últimos quatro anos ajuda a explicar o salto de preços. O café arábica, que custava cerca de R$ 600 por saca em 2020, hoje chega a R$ 2.500.
A lógica do mercado internacional

Redirecionamento de exportações
De acordo com o analista da StoneX, Fernando Maximiliano, o tarifaço não aumentou a disponibilidade de café no Brasil. O excedente que iria para os EUA será redirecionado para outros mercados, especialmente a Europa. Isso acontece porque países como a Colômbia devem priorizar vendas ao mercado norte-americano, deixando espaço para os exportadores brasileiros.
Café brasileiro vai todo para fora?
Uma percepção comum entre consumidores é que o “bom café” brasileiro vai quase todo para exportação. Embora seja verdade que o país direciona grande parte da produção para o exterior, parte significativa também abastece o mercado interno. O que acontece, no entanto, é que a qualidade superior costuma ser negociada em dólar, o que pressiona os preços no varejo brasileiro.
O impacto no bolso do consumidor
Alta inevitável
O retorno da pressão no campo será repassado à indústria e, consequentemente, ao consumidor final. Isso porque o setor não consegue absorver os custos elevados sem comprometer sua sustentabilidade financeira.
Café mais leve e menor
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Além da queda no volume, a safra apresentou um problema adicional: grãos menores e mais leves. Isso significa que é necessário mais grão para compor uma saca de 60 kg, pressionando ainda mais os preços.
Projeções para os próximos meses
Perspectiva de alta contínua
Especialistas projetam que a tendência é de preços elevados até pelo menos o fim de 2025. A falta de estoques e a baixa oferta mundial criam um ambiente de mercado desfavorável para quedas consistentes.
O que pode mudar esse cenário
Somente uma safra robusta nos principais produtores mundiais poderia reverter a alta. Contudo, não é o que se espera no curto prazo. No Brasil, os efeitos climáticos e a irregularidade na produção tornam a projeção de recuperação mais difícil.
Clima ruim no campo e no bolso

Os efeitos combinados de geadas, secas, tarifaço e baixa produtividade refletem em um mesmo ponto: o bolso do consumidor brasileiro. A trajetória de alta do café mostra como os problemas no campo, aliados às pressões internacionais, têm efeito direto na mesa das famílias.
O preço do café, símbolo da cultura brasileira e presença diária nos lares, permanece em patamar elevado, sem previsão de alívio a curto prazo. O cenário reforça a vulnerabilidade da economia nacional a fatores externos e climáticos.
Conclusão
O café, que parecia dar uma trégua ao consumidor com a queda registrada em agosto, volta a figurar como um dos itens mais pressionados no orçamento familiar. A combinação de tarifaço dos EUA, baixa produção e estoques reduzidos coloca o Brasil em um ciclo de preços altos que deve se prolongar. Para o consumidor, resta acompanhar o mercado e esperar uma safra futura mais favorável.
