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Reforma Tributária: os 3 aspectos mais críticos para o setor de serviços

A regulamentação da reforma tributária pode elevar a carga sobre o setor de serviços. Entenda os riscos com a não cumulatividade e mais!

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Reforma Tributária haddad

A fase de regulamentação da reforma tributária, instituída pela Emenda Constitucional 132/2023, tem provocado forte apreensão entre profissionais da contabilidade, advogados tributaristas e empresários, sobretudo do setor de serviços. Apesar de prometer simplificação e justiça fiscal, o novo sistema baseado na criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) carrega armadilhas que podem onerar severamente uma das áreas mais representativas da economia brasileira.

Com participação estimada em 70% do Produto Interno Bruto (PIB), o setor de serviços corre o risco de se tornar o maior perdedor da reforma, caso não haja adequações específicas na regulamentação em andamento no Congresso Nacional.

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Mão fazendo cálculo usando papel e calculadora. Reforma Tributária
Imagem: lovelyday12 / shutterstock.com

Novo modelo tributário: simplificação ou ameaça?

A reforma visa substituir um emaranhado de tributos — como PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS — por dois grandes impostos: o IBS (de competência compartilhada entre estados e municípios) e a CBS (de competência federal). O princípio norteador do novo modelo é a não cumulatividade plena, com crédito integral dos tributos pagos ao longo da cadeia de produção.

Indústria favorecida, serviços penalizados

Na prática, a estrutura do novo modelo tende a beneficiar setores com alta aquisição de insumos e matérias-primas, como a indústria, enquanto penaliza segmentos que concentram seus custos na mão de obra, como os serviços. Isso porque a folha de pagamento, principal gasto das empresas de serviços, não gera crédito tributário, diferentemente da compra de produtos.

Com alíquotas estimadas entre 25% e 28%, empresas do setor de serviços podem enfrentar um salto na carga tributária, atualmente limitada ao ISS, cuja alíquota varia entre 2% e 5%, dependendo do município.

Custo dos serviços pode subir para o consumidor

A impossibilidade de abater encargos trabalhistas leva à perda de competitividade e tende a aumentar os preços finais dos serviços, pressionando o consumidor e comprometendo a economia de milhares de empresas, especialmente as de pequeno e médio porte. A previsão é de que setores como educação, saúde suplementar, tecnologia e consultoria estejam entre os mais afetados.

O retorno da complexidade com os regimes especiais

Outro ponto que causa preocupação entre especialistas é a quantidade crescente de regimes diferenciados e exceções setoriais aprovadas pelo Congresso, mesmo antes da regulamentação definitiva.

Setores privilegiados já conquistam alíquotas reduzidas

Saúde, educação, transporte público, cultura e até eventos religiosos já conseguiram emplacar tratamentos tributários favorecidos, com alíquotas reduzidas em até 60% em relação à padrão. A consequência disso é dupla: de um lado, enfraquece o princípio da neutralidade e, de outro, aumenta a alíquota média aplicada aos setores que não recebem incentivos.

Insegurança jurídica e disputas sobre enquadramento

No setor de serviços, onde as fronteiras entre atividades são muitas vezes tênues, surgem dúvidas cruciais: uma edtech, que oferece soluções digitais para a educação, será tributada como empresa de tecnologia ou como prestadora de serviços educacionais? A ausência de critérios objetivos de enquadramento pode gerar batalhas judiciais e insegurança para investidores.

Aumento da complexidade contábil e fiscal

O risco, segundo tributaristas, é que a reforma — ao tentar eliminar o cipoal tributário — acabe recriando um novo sistema de exceções e regimes especiais, tão ou mais complexo que o atual. A proliferação de regras específicas obriga as empresas a manterem equipes jurídicas e contábeis especializadas apenas para interpretar a legislação.

Transição até 2033: um campo minado para empresas

O período de transição de nove anos também é visto como um dos maiores desafios operacionais da história tributária do Brasil. A sobreposição de tributos antigos e novos exigirá atenção redobrada das empresas e pode ampliar riscos de inconsistência fiscal.

Etapas da transição

  • 2026: CBS (0,9%) e IBS (0,1%) começam a ser cobrados de forma simbólica, com compensação automática no PIS/Cofins.
  • 2027: Fim do PIS e da Cofins. A CBS passa a valer integralmente, mantendo o ISS em vigor.
  • 2029 a 2032: O ISS será progressivamente substituído pelo IBS, exigindo que empresas operem simultaneamente com CBS, ISS e IBS.
  • 2033: Sistema antigo é extinto e novo modelo entra em vigor de forma definitiva.

Investimentos urgentes em tecnologia e pessoal

Para enfrentar esse cenário, empresas precisarão modernizar sistemas de ERP, capacitar equipes internas, revisar classificações fiscais e manter conformidade com as obrigações acessórias. O custo dessa adaptação pode ser elevado, especialmente para micro e pequenas empresas.

Risco de multas e autuações

Durante a transição, será inevitável a ocorrência de erros em lançamentos e declarações. Isso aumenta o risco de autuações e penalidades, tornando indispensável o acompanhamento técnico por profissionais especializados.

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Litígios sobre o ISS e a necessidade de segurança jurídica

Reforma tributária é aprovada na Câmara dos Deputados
Foto: Zeca Ribeiro | Câmara dos Deputados

A guerra fiscal travada entre municípios em torno da arrecadação do ISS ainda não foi solucionada. Um dos grandes pontos de incerteza é o passivo tributário acumulado por empresas envolvidas em disputas sobre o local do recolhimento — se no município do prestador ou do tomador.

Solução definitiva ainda está em aberto

Especialistas defendem que a regulamentação da reforma precisa prever mecanismos para liquidar esse passivo, como uma transação tributária nacional, capaz de encerrar disputas judiciais e administrativas.

Estabilidade jurídica é essencial para novos investimentos

Sem regras claras e segurança jurídica durante a transição, muitos empresários tendem a adiar investimentos e contratações. O ambiente de incerteza afeta diretamente a confiança de investidores e a competitividade do país.

O papel crucial dos profissionais da contabilidade e tributaristas

empresário fazendo contabilidade enquanto usa a calculadora
Imagem: Natee Meepian | shutterstock

Em meio a tantas mudanças, a atuação dos profissionais de contabilidade e direito tributário será determinante para que empresas consigam se adaptar sem prejuízos.

Diagnóstico setorial e planejamento fiscal

É essencial realizar análises detalhadas sobre o impacto da nova carga tributária em cada segmento de serviços. Estratégias como reestruturação societária, reenquadramento de atividades e recuperação de créditos anteriores podem ser decisivas para equilibrar as contas.

Participação ativa no processo legislativo

Além do acompanhamento técnico, entidades de classe, conselhos de contabilidade e federações empresariais devem intensificar o diálogo com o Legislativo para garantir que a regulamentação final preserve os princípios da reforma: simplicidade, neutralidade, transparência e justiça fiscal.

Imagem: rafastockbr / Shutterstock.com

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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