A exigência de biometria facial para a liberação de empréstimos consignados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) provocou uma queda drástica nas concessões do benefício. De acordo com a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), o número de contratos caiu 67% entre abril e junho de 2025, logo após o bloqueio de novas liberações implementado em maio.
Contratação de crédito consignado do INSS cai após início da biometria obrigatória
Contratação de crédito consignado do INSS cai 67% após exigência de biometria facial; beneficiários enfrentam dificuldades com bloqueios.
Os dados mostram um recuo ainda mais expressivo quando comparado ao início do ano: em janeiro, haviam sido registradas 4,2 milhões de contratações. Em junho, esse número despencou 82%.
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Entenda o que mudou

TCU determinou bloqueio após escândalo de fraudes
A decisão de exigir biometria facial para todas as operações envolvendo consignado foi tomada após recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU), que identificou indícios de fraudes envolvendo empréstimos em nome de segurados sem consentimento.
Em 8 de maio, o INSS suspendeu temporariamente todas as liberações de consignado. Quinze dias depois, uma nova norma exigiu desbloqueio individual por biometria via aplicativo Meu INSS ou portal gov.br. A medida foi interpretada como necessária para reforçar a segurança dos beneficiários, mas causou lentidão e confusão no processo.
Como funciona o novo procedimento
Para solicitar um empréstimo consignado agora, o beneficiário deve acessar o Meu INSS, procurar pela opção de bloqueio/desbloqueio do benefício e realizar um reconhecimento facial. A verificação é feita com base na biometria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), integrando os dados com a Dataprev — estatal responsável pela gestão tecnológica da Previdência Social.
Entretanto, esse processo esbarra em limitações técnicas e operacionais:
- A base biométrica do TSE tem um número limitado de consultas mensais.
- Quando a cota é atingida, os desbloqueios são suspensos até o mês seguinte.
- Cerca de um terço dos aposentados não possui biometria cadastrada no TSE.
Falhas operacionais e impactos para o beneficiário
Aposentados enfrentam dificuldade para liberação
Relatos de beneficiários como o do aposentado João Francisco Neto, de 70 anos, são cada vez mais comuns. Com problemas de saúde na família, ele tentou desbloquear o crédito consignado em junho, sem sucesso. Diante da urgência, recorreu a um empréstimo bancário convencional, com juros bem mais elevados que os praticados no consignado, que hoje gira em torno de 1,85% ao mês.
“Fiz tudo pelo aplicativo, mas não consegui seguir até o final. A biometria travava, e não tinha atendimento para ajudar. Precisei pegar o dinheiro do banco com juros altos. É injusto”, afirma.
Sistema fica indisponível ao atingir limite mensal
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) informou que, no dia 22 de julho, o sistema do INSS atingiu o limite mensal de consultas biométricas na base do TSE. Com isso, todos os pedidos de desbloqueio foram suspensos até o início de agosto, mesmo para quem já tem biometria cadastrada.
A Dataprev, procurada pela imprensa, não comentou os problemas operacionais. O INSS também não respondeu.
Tentativas de solução

Gov.br será utilizado como alternativa de verificação
Diante da crise e da lentidão nos desbloqueios, a Febraban e a ABBC vêm negociando com o INSS e a Dataprev alternativas tecnológicas para facilitar o processo.
Uma proposta em avaliação prevê a utilização das credenciais do portal Gov.br — as mesmas usadas para acessar aplicativos bancários — para validar a identidade do segurado. A expectativa é de que essa integração seja implementada em “questão de poucas semanas”, segundo a Febraban.
Atualmente, 16 instituições financeiras já possuem convênio com o Gov.br, e outras estão em processo de adesão. A medida deve aliviar a sobrecarga sobre a base biométrica do TSE e ampliar o acesso ao crédito.
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Desigualdade de acesso e exclusão digital
A falta de biometria no TSE deixa milhares inelegíveis
Um dos principais obstáculos à retomada normal das contratações é a ausência de dados biométricos no cadastro do TSE. Estima-se que um terço dos beneficiários do INSS — especialmente idosos mais vulneráveis ou com dificuldade de locomoção — não tenha feito o recadastramento biométrico exigido pela Justiça Eleitoral nos últimos anos.
Sem alternativas disponíveis, essa parcela da população acaba excluída do crédito consignado, justamente o que oferece menores taxas e maior segurança para o idoso.
Falta de familiaridade com tecnologia
Além disso, muitos aposentados enfrentam dificuldades em operar aplicativos como o Meu INSS. Problemas com câmeras, conexão de internet ou orientação para seguir os passos do reconhecimento facial têm sido obstáculos frequentes.
A exigência de estar em um local iluminado, sem óculos escuros ou bonés, e de seguir corretamente o enquadramento do rosto dificulta ainda mais o processo para quem não tem familiaridade com dispositivos móveis.
Futuro do crédito consignado e segurança
Segurança ou burocracia?
A implementação da biometria é um passo importante para combater fraudes e proteger os segurados, mas a forma como foi executada expôs fragilidades tecnológicas e logísticas. Especialistas apontam que, embora a intenção da medida seja legítima, faltou planejamento para garantir acessibilidade e continuidade dos serviços.
“O que deveria ser uma proteção ao idoso virou uma barreira. Muitos sequer conseguem chegar até o fim do processo”, afirma um executivo de banco sob anonimato.
Imagem: Freepik / Edição: Seu Crédito Digital

