O Banco Central do Brasil divulgou nesta quarta-feira (9) os dados atualizados do mercado de crédito referentes a fevereiro de 2025. O relatório revela uma queda de 1,2% nas concessões totais de empréstimos no país, em comparação com o mês anterior. Apesar disso, o estoque total de crédito registrou leve crescimento de 0,4%, atingindo o montante de R$ 6,487 trilhões.
BC revela: concessões de empréstimo caem em fevereiro, enquanto estoque de crédito cresce
Banco Central informa que concessões de crédito caíram 1,2% em fevereiro. Juros sobem e inadimplência avança.
A retração nas concessões ocorre principalmente no segmento de crédito com recursos livres, enquanto o volume de empréstimos com recursos direcionados — geralmente voltados a políticas públicas — apresentou alta significativa no período. A inadimplência e os juros também seguiram trajetória de alta, acendendo o alerta para o custo do crédito e a sustentabilidade do endividamento das famílias e empresas brasileiras.
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Panorama geral do mercado de crédito em fevereiro
Concessões de crédito total recuam 1,2%
De acordo com o Banco Central, as concessões totais de crédito — soma de financiamentos contratados no mês — recuaram 1,2% em fevereiro, sinalizando uma desaceleração da atividade de crédito no país.
Esse movimento reflete, em parte, a cautela de bancos e consumidores diante de juros ainda elevados e incertezas econômicas internas e externas.
Estoque de crédito sobe 0,4%
Apesar da queda nas novas concessões, o estoque total de crédito — valor total em operações de empréstimos ativas — aumentou 0,4%, alcançando R$ 6,487 trilhões. Isso demonstra que, embora o ritmo de contratação tenha diminuído, o volume financeiro de operações existentes ainda mantém crescimento, possivelmente puxado por operações de longo prazo ou repactuações de dívida.
Desempenho por categoria: recursos livres e direcionados
Crédito com recursos livres: queda de 3%
Os empréstimos com recursos livres, que representam operações com taxas e condições livremente definidas entre instituições financeiras e clientes, apresentaram queda de 3,0% nas concessões em fevereiro.
Esse grupo inclui linhas como:
- Crédito pessoal;
- Cartão de crédito rotativo;
- Cheque especial;
- Empréstimos para capital de giro.
A retração nesse segmento pode estar associada ao aumento da inadimplência e ao encarecimento do crédito, como detalhado mais adiante.
Recursos direcionados sobem 19,1%
Na contramão, as operações com recursos direcionados — que seguem normas e destinações estabelecidas pelo governo, como crédito rural, habitacional e estudantil — cresceram 19,1% nas concessões de fevereiro.
Esse aumento pode estar relacionado à liberação de verbas públicas, sazonalidades específicas do setor agrícola ou habitacional, além de programas de incentivo como o novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Juros sobem no crédito livre; crédito direcionado tem leve alívio

Taxa média do crédito livre sobe para 43,7%
A taxa média de juros nas operações com recursos livres passou de 42,2% para 43,7% ao ano, o que representa um aumento de 1,5 ponto percentual em apenas um mês. Essa alta pressiona diretamente o custo de financiamentos de consumo e de capital de giro para empresas, dificultando a retomada do crédito em massa.
Juros no crédito direcionado recuam para 11,2%
No caso dos recursos direcionados, houve queda de 0,8 ponto percentual, com os juros passando de 12,0% para 11,2% ao ano. A diferença entre os dois segmentos evidencia o impacto das políticas públicas em segurar os custos para setores estratégicos.
Inadimplência avança e preocupa instituições
Crédito livre tem inadimplência de 4,5%
A taxa de inadimplência no crédito com recursos livres subiu de 4,4% para 4,5% em fevereiro. O índice considera atrasos superiores a 90 dias e demonstra a dificuldade que muitos consumidores enfrentam para manter as obrigações financeiras em dia.
Esse aumento pode estar relacionado:
- Ao alto custo das linhas de crédito;
- Ao endividamento das famílias;
- À lenta recuperação do mercado de trabalho.
Crédito direcionado mantém estabilidade
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No segmento de recursos direcionados, a inadimplência segue mais controlada, refletindo o perfil de menor risco e a presença de garantias em muitas dessas operações, como é o caso de financiamentos imobiliários.
Spread bancário se amplia
Diferença entre custo de captação e taxa final sobe
Outro dado relevante do relatório do Banco Central é o aumento do spread bancário — a diferença entre os juros cobrados dos clientes e o custo de captação dos bancos.
Nos recursos livres, o spread subiu de 28,1 para 29,7 pontos percentuais em fevereiro. Esse dado reforça o desafio do consumidor em conseguir crédito acessível, mesmo em um cenário de inflação controlada e queda gradual da Selic.
O que pode explicar os movimentos de fevereiro?
Mistura de fatores internos e externos
A dinâmica registrada em fevereiro é resultado de diversos fatores combinados:
- Juros ainda elevados: embora a Selic esteja em processo de redução, a taxa básica ainda está em patamar elevado, inibindo o consumo financiado;
- Cautela dos bancos: instituições financeiras seguem seletivas na concessão de crédito, diante da alta inadimplência e incertezas no ambiente econômico;
- Impactos externos: oscilações no mercado global e eventos geopolíticos também impactam a liquidez e o apetite por risco;
- Desaceleração econômica: os sinais de crescimento moderado da economia também refletem na demanda por crédito, especialmente no setor privado.
Tendências para os próximos meses

Queda da Selic pode aliviar o mercado de crédito
Com o ciclo de redução gradual da Selic pelo Banco Central, é possível que haja um alívio nos juros ao longo dos próximos meses. Isso pode:
- Reduzir o custo dos financiamentos;
- Estimular a tomada de crédito por famílias e empresas;
- Ajudar a conter a inadimplência.
No entanto, o movimento tende a ser lento e gradual, uma vez que o sistema financeiro ainda absorve os efeitos de políticas monetárias mais restritivas nos últimos dois anos.
Imagem: Rafastockbr/Shutterstock
