Durante décadas, visitar uma loja da Toys “R” Us foi quase um passeio obrigatório para muitas famílias. Seus enormes corredores, o mascote Geoffrey, a girafa, e a variedade de brinquedos transformaram a rede em um dos maiores símbolos do varejo norte-americano.
Esse império começou a desmoronar em setembro de 2017. Com aproximadamente US$ 5 bilhões em dívidas, dificuldades para modernizar a operação e uma concorrência cada vez mais forte, a companhia recorreu ao processo de recuperação previsto no Capítulo 11 da legislação dos Estados Unidos.
A tentativa de reorganização não produziu o resultado esperado. Em 2018, depois de não encontrar uma solução capaz de preservar a operação norte-americana, a Toys “R” Us iniciou a liquidação de 735 lojas nos Estados Unidos e em Porto Rico.
O encerramento, porém, não representou o fim definitivo da marca. Anos depois, a Toys “R” Us ressurgiu sob outro controle, com lojas menores, parcerias comerciais e pontos de venda instalados dentro de outras redes.
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Qual foi a rede de brinquedos que encerrou 735 lojas?

A rede foi a Toys “R” Us, empresa fundada pelo empresário Charles Lazarus nos Estados Unidos.
Lazarus abriu, em 1948, uma loja de móveis infantis chamada Children’s Bargain Town. O negócio surgiu no período posterior à Segunda Guerra Mundial, quando o crescimento do número de nascimentos aumentou a demanda por produtos destinados a bebês e crianças.
Com o tempo, o empresário percebeu que brinquedos geravam compras recorrentes. Enquanto um berço podia ser utilizado durante anos, os brinquedos eram substituídos conforme as crianças cresciam e novos produtos chegavam ao mercado.
Em 1957, Lazarus abriu a primeira loja com o nome Toys “R” Us. O modelo reunia milhares de produtos em grandes estabelecimentos, permitindo que o cliente encontrasse diferentes marcas e categorias no mesmo endereço.
A fórmula ganhou força principalmente entre as décadas de 1970 e 1990. A companhia expandiu sua presença pelos Estados Unidos e chegou a diversos mercados internacionais, tornando-se uma referência global no segmento.
Por que a Toys “R” Us faliu?
A falência não teve uma única causa. A rede foi atingida por uma combinação de endividamento elevado, mudanças no comportamento do consumidor, concorrência de grandes varejistas e atraso na transformação digital.
A internet teve um papel importante, mas atribuir toda a crise à Amazon simplifica demais o caso. O maior problema era que a Toys “R” Us precisava enfrentar uma nova realidade comercial enquanto destinava uma parcela significativa do caixa ao pagamento de dívidas.
Compra alavancada aumentou a dívida
Em 2005, Bain Capital, KKR e Vornado Realty Trust compraram a Toys “R” Us em uma operação avaliada em aproximadamente US$ 6,6 bilhões.
A aquisição foi estruturada como uma compra alavancada, conhecida no mercado pela sigla LBO. Nesse tipo de negociação, uma parte considerável do valor é financiada por dívida, que passa a ser suportada pela própria empresa adquirida.
É como comprar uma casa utilizando um financiamento alto e depender da renda produzida pelo próprio imóvel para pagar as prestações. Se os custos aumentarem ou a receita cair, sobra pouco dinheiro para reformas e modernização.
No caso da Toys “R” Us, os compromissos financeiros consumiam centenas de milhões de dólares por ano. O dinheiro usado no pagamento de juros deixou de ser aplicado na renovação das lojas, no comércio eletrônico, na logística e na experiência do consumidor.
Concorrentes vendiam os mesmos produtos
A rede também perdeu espaço para Walmart, Target e Amazon. Essas empresas vendiam brinquedos junto com alimentos, roupas, eletrônicos e outros produtos, facilitando a compra em uma única visita ou pedido.
Durante períodos importantes, como o Natal, grandes varejistas podiam utilizar brinquedos populares para atrair clientes, mesmo com margens menores. A estratégia pressionava os preços praticados por lojas especializadas.
A Toys “R” Us possuía variedade, reconhecimento e relacionamento com fabricantes. Ainda assim, enfrentava dificuldades para competir em preço e conveniência com empresas de operação mais diversificada.
Comércio eletrônico avançou rapidamente
A mudança para as compras online agravou a situação. Consumidores passaram a comparar valores pelo celular, receber produtos em casa e consultar avaliações antes da compra.
A Toys “R” Us demorou a desenvolver uma operação digital competitiva. Entre 2000 e 2006, seu site nos Estados Unidos foi operado em parceria com a Amazon, acordo que limitou o desenvolvimento independente de sua estrutura de comércio eletrônico durante um período decisivo.
