A Reforma Tributária começa a exigir decisões mais concretas de bares e restaurantes, mas a maior parte dos empresários do setor ainda não se sente preparada para a transição. Pesquisa nacional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) aponta que 60,9% dos entrevistados consideram seus negócios pouco ou nada preparados para as mudanças.
O levantamento ouviu 1.480 empresários de todas as regiões do país, entre 20 e 28 de julho de 2026. Entre os participantes, 43,9% disseram estar pouco preparados e 17% afirmaram não estar preparados. Apenas 22,9% se consideraram preparados ou muito preparados, enquanto 16,3% sequer conseguiram avaliar o nível de preparação da própria empresa.
O cenário mostra que a principal dificuldade não é apenas conhecer os novos impostos. Para muitos empresários, o desafio é entender como as regras do IBS e da CBS poderão afetar preços, margens, fluxo de caixa, créditos tributários e a rotina operacional.
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Preço e margem estão entre as maiores preocupações
A formação de preços aparece como uma das dúvidas mais relevantes para o setor. Segundo a pesquisa, 49,4% dos empresários têm questionamentos sobre os possíveis efeitos da Reforma Tributária nos preços cobrados e nas margens de lucro.
Para um restaurante, por exemplo, a adaptação não pode ser resumida à troca de um tributo por outro. O empresário precisa avaliar o impacto sobre custos de fornecedores, compras, serviços contratados, receitas e a possibilidade de aproveitamento de créditos.
Logo depois aparecem as dúvidas sobre o funcionamento do IBS e da CBS, citadas por 48,1% dos entrevistados. Outros 46,8% demonstraram preocupação com o regime específico do setor, incluindo a redução de 40% das alíquotas e as regras relacionadas aos créditos.
A Lei Complementar nº 214/2025 prevê um regime específico para bares, restaurantes e estabelecimentos similares, com redução de 40% das alíquotas do IBS e da CBS nas operações abrangidas pelas regras do setor. A legislação, porém, também estabelece condições próprias para o tratamento tributário e para o creditamento, o que torna necessária uma análise da operação de cada empresa.
Empresas do Simples Nacional concentram grande parte das dúvidas
Os optantes pelo Simples Nacional representam 71,3% dos empresários ouvidos pela Abrasel. Dentro desse grupo, somente 10,6% afirmaram estar se preparando ativamente para as decisões relacionadas à nova tributação.
Entre os demais, 33,6% disseram não ter informações suficientes. Outros 29% reconhecem a importância da decisão, mas afirmam precisar de mais ferramentas e orientação. Para 26,8%, o prazo é curto e o mercado ainda não oferece suporte suficiente para a preparação.
Somados, esses grupos correspondem a 89,4% dos empresários optantes pelo Simples Nacional que participaram da pesquisa.
Um dos principais pontos de atenção é a possibilidade prevista na legislação de o optante pelo Simples Nacional escolher a apuração do IBS e da CBS pelo regime regular. Nesse caso, os novos tributos passam a ser apurados separadamente, conforme as regras aplicáveis ao regime regular, enquanto a empresa permanece vinculada ao Simples para os demais aspectos previstos na legislação.
Escolha do regime pode variar conforme o perfil do negócio
A dúvida entre manter o tratamento tradicional do Simples e avaliar a apuração regular de IBS e CBS foi mencionada por 34,5% dos empresários.
Não existe uma alternativa automaticamente melhor para todos os estabelecimentos. Um pequeno restaurante que vende quase exclusivamente ao consumidor final pode ter uma realidade diferente daquela de uma empresa que também fornece refeições para outras companhias, realiza eventos corporativos ou atua em uma cadeia com grande peso de operações entre empresas.
A análise precisa considerar fatores como estrutura de custos, perfil dos clientes, possibilidade de créditos e impacto financeiro da nova forma de apuração.
Por isso, decisões baseadas apenas na comparação entre alíquotas podem levar a conclusões equivocadas. O contador e o planejamento tributário passam a ter papel importante na simulação dos cenários antes da escolha.
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Split payment e sistemas de venda entram no planejamento
Outro mecanismo que preocupa 34% dos entrevistados é o split payment, previsto na nova estrutura de tributação do consumo.
O tema merece atenção em bares e restaurantes porque o setor trabalha com grande número de vendas e diferentes formas de recebimento. A implementação do novo modelo exige acompanhamento da integração entre sistemas de gestão, meios de pagamento, documentos fiscais e controles financeiros.
As dúvidas também alcançam as obrigações acessórias e a emissão de notas fiscais, mencionadas por 26,6% dos empresários. Outros 16,4% apontaram incerteza sobre o cronograma da Reforma Tributária.
Em 2026, o período de transição já exige adaptações técnicas. Um ato conjunto da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS tratou do preenchimento dos campos relacionados aos novos tributos nos documentos fiscais, dentro do calendário de implementação.
Maioria prevê impacto negativo no setor

A pesquisa também revelou preocupação sobre os efeitos econômicos da mudança. Entre os entrevistados, 54,2% acreditam que a Reforma Tributária terá impactos negativos ou muito negativos para o setor de alimentação fora do lar.
Quando avaliam o próprio estabelecimento, 52,9% também esperam consequências negativas ou muito negativas. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa ainda não consegue estimar os efeitos: 22,5% não sabem avaliar o impacto sobre o setor e 22,9% não conseguem prever o resultado para a própria empresa.
Os números reforçam que o problema, neste momento, está diretamente ligado à falta de informação e à dificuldade de transformar regras complexas em decisões práticas de gestão.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital



