A Receita Federal publicou, nesta sexta-feira (29/8), uma nova instrução normativa que equipara as fintechs às instituições financeiras tradicionais no que diz respeito às obrigações fiscais e de transparência.
Norma que equipara fintechs a bancos é publicada pela Receita Federal
Receita Federal publica norma que equipara fintechs a bancos para combater crimes financeiros e aumentar a transparência do setor.
A medida foi anunciada após uma série de operações da Polícia Federal que revelaram esquemas de lavagem de dinheiro com o uso de empresas financeiras digitais.
O governo federal afirma que a nova regulamentação é uma resposta direta às brechas exploradas por organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), para movimentar grandes quantias de dinheiro ilícito.
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O que são fintechs e por que estão no centro do debate?

As fintechs são empresas que atuam no setor financeiro utilizando tecnologia para oferecer serviços como pagamentos, transferências, empréstimos, investimentos e outros produtos bancários.
Seu modelo de negócios inovador tem ganhado espaço no Brasil e no mundo, especialmente por proporcionar praticidade, menores custos e acessibilidade a serviços financeiros.
Entretanto, segundo a Receita Federal, o rápido crescimento do setor expôs lacunas regulatórias.
Por não estarem plenamente sujeitas às mesmas regras de instituições bancárias tradicionais, algumas fintechs passaram a ser utilizadas por grupos criminosos para práticas como lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Contexto: operações contra o crime organizado
Megaoperação revela uso de fintechs por facção criminosa
A publicação da norma ocorre um dia após uma série de operações da Polícia Federal deflagradas contra o crime organizado. As investigações apontaram que fintechs e fundos de investimentos estavam sendo utilizados para movimentar ilegalmente cerca de R$ 30 bilhões, parte deles ligados ao PCC.
Destaques das operações:
- Operação Quasar: Mirou organizações envolvidas em lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituições financeiras.
- Operação Tank: Desarticulou uma das maiores redes de lavagem de dinheiro do Paraná.
- Operação Carbono Oculto: Atuou em oito estados contra um esquema que teria sonegado cerca de R$ 7 bilhões.
Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, somente no dia 28/8 foram lançados R$ 8 bilhões em autuações fiscais. O montante pode crescer à medida que as investigações avancem.
Detalhes da norma publicada pela Receita Federal
A nova norma foi publicada no Diário Oficial da União (DOU).
Ela traz quatro artigos que formalizam a equiparação das fintechs às instituições financeiras tradicionais, no que diz respeito às obrigações acessórias. O destaque vai para o envio de dados à e-Financeira — plataforma de informações fiscais da Receita Federal.
Os principais pontos da norma:
- Objetivo declarado: Combate a crimes contra a ordem tributária e financeira.
- Equiparação jurídica: Fintechs, instituições de pagamento e participantes de arranjos de pagamento passam a ter as mesmas obrigações das instituições financeiras do SFN (Sistema Financeiro Nacional) e do SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro).
- Referência legal: Citação expressa à Lei do Sistema de Pagamentos Brasileiro, que define tecnicamente os termos usados.
- Aplicação imediata: A norma entra em vigor imediatamente com a publicação no DOU.
Impactos para o setor financeiro
Maior fiscalização e transparência
A principal consequência imediata da nova norma é a ampliação da obrigatoriedade de envio de dados financeiros das fintechs para a Receita Federal.
Isso significa que essas empresas deverão informar transações, movimentações financeiras e demais dados relevantes da mesma forma que bancos e financeiras já fazem há décadas.
Reação do setor
Embora ainda seja cedo para avaliar a reação completa do mercado, entidades representativas das fintechs e do setor de inovação financeira expressaram preocupações com a forma como a regulamentação foi conduzida.
Algumas empresas alegam que a medida pode representar um aumento significativo de custos operacionais e burocráticos, especialmente para startups em fase inicial.
Por outro lado, especialistas em direito financeiro e tributário veem a medida como um passo necessário para garantir equilíbrio regulatório e evitar o uso indevido dessas plataformas por organizações criminosas.
Análise: combate ao crime e segurança jurídica
Falhas regulatórias e exploração por criminosos
A Receita Federal afirmou, em nota, que a brecha regulatória existente vinha sendo explorada por criminosos justamente pela ausência de exigências de transparência equivalentes às dos bancos.
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“Fintechs têm sido utilizadas para lavagem de dinheiro nas principais operações contra o crime organizado, porque há um vácuo regulamentar”, declarou o órgão.
Fake news e desinformação
A Receita também criticou a disseminação de notícias falsas a respeito de instruções normativas anteriores, ressaltando que a nova norma é clara, objetiva e baseada em leis já existentes, sem criar novas exigências tributárias, mas apenas aplicando as mesmas regras a todos os participantes do sistema.
O que muda na prática para as fintechs?
Obrigatoriedade de envio da e-Financeira
A partir da norma, fintechs deverão:
- Reportar operações e saldos de clientes.
- Informar transações financeiras superiores a determinados valores.
- Cooperar com autoridades em investigações contra lavagem de dinheiro e crimes tributários.
Mais fiscalização, menos anonimato
A ideia é que os mesmos mecanismos de rastreabilidade e auditoria usados no setor bancário tradicional sejam estendidos ao universo digital das fintechs, tornando mais difícil o uso dessas plataformas por criminosos.
Próximos passos: CPI das Fintechs?

A publicação da norma fortalece o debate político em torno da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o papel das fintechs no financiamento do crime organizado. A proposta já foi defendida por membros do Congresso, especialmente da base governista.
Declaração do líder do PT na Câmara
“É preciso apurar a fundo como essas empresas foram utilizadas para lavar dinheiro. A regulamentação é bem-vinda, mas precisamos ir além”, afirmou o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG).
Conclusão
A nova norma da Receita Federal representa um marco na regulamentação das fintechs no Brasil. Com a equiparação às instituições financeiras tradicionais, o governo busca fechar brechas utilizadas por criminosos e garantir maior segurança ao sistema financeiro nacional.
Embora possa gerar desafios operacionais para as empresas do setor, a medida é vista como essencial para fortalecer a confiança dos usuários e investidores nas fintechs brasileiras.
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