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Casas Bahia, Habib’s e Braskem expõem pressão financeira sobre grandes empresas

O número de grandes empresas brasileiras recorrendo à recuperação judicial ou extrajudicial voltou a chamar atenção em agosto de 2026. Somente neste mês, companhias de setores como varejo, saúde e indústria buscaram mecanismos legais para renegociar dívidas e preservar suas operações. Entre os casos mais recentes estão o Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e […]

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 7 min de leitura
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O número de grandes empresas brasileiras recorrendo à recuperação judicial ou extrajudicial voltou a chamar atenção em agosto de 2026. Somente neste mês, companhias de setores como varejo, saúde e indústria buscaram mecanismos legais para renegociar dívidas e preservar suas operações.

Entre os casos mais recentes estão o Grupo Gennius, controlador de Habib’s, Ragazzo e Tendall, que entrou com pedido de recuperação judicial, e a Braskem, que protocolou uma recuperação extrajudicial para reorganizar seu passivo financeiro.

Com esses episódios, agosto passou a reunir cinco casos de grande repercussão, enquanto o ano já acumula 12 pedidos dessa natureza entre empresas de destaque.

O movimento não significa, por si só, que essas companhias estejam prestes a desaparecer. A recuperação judicial e a extrajudicial são instrumentos previstos na legislação brasileira justamente para tentar reorganizar empresas que enfrentam dificuldades financeiras e preservar a atividade econômica, empregos e relações comerciais.

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Imagem: Zolnierek / Shutterstock.com – Edição: Seu Crédito Digital

Não existe uma única explicação para a sequência de pedidos. O cenário combina custo elevado do crédito, endividamento acumulado, menor disponibilidade de financiamento, mudanças no consumo e dificuldades específicas de cada companhia.

O problema é particularmente relevante para empresas que dependem de capital de giro. No varejo, por exemplo, a companhia precisa financiar estoques, lojas, logística e vendas parceladas ao mesmo tempo em que enfrenta consumidores mais sensíveis ao preço e ao custo do crédito.

Quando os juros permanecem elevados por um período prolongado, uma dívida contratada anteriormente pode se tornar muito mais pesada. Se as vendas não crescem no mesmo ritmo, o caixa começa a ser utilizado para pagar juros e amortizações, reduzindo o dinheiro disponível para manter a operação.

Essa combinação ajuda a explicar por que o varejo aparece com frequência entre os casos recentes, embora os problemas também tenham atingido empresas de saúde, indústria e outros segmentos.

Recuperação judicial e extrajudicial são a mesma coisa?

Não. Embora as duas modalidades tenham como objetivo reorganizar dívidas e evitar uma deterioração maior da empresa, o processo é diferente.

Na recuperação judicial, a companhia leva a situação à Justiça e apresenta um plano para reorganizar suas obrigações. Os credores participam do processo e podem votar as condições propostas, conforme as regras da Lei nº 11.101/2005.

Na recuperação extrajudicial, a negociação ocorre de maneira mais direta entre a empresa e determinados grupos de credores. O acordo pode posteriormente ser submetido à homologação judicial, desde que atendidos os requisitos legais.

Em ambos os casos, a intenção é criar condições para que a companhia consiga continuar funcionando enquanto reorganiza suas obrigações.

Quais empresas entraram em recuperação em agosto?

Grupo Gennius

O Grupo Gennius, responsável por marcas como Habib’s, Ragazzo e Tendall, protocolou recuperação judicial com uma dívida declarada de aproximadamente R$ 265,2 milhões.

A empresa atribuiu parte das dificuldades aos efeitos acumulados da pandemia, às mudanças no comportamento dos consumidores e ao ambiente de juros elevados. As lojas próprias continuam funcionando durante o processo.

O caso chama atenção porque restaurantes trabalham com margens pressionadas e precisam administrar simultaneamente despesas com aluguel, energia, mão de obra, alimentos e logística.

Braskem

Braskem
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A Braskem optou pela recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 56 bilhões, em dívidas.

A empresa informou que a medida possui foco financeiro e busca criar um ambiente jurídico para negociar com credores. Entre os fatores que pressionam a companhia estão as condições desfavoráveis do mercado petroquímico e os impactos relacionados ao desastre geológico em Maceió.

O episódio mostra que a dificuldade financeira não está restrita ao varejo: empresas industriais de grande porte também podem enfrentar problemas de liquidez mesmo quando continuam operando e apresentando resultados operacionais.

