Um documento interno dos Correios revelou que a empresa pública sofreu um prejuízo bilionário em 2024, resultado direto da chamada “taxa das blusinhas”, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada em junho do mesmo ano. A medida, que alterou a forma de tributação de compras internacionais de até US$ 50, teve como objetivo aumentar a arrecadação federal e proteger o varejo nacional. No entanto, o impacto sobre a estatal foi severo: queda de receitas, perda de mercado e ampliação do déficit financeiro.
O estudo mostra não apenas a diferença entre expectativa e arrecadação real, mas também os reflexos de longo prazo que a medida pode trazer para a estrutura logística brasileira.
Correios registram prejuízo de R$ 2,2 bilhões após queda nas importações com taxa das blusinhas
Correios registram prejuízo bilionário após mudança na taxação de importações da China. Nova legislação impacta receita e participação no mercado.
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O impacto da nova legislação sobre as importações

Como a “taxa das blusinhas” afetou a receita da estatal
A implementação da chamada “taxa das blusinhas”, oficializada pelo Congresso Nacional em junho de 2024, representou um divisor de águas para os Correios. Segundo um estudo obtido pelo G1, a estatal contabilizou um prejuízo de R$ 2,16 bilhões, atribuído diretamente à nova política tributária proposta pelo Ministério da Fazenda.
O que previa a arrecadação antes da nova taxa
Antes da sanção da lei, os Correios estimavam arrecadar cerca de R$ 5,9 bilhões ao longo de 2024 com o transporte de mercadorias importadas da China. No entanto, a realidade foi bastante diferente: o valor efetivamente arrecadado chegou a apenas R$ 3,7 bilhões — uma diferença de R$ 2,2 bilhões, o equivalente a uma queda de 37%.
A análise do estudo interno dos Correios
Duas projeções, dois cenários de perdas
O documento também traz outra simulação, mais realista, que já considerava os efeitos da nova legislação. Nessa projeção, esperava-se uma receita de R$ 4,9 bilhões, pouco abaixo dos R$ 4,908 bilhões arrecadados em 2023. Mesmo com esse número ajustado, o prejuízo calculado foi de R$ 1,7 bilhão.
Comparativo ano a ano
| Ano | Receita estimada (R$) | Receita real (R$) | Diferença (R$) |
|---|---|---|---|
| 2023 | 4,908 bilhões | 4,908 bilhões | 0 |
| 2024 (sem taxa) | 5,9 bilhões | — | — |
| 2024 (com taxa) | 4,9 bilhões | 3,7 bilhões | -1,2 bilhões |
A fala do presidente dos Correios
Frustração com a expectativa de receita
Durante um evento na Câmara dos Deputados, o presidente dos Correios, Fabiano Silva, comentou sobre o impacto direto da nova política:
“A gente tinha uma expectativa de receita, que foi frustrada, então essa expectativa frustrada se traduz depois em prejuízo na empresa.”
Queda de participação no mercado internacional
Fabiano Silva também alertou sobre a perda de protagonismo da estatal no setor de fretes internacionais. Segundo ele, os Correios detinham 98% do mercado nesse segmento antes da alteração legislativa. Com a nova lei em vigor, essa fatia despencou para algo em torno de 30%.
A resposta dos Correios e os planos para o futuro

Tentativa de reversão da medida
Diante da crise financeira, os Correios tentam reverter o atual cenário por meio de alterações no decreto-lei que trata da tributação simplificada das remessas internacionais. A proposta é retornar às regras anteriores à mudança de 2024.
Correios e o déficit das estatais
A gravidade da situação não passou despercebida pelo Ministério da Gestão e Inovação. A pasta informou que os Correios são uma das principais razões para o aumento do déficit das estatais em 2024. O rombo da empresa chegou a R$ 3,2 bilhões no ano passado.
Histórico recente da estatal
Efeitos do Plano Nacional de Desestatização
Segundo a secretária de Coordenação e Governança das Estatais, Elisa Leonel, a inclusão dos Correios no Plano Nacional de Desestatização durante o governo Bolsonaro comprometeu investimentos e causou encerramento de contratos importantes.
Oportunidades perdidas durante a pandemia
O presidente da empresa também admitiu falhas estratégicas:
“A empresa não aproveitou em determinados momentos, como na pandemia, em que o fluxo de encomendas foi alto. Era o momento de diversificar as nossas atividades.”
A estrutura da nova taxa
Como funciona a “taxa das blusinhas”
A lei estabelece a cobrança de impostos sobre compras internacionais de até US$ 50, afetando especialmente produtos vindos da China. A cobrança é composta por:
- 20% de imposto federal sobre os primeiros US$ 50
- 60% de imposto sobre o valor que exceder os US$ 50
- ICMS estadual, que será aumentado de 17% para 20% em abril de 2025
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Exemplo prático da aplicação
Compra de US$ 60:
- Imposto de 20% sobre US$ 50: US$ 10
- Imposto de 60% sobre US$ 10 restantes: US$ 6
- Total de imposto: US$ 16
- Desconto de US$ 20 já aplicado conforme previsto em lei
Compra de US$ 3.000:
- Desconto fixo de US$ 20, aplicado somente sobre os primeiros US$ 50
- Tributação pesada sobre o excedente
Reações políticas à nova lei

Críticas do próprio presidente Lula
Mesmo com críticas públicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei. A justificativa seria equilibrar a concorrência entre varejistas nacionais e estrangeiros, especialmente os que operam por e-commerce direto da Ásia.
Pressão do Congresso e do varejo nacional
O Congresso Nacional aprovou a medida em meio à pressão de setores do varejo brasileiro que se viam prejudicados pela isenção anterior. Grandes redes argumentavam que a competição era desleal.
O futuro dos Correios diante da crise
A busca por sustentabilidade
O governo federal tem discutido alternativas para garantir a sustentabilidade financeira dos Correios. Isso inclui não apenas rever a nova taxa, mas também diversificar os serviços prestados pela estatal e atrair novos parceiros.
Papel estratégico dos Correios
Apesar das perdas, os Correios continuam sendo uma peça central na logística do país, especialmente em regiões onde a iniciativa privada não alcança com facilidade. O desafio é modernizar e adaptar-se a um mercado cada vez mais competitivo.
Conclusão
O prejuízo bilionário enfrentado pelos Correios evidencia os efeitos colaterais de políticas públicas que, embora bem-intencionadas, nem sempre consideram a complexidade dos setores atingidos. A “taxa das blusinhas”, criada para equilibrar o mercado entre o varejo nacional e o comércio internacional, acabou por comprometer a sustentabilidade de uma estatal estratégica. Agora, diante da perda de receita e mercado, os Correios buscam alternativas para reverter o cenário, enquanto o governo federal é pressionado a encontrar um ponto de equilíbrio entre arrecadação, competitividade e preservação de serviços essenciais.