Quando a empresa tentou acelerar sua transformação digital, Amazon e outros concorrentes já possuíam plataformas mais eficientes, grandes bases de clientes e redes logísticas avançadas.
Lojas precisavam de modernização
Muitas unidades eram grandes, caras e pouco atualizadas. A iluminação, a organização dos corredores e a experiência de compra perderam atratividade diante de lojas mais modernas e plataformas digitais.
O tamanho dos estabelecimentos, que havia sido uma vantagem durante a expansão, transformou-se em um custo pesado. Aluguel, manutenção, estoque e mão de obra exigiam receitas elevadas para sustentar cada unidade.
Sem recursos suficientes para uma ampla reforma, a rede perdeu capacidade de oferecer uma experiência que justificasse o deslocamento até uma loja física.
Como começou o processo de falência?
Em 18 de setembro de 2017, a Toys “R” Us solicitou proteção judicial pelo Capítulo 11 nos Estados Unidos.
O Capítulo 11 não determina, automaticamente, o fechamento de uma empresa. Ele permite que a organização continue funcionando enquanto negocia dívidas e apresenta um plano de reorganização.
A expectativa inicial era manter as lojas abertas, conseguir novo financiamento e reestruturar os compromissos com os credores. A companhia ainda recebeu recursos para pagar fornecedores e preparar os estoques para o fim do ano.
A recuperação dependia de boas vendas na temporada de Natal de 2017. Os resultados ficaram abaixo do necessário, enquanto fornecedores passaram a exigir condições mais rígidas por medo de não receber.
Esse movimento criou um círculo perigoso. Com menos confiança dos fornecedores, a rede enfrentava dificuldades para manter os produtos mais procurados nas prateleiras. Com uma oferta menos atraente, ficava ainda mais difícil recuperar as vendas.
Por que não apareceu um comprador para salvar as lojas?
Houve interessados em partes da empresa, em operações estrangeiras e nos direitos da marca. O problema era encontrar um investidor disposto a assumir centenas de lojas, contratos de aluguel, despesas operacionais e dívidas.
Isaac Larian, fundador da fabricante de brinquedos MGA Entertainment, tentou organizar uma proposta para preservar parte da rede norte-americana. Uma oferta por centenas de unidades chegou a ser apresentada, mas não foi aceita.
A operação canadense, considerada mais saudável, encontrou uma solução separada e foi vendida. Outros negócios internacionais também foram preservados, negociados ou reorganizados de maneira independente.
Portanto, a liquidação de 735 lojas não significou o encerramento simultâneo de todas as unidades da marca no mundo. A medida atingiu especificamente a operação nos Estados Unidos, incluindo Porto Rico.
Como ocorreu a liquidação das 735 lojas?
Em março de 2018, a companhia solicitou autorização ao tribunal de falências para encerrar ordenadamente a operação norte-americana.
A liquidação envolveu:
- venda dos produtos com descontos progressivos;
- encerramento de contratos de aluguel;
- negociação ou venda de ativos;
- desligamento de funcionários;
- desativação de centros administrativos e logísticos;
- tratamento das dívidas conforme as regras do processo judicial.
As últimas lojas da antiga operação fecharam em junho de 2018. A despedida provocou forte repercussão, principalmente entre consumidores que associavam a rede à infância.
Cerca de 30 mil trabalhadores foram afetados pelo encerramento. O impacto também chegou a transportadoras, proprietários de imóveis comerciais, fornecedores e fabricantes de brinquedos.
O fechamento aconteceu também no Reino Unido?
A divisão britânica enfrentou seu próprio processo de insolvência. Sem conseguir um comprador capaz de manter a operação, encerrou suas lojas em 2018.
Apesar da proximidade das datas, os procedimentos dos Estados Unidos e do Reino Unido seguiram legislações e administrações diferentes.
Em outros mercados, a situação também variou. Algumas divisões continuaram abertas, enquanto outras foram vendidas a investidores locais ou operadas por licenciados.
Esse detalhe é fundamental: a antiga controladora entrou em colapso, mas a marca possuía contratos e estruturas diferentes ao redor do mundo. Por isso, o nome Toys “R” Us não desapareceu de todos os países.
O que aconteceu com os fabricantes de brinquedos?
O fechamento deixou uma lacuna importante na distribuição de brinquedos. Fabricantes perderam um cliente que comprava grandes volumes e oferecia espaço para uma variedade maior de produtos.
Grandes marcas conseguiram ampliar sua presença em supermercados, lojas de departamento e plataformas digitais. Empresas menores enfrentaram uma situação mais difícil, pois dependiam das prateleiras da rede para apresentar produtos aos consumidores.
