A Receita Federal do Brasil (RFB) anunciou, na quarta-feira (3), que fintechs e plataformas de pagamento digital deverão enviar informações retroativas de movimentações financeiras desde janeiro de 2025, igualando-se às obrigações já aplicadas aos bancos tradicionais. A medida, segundo o secretário da Receita, Robinson Barreirinhas, é uma resposta direta a lacunas de fiscalização criadas no início do ano e está inserida no contexto de combate a crimes financeiros, lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis, como revelado pela Operação Carbono Oculto.
Fintechs na mira: Receita vai exigir dados de transações desde janeiro — entenda o impacto!
Receita Federal obriga fintechs a enviar dados retroativos de 2025 para reforçar combate a fraudes e lavagem de dinheiro.
A nova obrigação está prevista na Instrução Normativa RFB nº 2.278/2025, publicada na semana passada. Ela restabelece a exigência de prestação de contas por meio do sistema e-Financeira, ferramenta digital de fiscalização e cruzamento de dados do Fisco.
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Receita Federal vai enquadrar fintechs como instituições financeiras

Exigência retroativa: o que está sendo cobrado das fintechs?
Informações financeiras desde janeiro de 2025
A Receita Federal agora requer que todas as fintechs que atuem como instituições de pagamento, bancos digitais ou intermediadoras de crédito reportem:
- Transferências, depósitos e créditos mensais superiores a R$ 2 mil para pessoas físicas;
- Movimentações superiores a R$ 6 mil para pessoas jurídicas.
Essas informações deverão ser prestadas retroativamente a janeiro de 2025, corrigindo o que Barreirinhas chamou de “vácuo de monitoramento” causado pela revogação anterior da norma.
“As mentiras sobre taxação do Pix ajudaram o crime organizado. Agora corrigimos e vamos atrás dos dados retroativamente”, disse o secretário durante audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.
Fake news e desinformação: o efeito colateral da revogação anterior
Boatos sobre taxação do Pix enfraqueceram fiscalização
No início de 2025, uma onda de fake news espalhou a ideia de que o governo estaria criando um novo “imposto sobre o Pix”, o que gerou reação política e social, forçando a revogação de uma instrução normativa que exigia o envio de dados pelas fintechs.
Essa revogação temporária, segundo a Receita, comprometeu seriamente a capacidade de rastrear movimentações financeiras ilícitas em plataformas digitais, especialmente no contexto de operações ligadas ao crime organizado.
Operação Carbono Oculto: combustível, crime e contas digitais
Esquema fraudulento de R$ 80 bilhões
A exigência de dados retroativos também foi motivada pelos desdobramentos da Operação Carbono Oculto, deflagrada por órgãos federais e estaduais para desmontar um esquema bilionário de adulteração de combustíveis com metanol, que envolve postos de combustíveis, distribuidoras, empresas de fachada e contas bancárias em fintechs.
Segundo Barreirinhas:
- O esquema teria movimentado até R$ 80 bilhões;
- Mais de mil postos de combustíveis em 10 estados estariam envolvidos;
- O dinheiro circulava por contas-bolsão, utilizadas para ocultar a origem ilícita dos recursos.
“Não vamos divulgar nomes sem provas robustas. O sistema financeiro é usado como meio, e não podemos demonizar todo o setor”, afirmou o secretário.
Como funcionava o esquema com fintechs

Contas-bolsão e camadas de ocultação
O modelo identificado na operação incluía a abertura de contas digitais em nome de laranjas, utilizadas como bolsões financeiros para receber e redistribuir valores oriundos de atividades ilegais.
O dinheiro, após passar por essas contas, seguia para:
- Fundos de investimento;
- Empresas regulares que serviam de fachada;
- Contas pessoais de indivíduos sem conhecimento da operação, expondo inocentes ao risco de envolvimento criminal.
A agilidade, pouca burocracia e ausência de monitoramento equivalente ao dos bancos tradicionais nas fintechs facilitavam o escoamento dos recursos.
Histórico de fraudes envolvendo fintechs
Casos anteriores: contrabando e apostas ilegais
Não é a primeira vez que a Receita Federal identifica uso indevido de contas em fintechs. Investigações anteriores já haviam revelado:
- Envolvimento de fintechs em redes de contrabando de cigarros;
- Transferência de valores oriundos de apostas ilegais e jogos clandestinos;
- Uso de criptomoedas e plataformas de pagamento digital para lavagem de dinheiro.
Em 2024, uma norma semelhante havia sido instituída para ampliar o controle fiscal sobre essas instituições, mas a comoção provocada por boatos obrigou sua revogação — abrindo espaço, segundo Barreirinhas, para a atuação de organizações criminosas sofisticadas.
A Instrução Normativa 2.278/2025
Retomada da obrigatoriedade de envio via e-Financeira
A nova Instrução Normativa restabelece de forma clara e abrangente a obrigação das fintechs de:
- Compartilhar movimentações financeiras com o Fisco;
- Enviar dados em formato digital pelo sistema e-Financeira, que cruza automaticamente informações com outras bases de dados da Receita.
Todas as operações relevantes de 2025 devem ser entregues, retroativamente, até a nova data-limite estabelecida pela Receita.
Medida Provisória 1.303/25: punições mais severas para fintechs
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Responsabilização por parceria com sites ilegais
Durante a audiência pública, Barreirinhas também mencionou a Medida Provisória nº 1.303/2025, que inclui mecanismos de responsabilização e penalização para fintechs que atuem em parceria com plataformas de apostas ilegais.
Entre as punições previstas:
- Multas pesadas;
- Suspensão de licenças de operação;
- Bloqueio de contas e bens.
A Receita argumenta que a inovação financeira é positiva, mas precisa estar dentro dos limites legais, com igual grau de transparência exigido dos bancos tradicionais.
Fintechs: entre a inclusão financeira e o risco regulatório
O papel social das fintechs
Barreirinhas deixou claro que a Receita não pretende “criminalizar” todas as fintechs, mas sim corrigir falhas de fiscalização que permitem o uso do setor para atividades ilegais.
De fato, as fintechs têm desempenhado papel fundamental na:
- Inclusão de milhões de brasileiros no sistema bancário;
- Redução de taxas e ampliação de acesso ao crédito;
- Desenvolvimento de tecnologias para simplificação de pagamentos e investimentos.
No entanto, a falta de exigência regulatória compatível com os bancos criou brechas exploradas por criminosos.
Reações no Congresso e no mercado

Parlamentares pedem cautela e transparência
Durante a audiência, parlamentares da oposição e da base do governo concordaram com a necessidade de reforçar a fiscalização, mas pediram que:
- A Receita evite excessos e preserve as startups sérias;
- Seja estabelecido um canal direto com o setor, para evitar novas interpretações equivocadas;
- A população seja informada com clareza sobre a não existência de taxação do Pix.
Mercado fintech em alerta
Após o anúncio da exigência retroativa, associações do setor financeiro digital sinalizaram a necessidade de:
- Diálogo técnico com a Receita;
- Garantia de prazo razoável para adaptação ao novo envio de dados;
- Proteção à confidencialidade e segurança dos dados dos clientes.
Imagem: Wright Studio / shutterstock.com
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