Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Haddad diz que fintechs serão enquadradas como instituições financeiras pela Receita

Após operação contra o PCC, Receita exigirá que fintechs sigam as mesmas regras dos bancos para coibir lavagem de dinheiro na Faria Lima.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
haddad reforma tributária governo inss

Em um movimento histórico para o setor financeiro brasileiro, a Receita Federal anunciou nesta quinta-feira (28) o enquadramento formal das fintechs como instituições financeiras. A declaração foi feita pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após a deflagração da operação Carbono Oculto, considerada a maior ação coordenada já realizada contra o crime organizado no país.

A decisão ocorre no rastro de uma investigação que revelou o uso de empresas do setor de combustíveis e do mercado financeiro — incluindo fintechs — em sofisticados esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Leia mais:

Digitalização das duplicatas abre campo fértil para fintechs atuarem

Fintechs
Imagem: Wright Studio / shutterstock.com

Enquadramento fiscal das fintechs: o que muda?

Novas exigências regulatórias

A partir de agora, as fintechs — que até então eram classificadas como instituições de pagamento ou prestadoras de serviços financeiros — passam a ser formalmente tratadas como instituições financeiras. Isso significa que estarão sujeitas às mesmas obrigações fiscais, de compliance e de transparência exigidas dos grandes bancos.

“A partir de amanhã, a Receita Federal enquadra as fintechs como instituições financeiras. Terão que cumprir rigorosamente as mesmas obrigações que os grandes bancos”, afirmou Haddad.

A mudança, segundo o ministro, será oficializada por meio de uma instrução normativa da Receita, cuja publicação deve ocorrer nas próximas horas.

Fiscalização ampliada

Com o novo enquadramento, a Receita poderá:

  • Acompanhar mais de perto movimentações financeiras atípicas;
  • Exigir relatórios detalhados de operações de clientes;
  • Identificar indícios de lavagem de dinheiro com mais agilidade;
  • Compartilhar dados diretamente com a Polícia Federal em casos suspeitos.

Megaoperação Carbono Oculto: a maior da história contra o crime organizado

Ação conjunta com 1.400 agentes

A operação Carbono Oculto mobilizou cerca de 1.400 agentes da Receita Federal, Polícia Federal, Ministério Público e demais órgãos de controle. As ações ocorreram simultaneamente em oito estados brasileiros:

  • São Paulo
  • Rio de Janeiro
  • Espírito Santo
  • Goiás
  • Mato Grosso do Sul
  • Mato Grosso
  • Paraná
  • Santa Catarina

Alvos do crime organizado

No total, mais de 350 pessoas físicas e jurídicas são investigadas por crimes como:

  • Lavagem de dinheiro
  • Fraude fiscal
  • Adulteração de combustíveis
  • Crimes ambientais
  • Estelionato
  • Crimes contra a ordem econômica

A Receita Federal estima que R$ 8 bilhões em autos de infração tributária foram lavrados apenas nesta operação.

“Com essa operação e o novo enquadramento das fintechs, ampliamos significativamente a nossa capacidade de investigar e coibir atividades ilegais sofisticadas, que usam a fachada da legalidade para alimentar o crime”, disse Haddad.

Fintechs sob suspeita: como o crime se infiltra na economia formal

consignado privado fintech fintechs
Imagem: jcomp / Freepik

O papel das fintechs nos esquemas de lavagem

Segundo os investigadores, fintechs e empresas de fachada eram utilizadas para:

  • “Esquentar” dinheiro ilícito por meio de transações digitais;
  • Movimentar recursos rapidamente com baixa rastreabilidade;
  • Criar camadas de complexidade para dificultar auditorias e investigações.

Essas estruturas permitiram que integrantes do PCC realizassem operações financeiras de alto valor sob aparência de legalidade, muitas vezes simulando prestação de serviços ou vendas fictícias.

A rota do dinheiro sujo

Parte expressiva dos recursos ilícitos passava por contas de empresas no setor de combustíveis, que movimentavam grandes volumes em dinheiro vivo. Com o uso de fintechs, esse capital era rapidamente convertido em ativos financeiros, investimentos ou transferências internacionais.

Além das fintechs, os esquemas utilizavam:

  • Postos de gasolina como centros de lavagem;
  • Empresas de transporte de valores e segurança privada;
  • Pessoas físicas como laranjas;
  • Criptoativos e contas digitais para fragmentar e ocultar a origem do dinheiro.

Receita quer estreitar laços com a Polícia Federal

O enquadramento das fintechs como instituições financeiras também fortalece a parceria entre Receita e Polícia Federal, o que deve resultar em mais operações conjuntas, com inteligência compartilhada e uso de tecnologia para rastrear fluxos financeiros ilícitos.

A Receita passa a exigir que as fintechs reportem ao órgão transações suspeitas — prática já comum nos bancos tradicionais.

Monitoramento em tempo real

O cruzamento de dados com inteligência artificial e acesso facilitado a movimentações permitirá:

  • Identificar padrões atípicos de transações;
  • Mapear redes de empresas vinculadas ao mesmo grupo criminoso;
  • Bloquear contas e bens de forma mais célere;
  • Encaminhar provas robustas ao Ministério Público.

Impactos no setor financeiro: o que esperam as fintechs?

Setor alerta, mas não surpreso

Fontes do setor ouvidas sob anonimato afirmam que a mudança já era esperada diante do avanço das investigações e do crescimento das fintechs no sistema financeiro nacional. Algumas instituições inclusive já seguiam protocolos semelhantes aos dos bancos, por questões de segurança e reputação.

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

No entanto, a uniformização da regulação pode gerar custos operacionais extras, além da necessidade de:

  • Reforçar equipes de compliance;
  • Adotar sistemas de prevenção à lavagem de dinheiro mais robustos;
  • Ampliar relatórios enviados à Receita e ao Banco Central.

Reação das associações

A ABFintechs (Associação Brasileira de Fintechs) ainda não se manifestou oficialmente, mas já havia defendido em ocasiões anteriores a regulamentação mais clara para o setor, com isonomia competitiva e segurança jurídica.

Especialistas alertam que fintechs sérias e estruturadas não devem ser afetadas negativamente, mas startups menores e menos preparadas podem enfrentar dificuldades de adaptação.

Haddad: “Repressão ao crime deve andar junto com digitalização”

Fernando Haddad, Ministro da Fazenda
Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Digitalização não pode ser escudo para o crime

Ao comentar a operação Carbono Oculto, Haddad foi direto:

“O Estado precisa avançar no uso da tecnologia tanto quanto o crime. Fintech não é sinônimo de liberdade absoluta. É serviço financeiro como qualquer outro e deve estar sujeito ao mesmo rigor fiscal e penal.”

Segundo o ministro, a digitalização do sistema financeiro é bem-vinda, mas não pode ser usada como escudo por organizações criminosas para operar no submundo da economia.

Próximos passos e perspectivas

Instrução normativa em breve

A nova instrução normativa da Receita Federal trará os detalhes técnicos da mudança, como:

  • Obrigações acessórias;
  • Prazos de adaptação;
  • Penalidades por descumprimento;
  • Integração com os sistemas de reporte da Polícia Federal e do Banco Central.

Especialistas acreditam que esse novo marco regulatório pode transformar o modo como as fintechs operam e se relacionam com órgãos de controle.

Mais operações no horizonte

A Carbono Oculto é apenas o começo. O governo já planeja novas investidas contra esquemas semelhantes em outros setores da economia — como agronegócio, transportes e comércio eletrônico.

A meta é clara: impedir que o crime organizado continue lavando dinheiro sob o disfarce da inovação.

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

Topicos relacionados