A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, em primeiro turno, um projeto de lei inédito que institui uma taxa ambiental para aeronaves privadas — como helicópteros e jatos executivos — que pousarem ou decolarem na capital paulista.
Autor de projeto que taxa helicópteros e jatinhos em SP critica poluição e luxo excessivo
Câmara de São Paulo aprova em 1º turno projeto de taxa ambiental para helicópteros e jatos privados. Medida visa compensar emissões de CO₂ e mais.
A medida, proposta pelos vereadores Nabil Bonduki (PT), Luna Zarattini (PT) e Amanda Paschoal (PSOL), visa compensar os danos ambientais causados pelo transporte aéreo individual em meio à crise climática global.
A proposta ainda precisa ser aprovada em segundo turno antes de seguir para a sanção ou veto do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que já sinalizou objeções constitucionais ao texto, o que pode gerar disputas judiciais.
Leia mais:
Helicóptero para eventos corporativos: o impacto e a sofisticação que transformam sua marca
O que diz o projeto?

O projeto de lei prevê a criação de uma “taxa de preservação ambiental” sobre cada pouso e decolagem de aeronaves particulares em São Paulo. Essa taxa será calculada com base:
- No tipo da aeronave
- Na quantidade estimada de emissão de gases de efeito estufa
- No impacto gerado pelo ruído e outras externalidades negativas
Finalidade da arrecadação
Os recursos arrecadados serão destinados a ações de mitigação climática, como:
- Aquisição de ônibus elétricos
- Programas de reflorestamento urbano
- Projetos de educação ambiental
- Substituição de frota poluente por veículos de baixa emissão
“A ideia é arrecadar de quem joga gás de efeito estufa na nossa cidade para financiar ações que reduzam o aquecimento global”, explica o vereador Nabil Bonduki.
Quem será afetado?
A proposta se aplica exclusivamente a voos particulares, como:
- Helicópteros de uso pessoal ou corporativo
- Jatos e aviões de pequeno porte não vinculados a aviação comercial
- Aeronaves de táxi aéreo de luxo
Estão isentos:
- Voos comerciais (companhias aéreas)
- Aeronaves públicas
- Serviços essenciais como transporte aeromédico, resgates e operações de segurança pública
Justificativa: “um luxo desnecessário”

Segundo Bonduki, a proposta representa uma forma de responsabilizar ambientalmente as elites econômicas, que usufruem de um modo de transporte altamente poluente sem oferecer retorno direto à cidade:
“É um luxo desnecessário para gente que quer ostentar. Não podemos mais tolerar o uso de helicópteros em plena crise climática”, afirmou o vereador em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Além da emissão de CO₂ e outros gases nocivos, o ruído gerado por aeronaves também é apontado como fonte de desconforto e impacto à saúde pública, especialmente para moradores de regiões centrais e de bairros sobrevoados com frequência.
Oposição do prefeito Ricardo Nunes
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) já manifestou resistência à proposta, indicando que pode vetar o projeto caso ele seja aprovado em segundo turno. A principal alegação é de que a cobrança de uma taxa sobre aeronaves poderia ser inconstitucional, por invadir competência da União no que diz respeito à aviação civil.
Bonduki rebate
Nabil Bonduki contesta a interpretação jurídica de Nunes e afirma que outros municípios já adotam taxas ambientais sobre atividades de alto impacto:
“Estamos tratando de um problema novo com soluções inovadoras. A legislação precisa acompanhar a emergência climática. O município tem sim a prerrogativa de estabelecer mecanismos de compensação ambiental”, defende o vereador.
O que dizem os especialistas?
Especialistas em direito ambiental e tributação municipal se dividem quanto à legalidade da medida. Alguns afirmam que:
- A competência para legislar sobre aviação é federal
- Mas o município pode legislar sobre impacto local e meio ambiente, desde que a taxa tenha natureza compensatória, e não meramente arrecadatória
Por isso, o tema deve suscitar judicializações, caso a medida seja sancionada pelo Executivo.
A crise climática e o papel das cidades
A proposta surge num contexto de crescentes alertas sobre a elevação da temperatura global, com o planeta já superando 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), a janela para evitar consequências irreversíveis do aquecimento global está se fechando rapidamente.
“Se nós continuarmos nessa rota, vamos chegar no ponto de não retorno, quando não se consegue mais recuperar a situação”, alerta Bonduki.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
As cidades, responsáveis por mais de 70% das emissões globais de CO₂, são atores fundamentais no enfrentamento da crise climática. Medidas como essa buscam descentralizar a responsabilidade ambiental, envolvendo também os governos municipais.
Helicópteros em São Paulo: um problema antigo
A cidade de São Paulo possui a maior frota de helicópteros do mundo, com mais de 400 aeronaves registradas e uma média de 2 mil operações diárias, segundo dados do setor.
Embora sirvam para reduzir o tempo de deslocamento de executivos e celebridades, os helicópteros:
- Consomem grandes quantidades de combustível fóssil
- Produzem emissões concentradas de CO₂ e material particulado
- Aumentam os níveis de ruído urbano
- Agravam a desigualdade de acesso à mobilidade
Essa discrepância entre benefícios individuais e danos coletivos é um dos principais argumentos em favor da regulamentação.
Comparativos internacionais
Várias cidades do mundo já impõem restrições ou cobranças específicas sobre o uso de transporte aéreo particular:
- Londres cobra taxas ambientais para entrada de veículos poluentes
- Amsterdã impõe limites para voos de lazer no centro urbano
- Nova York aplica zonas de proibição de helicópteros em determinadas áreas residenciais
Embora ainda pioneira no Brasil, a iniciativa da Câmara de SP segue uma tendência global de transição ecológica urbana.
Próximos passos

O projeto agora aguarda votação em segundo turno, ainda sem data definida. Se aprovado novamente, será enviado para o prefeito Ricardo Nunes, que poderá:
- Sancionar integralmente
- Vetá-lo parcialmente ou por completo
- Caso vetado, a Câmara poderá derrubar o veto com maioria absoluta
A tramitação nos próximos meses será acompanhada com atenção tanto por ambientalistas quanto por representantes do setor aéreo privado, que devem intensificar a pressão política contra a proposta.
Considerações finais
A aprovação em primeiro turno da taxa ambiental para helicópteros e jatos privados em São Paulo representa um passo significativo no esforço por justiça climática e compensação ambiental. Embora enfrente resistência jurídica e política, a medida reacende o debate sobre o papel das cidades e das elites econômicas na crise climática.
A proposta busca transformar um símbolo de ostentação em fonte de recursos para mobilidade sustentável, contribuindo com um novo modelo de urbanismo mais justo e ecologicamente responsável. Resta saber se a pressão política e jurídica impedirá que esse projeto avance até a implementação — ou se ele se tornará referência nacional no combate às emissões urbanas de carbono.
