Nos últimos anos, um movimento de governos em diferentes partes do mundo reacendeu o debate sobre a real relação entre feriados, produtividade e crescimento econômico. França, Eslováquia, Dinamarca e até os Estados Unidos entraram na pauta das notícias ao anunciar planos ou discutir cortes de feriados nacionais.
Diminuir a quantidade de feriados pode melhorar a economia? Entenda
França, Eslováquia, Dinamarca e EUA debatem eliminar feriados para estimular a economia. Estudos, porém, mostram que descanso pode ser essencial à produtividade.
A justificativa oficial costuma girar em torno de alívio orçamentário, aumento do PIB e estímulo ao mercado de trabalho.
No entanto, economistas e analistas sociais alertam que a questão é muito mais complexa: trabalhar mais não significa necessariamente produzir mais, e a ausência de descanso pode resultar em queda de qualidade de vida, burnout e até menor eficiência laboral.
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O plano francês
Em julho de 2025, o primeiro-ministro da França, François Bayrou, propôs a eliminação de dois feriados tradicionais: a Segunda-feira de Páscoa e o Dia da Vitória na Europa (8 de maio). Atualmente, o calendário francês soma 11 feriados nacionais anuais, e a medida reduziria esse número para nove.
Reações políticas
A proposta gerou indignação imediata. Lideranças políticas de diferentes vertentes criticaram a iniciativa, argumentando que os feriados fazem parte da memória histórica e cultural francesa.
Para Bayrou, a decisão seria necessária para reduzir pressões orçamentárias e estimular a atividade econômica em tempos de baixo crescimento. Contudo, para a oposição, a ideia representa um retrocesso social disfarçado de medida fiscal.
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Eslováquia e Dinamarca
A França não está sozinha nesse caminho. Em 2025, a Eslováquia cortou um feriado em tentativa de melhorar sua situação fiscal. A medida espelhou decisão da Dinamarca em 2023, quando o governo suprimiu um feriado pós-Páscoa para criar espaço fiscal voltado ao aumento do orçamento de defesa, em resposta às tensões geopolíticas no continente.
Embora impopulares, as medidas revelam um padrão: governos optando por ajustes rápidos em busca de maior arrecadação tributária e dias úteis adicionais.
Estados Unidos: Trump e a crítica aos “feriados inúteis”
Declaração polêmica
Do outro lado do Atlântico, o presidente dos EUA, Donald Trump, também trouxe o tema ao centro do debate. Em 19 de junho de 2025, ele afirmou em sua rede social pessoal que havia “muitos feriados sem trabalho” nos Estados Unidos, o que custaria “bilhões de dólares” à economia.
A fala não passou despercebida: foi feita justamente no Juneteenth, feriado que marca o fim da escravidão no país e que havia sido transformado em data nacional durante o governo de Joe Biden.
Repercussões
Para críticos, a fala teve tom político e buscou minimizar um feriado que carrega forte simbolismo histórico e racial. Economistas apontaram ainda que a relação entre feriados e perda bilionária de produtividade é, no mínimo, questionável.
Feriados e produtividade: o que dizem os estudos
Evidências limitadas
Segundo Charles Cornes, economista sênior da consultoria britânica Cebr, as evidências de que menos feriados resultam em maior produtividade são limitadas.
Ele explica que o crescimento econômico depende menos da quantidade de dias trabalhados e mais de fatores como:
- Eficiência da mão de obra
- Investimento em capital
- Nível de qualificação da força de trabalho
- Adoção de tecnologia
Impactos no PIB
Estudos indicam que o corte de feriados pode gerar pequenos aumentos no PIB, mas nada comparável ao crescimento total de dias úteis.
Um levantamento de 2021, feito por Lucas Rosso e Rodrigo Andres Wagner, mostrou que feriados podem inclusive estimular segmentos do PIB, como turismo e comércio, ao aumentar a demanda por determinados bens e serviços.
Já análises do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Bundesbank alemão concluíram que qualquer ganho é desproporcionalmente menor que o aumento de dias de trabalho.
O contraponto: descanso como motor de eficiência
Burnout e queda de bem-estar
Especialistas lembram que a produtividade não se resume a horas trabalhadas. Segundo Adewale Maye, do Instituto de Política Econômica em Washington, menos feriados e férias ampliam o risco de burnout e prejudicam a saúde física e mental dos trabalhadores.
Esse impacto, no longo prazo, compromete não apenas a vida pessoal, mas também a eficiência econômica de toda a sociedade.
Ganhos indiretos do lazer
Pesquisas também mostram que dias de descanso aumentam a criatividade, motivação e disposição dos trabalhadores. Além disso, setores como hotelaria, turismo e varejo registram alta de atividade durante feriados, compensando parte da suposta perda em outros segmentos.
Feriados versus férias remuneradas: a experiência da OCDE
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Comparação internacional
O debate sobre feriados se insere em uma discussão mais ampla sobre o tempo de descanso remunerado. Um estudo de 2020 revelou que, somando feriados e férias, países da OCDE oferecem, em média, de 30 a 36 dias de folga remunerada por ano.
Exemplos incluem:
- Áustria: 38 dias
- Dinamarca: 36 dias
- Finlândia: 36 dias
Esses países figuram entre os que possuem maiores PIBs per capita no mundo, sugerindo que tempo livre não impede prosperidade econômica.
O caso dos EUA
Os Estados Unidos são exceção: não oferecem férias remuneradas obrigatórias e contam apenas com 11 feriados nacionais. Ainda assim, muitos setores, como turismo e varejo, funcionam normalmente, sem garantir descanso pago aos trabalhadores.
Para Maye, esse modelo prova que o problema americano não é excesso de feriados, mas a ausência de um sistema que garanta direitos básicos de descanso sem comprometer a economia.
O dilema das políticas públicas

Estratégias distintas
Enquanto alguns países testam cortes de feriados para aliviar orçamentos, outros investem em modelos alternativos, como incentivar maior participação de trabalhadores em tempo parcial ou flexibilizar jornadas.
Na Alemanha, por exemplo, há iniciativas para que funcionários ampliem horas de trabalho voluntariamente, sem mexer no calendário de feriados nacionais.
Reações sociais
Eliminar feriados, diferentemente de flexibilizar jornadas, costuma gerar reação popular intensa. Feriados carregam valor simbólico, cultural e histórico, sendo vistos como conquistas sociais difíceis de reverter.
Considerações finais
O debate sobre a eliminação de feriados revela um dilema central das sociedades modernas: equilibrar produtividade e bem-estar social.
Embora governos como os da França, Eslováquia, Dinamarca e até dos EUA defendam cortes como estratégia de crescimento, especialistas e estudos indicam que os ganhos são mínimos e de curto prazo.
Em contrapartida, preservar feriados e férias remuneradas pode ser não apenas um direito social, mas também uma estratégia inteligente de desenvolvimento humano e econômico, garantindo que os trabalhadores atuem de forma mais motivada, saudável e eficiente.
A polêmica deve continuar, mas a evidência mais forte até aqui sugere que descansar não é desperdício — é investimento.