Casas Bahia

O Grupo Casas Bahia entrou com recuperação judicial para reorganizar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. O processo envolve dez empresas da holding e ocorre depois de uma recuperação extrajudicial realizada em 2024.

A companhia citou juros elevados, restrição de crédito, aumento das despesas financeiras e pressão sobre o consumo como fatores que agravaram a situação.

O caso também ganhou repercussão entre trabalhadores e consumidores. A Justiça determinou a suspensão das execuções contra a empresa por 180 dias, criando uma proteção para que a reestruturação possa avançar sem uma corrida generalizada de credores.

Grupo Toky

O Grupo Toky, ligado às marcas Tok&Stok e Mobly, também recorreu à recuperação judicial para reorganizar uma dívida superior a R$ 1 bilhão.

A empresa vinha enfrentando dificuldades desde a pandemia, em um cenário de menor demanda por móveis e decoração e aumento dos custos financeiros. O episódio integra uma sequência de problemas que atingiram empresas de varejo dependentes de crédito e capital de giro.

Marabraz

Marabraz
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A Marabraz apresentou pedido de recuperação judicial para reorganizar aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas.

Além das condições adversas do varejo, o caso envolve questões próprias da estrutura empresarial e dificuldades para manter linhas de financiamento. A empresa informou que pretende continuar suas operações durante o processo.

St Marche

O Grupo Hortus, controlador do St Marche, entrou em recuperação judicial com dívidas de aproximadamente R$ 574,3 milhões.

A rede mantém suas operações e também negociou a venda para o grupo chileno Cencosud. A transação depende das aprovações necessárias, incluindo a análise das autoridades competentes.

Oncoclínicas e Alliança Saúde

O setor de saúde também aparece entre os casos relevantes de 2026.

A Oncoclínicas recorreu à recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente R$ 5 bilhões em dívidas. O processo segue em negociação com credores e teve atualização do plano em agosto.

Já a Alliança Saúde apresentou plano de recuperação extrajudicial envolvendo cerca de R$ 1,1 bilhão. O grupo enfrenta dificuldades relacionadas à geração de caixa, endividamento e recebimento de valores de operadoras de planos de saúde.

O que muda para o consumidor?

A recuperação judicial de uma empresa não significa automaticamente que lojas serão fechadas ou que pedidos deixarão de ser entregues.

Enquanto a companhia continuar operando, contratos de consumo e direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor permanecem válidos. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), inclusive, passou a monitorar casos como Casas Bahia, Tok&Stok e Marabraz diante das dúvidas dos consumidores.

Quem tiver uma compra pendente deve guardar notas fiscais, comprovantes de pagamento, protocolos e documentos relacionados ao pedido. Em situações de atraso, cancelamento ou reembolso, o consumidor pode precisar acompanhar diretamente o processo de recuperação para saber como seu crédito será tratado.

Também é importante não confundir recuperação judicial com encerramento imediato das atividades. A finalidade do mecanismo é justamente tentar preservar a empresa.

E quem investiu nessas empresas?

O impacto depende do tipo de investimento.

Quem possui ações é sócio da companhia e pode sofrer forte desvalorização do investimento. Já quem possui debêntures ou outros títulos de dívida ocupa a posição de credor e pode estar sujeito às condições estabelecidas no plano de recuperação.

No caso da Braskem, por exemplo, a reestruturação pode afetar investidores com exposição direta ou indireta à dívida da companhia, incluindo fundos e determinados instrumentos de crédito.

Por isso, o investidor precisa verificar qual é exatamente o produto financeiro que possui e quais regras se aplicam a ele.

A onda de recuperações representa uma crise econômica?

O aumento de recuperações é um sinal de pressão sobre determinadas empresas, mas não significa necessariamente que o Brasil esteja diante de uma crise sistêmica.

Os casos possuem características diferentes. Algumas companhias enfrentam problemas de governança ou estrutura societária; outras acumulam dívidas elevadas; há ainda aquelas afetadas por mudanças no mercado, custos financeiros ou choques específicos.

O ponto em comum é que muitas empresas chegaram a 2026 com estruturas financeiras mais pressionadas e menor margem para absorver novos aumentos de custos.

Para consumidores e investidores, o cenário exige atenção, mas não motivo para pânico. A recuperação judicial ou extrajudicial é, antes de tudo, uma tentativa de reorganizar a empresa e preservar sua capacidade de continuar funcionando.

Imagem: Reprodução

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