Walmart, Target e Amazon absorveram parte das vendas. No entanto, uma loja especializada oferecia espaço para itens que talvez não recebessem destaque em varejistas generalistas.
O episódio mostrou aos fabricantes o risco de depender excessivamente de um único canal. Desde então, muitas empresas reforçaram as vendas diretas pela internet e diversificaram as parcerias comerciais.
A Toys “R” Us ainda existe?
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Sim. O que faliu e encerrou as 735 lojas foi a antiga operação norte-americana. Os direitos da marca sobreviveram e passaram por uma reorganização.
A WHP Global assumiu o controle da Tru Kids, responsável pelas marcas Toys “R” Us e Babies “R” Us, em 2021. A nova estratégia abandonou a dependência exclusiva de enormes lojas independentes.
Nos Estados Unidos, a marca voltou por meio de uma parceria com a Macy’s, criando espaços dedicados dentro das lojas de departamentos. Também foram inauguradas unidades maiores em locais como American Dream, em Nova Jersey, e Mall of America, em Minnesota.
A expansão passou a incluir lojas em aeroportos, pontos sazonais e novas unidades independentes. Em 2025, a controladora anunciou dez novas lojas de maior porte e 20 operações temporárias para a temporada de fim de ano, complementando os espaços instalados na Macy’s. A estratégia foi detalhada pela própria WHP Global.
Em outros países, a Toys “R” Us continua funcionando por meio de licenciados e parceiros. O nome, portanto, permanece ativo, mas sob uma estrutura diferente daquela que entrou em falência.
O retorno significa que a empresa se recuperou da falência?
Não exatamente. A marca foi recuperada, mas a antiga companhia não voltou com a mesma estrutura.
Os novos operadores utilizam o nome, o mascote e os direitos comerciais da Toys “R” Us. Eles trabalham com menos lojas próprias, pontos menores e parcerias que reduzem o custo fixo.
Uma loja dentro da Macy’s, por exemplo, não exige a mesma estrutura de um enorme estabelecimento independente. O modelo permite compartilhar fluxo de consumidores, imóveis e parte da operação.
Esse formato representa uma reconstrução da marca, e não a reabertura integral da empresa liquidada em 2018.
O que a falência ensina ao varejo?
A história da Toys “R” Us mostra que reconhecimento de marca não compensa indefinidamente uma estrutura financeira frágil.
A companhia ainda era conhecida, possuía fornecedores importantes e atraía milhões de consumidores. Mesmo assim, a combinação de dívida elevada e baixa capacidade de investimento reduziu suas opções.
O caso deixa algumas lições:
- empresas endividadas perdem agilidade para reagir às mudanças;
- comércio eletrônico e lojas físicas precisam funcionar de forma integrada;
- tamanho pode virar desvantagem quando os custos são altos;
- depender da nostalgia não substitui uma boa experiência de compra;
- marcas podem sobreviver mesmo quando a empresa original desaparece.
Para o varejo brasileiro, o episódio também serve de alerta. Redes tradicionais precisam acompanhar preços, logística, atendimento digital e novos hábitos sem comprometer o caixa com uma expansão insustentável.
Perguntas frequentes

Qual rede de brinquedos fechou 735 lojas?
Foi a Toys “R” Us. A antiga operação norte-americana liquidou 735 unidades nos Estados Unidos e em Porto Rico em 2018.
Por que a Toys “R” Us faliu?
A companhia acumulou aproximadamente US$ 5 bilhões em dívidas e perdeu capacidade de investir. Também enfrentou concorrência de Amazon, Walmart e Target, além do avanço do comércio eletrônico.
Quantos funcionários foram afetados?
Cerca de 30 mil trabalhadores foram atingidos pelo encerramento da operação norte-americana.
A Amazon foi responsável pela falência?
A Amazon aumentou a pressão competitiva, mas não foi a única responsável. O endividamento resultante da compra alavancada de 2005 teve papel central na crise.
A Toys “R” Us acabou definitivamente?
Não. A empresa que controlava as lojas norte-americanas foi liquidada, mas a marca continuou existindo e voltou a abrir pontos de venda sob outro controle.
Existem lojas Toys “R” Us atualmente?
Sim. A marca possui lojas próprias, unidades licenciadas, pontos dentro da Macy’s, operações sazonais e presença em diferentes países.
A Toys “R” Us tinha lojas no Brasil?
A rede principal não mantém no Brasil uma estrutura nacional comparável à antiga operação dos Estados Unidos. A marca relacionada Babies “R” Us, voltada a produtos para bebês, chegou ao mercado brasileiro por meio de licenciamento.



