O Brasil alcançou em 2024 o menor índice de sub-registro de nascimentos de bebês desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2015. Os novos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram um avanço importante no acesso ao registro civil, considerado um dos principais instrumentos de cidadania no país.
Bebês sem registro caem ao menor nível histórico no Brasil, mostra IBGE
IBGE aponta menor sub-registro de bebês da história em 2024, mas Norte e Nordeste ainda enfrentam desafios.
Segundo o levantamento, apenas 0,95% das crianças nascidas vivas deixaram de ser registradas dentro do prazo legal. Em 2015, esse percentual era de 4,21%, o que representa uma queda expressiva ao longo da última década.
O estudo também revela melhora na comunicação dos nascimentos ao sistema de saúde brasileiro. A subnotificação caiu para 0,39%, fortalecendo a qualidade das estatísticas oficiais utilizadas em políticas públicas de saúde, educação e assistência social.
Os números foram produzidos com base em informações dos cartórios de Registro Civil e dos bancos de dados do Ministério da Saúde.
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O que significa sub-registro e subnotificação
Apesar de parecerem semelhantes, os conceitos possuem diferenças importantes.
Sub-registro de nascimento
O sub-registro acontece quando a criança nasce, mas não é registrada oficialmente em cartório dentro do prazo legal considerado pelo IBGE, que vai até março do ano seguinte ao nascimento.
Na prática, isso significa que o bebê existe socialmente, mas permanece invisível para o Estado durante determinado período.
Sem certidão de nascimento, a criança pode enfrentar dificuldades para acessar:
- atendimento médico;
- matrícula escolar;
- benefícios sociais;
- programas de transferência de renda;
- emissão de documentos futuros.
Subnotificação de nascimento de bebês
Já a subnotificação ocorre quando o nascimento não é informado corretamente aos sistemas do Ministério da Saúde, especialmente ao Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC).
Esse problema afeta diretamente a produção de estatísticas públicas e o planejamento de políticas governamentais.
Brasil se aproxima da meta internacional da ONU
Os dados reforçam a aproximação do país das metas previstas na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, que prevê cobertura universal de registro civil.
O avanço brasileiro ganhou reconhecimento internacional em outubro de 2025, quando o país passou a ser classificado como “Produzido” nas estatísticas vitais. O status indica que o Brasil deixou de depender apenas de estimativas indiretas e passou a produzir dados regulares, oficiais e considerados confiáveis sobre nascimentos e óbitos.
Especialistas apontam que a ampliação da digitalização dos cartórios, a integração entre maternidades e registros civis, além da expansão de postos de atendimento em hospitais, ajudaram diretamente nessa evolução.
Partos domiciliares ainda concentram maior risco de falta de registro
O local do parto continua sendo um fator decisivo para o registro da criança.
Enquanto os nascimentos ocorridos em hospitais apresentaram sub-registro de apenas 0,83%, os partos domiciliares registraram índice muito mais elevado: 19,35%.
O dado mostra que famílias em áreas isoladas, comunidades rurais e regiões com menor infraestrutura ainda enfrentam obstáculos para acessar serviços cartoriais.
Em muitos municípios do interior brasileiro, o deslocamento até um cartório pode exigir horas de viagem, principalmente em áreas da Amazônia Legal.
Norte e Nordeste concentram os maiores desafios
Apesar da melhora nacional, o levantamento evidencia forte desigualdade regional.
Regiões com maiores índices de sub-registro
A Região Norte lidera o ranking nacional de ausência de registro civil, com taxa de 3,53%. Em seguida aparece o Nordeste, com 1,34%.
Já os menores índices foram identificados:
- Sul: 0,16%;
- Sudeste: 0,25%.
Os resultados revelam diferenças estruturais relacionadas à renda, acesso a serviços públicos, logística e presença de cartórios.
Municípios com os piores índices do país
Os dez maiores percentuais de sub-registro de nascimento estão concentrados em municípios do Norte e Nordeste.
Cidades com maiores taxas de ausência de registro civil
- Junco do Maranhão (MA): 70,2%;
- Alto Alegre (RR): 67,9%;
- Amajari (RR): 60,1%;
- Uiramutã (RR): 55,6%;
- Lagoa de Velhos (RN): 41,9%;
- Boqueirão do Piauí (PI): 39,2%;
- Lagoa do Barro do Piauí (PI): 38,5%;
- Pedra Branca do Amapari (AP): 36,7%;
- Bom Jesus do Tocantins (PA): 36,2%;
- Luís Domingues (MA): 35%.
Em quatro dessas cidades, mais da metade dos nascimentos não recebeu registro dentro do prazo considerado legal.
Mães adolescentes enfrentam cenário mais crítico
O levantamento também identificou maior vulnerabilidade entre mães muito jovens, especialmente na Região Norte.
Entre adolescentes menores de 15 anos, os índices de ausência de registro civil alcançaram níveis preocupantes:
- Roraima: 39,35%;
- Amapá: 22,31%;
- Amazonas: 14,63%.
Em seis dos sete estados da Região Norte, a taxa para mães dessa faixa etária superou 10%.
Pesquisadores apontam que gravidez precoce, baixa renda, dificuldade de deslocamento e falta de informação estão entre os fatores associados ao problema.
Sub-registro de óbitos também caiu no Brasil
Além dos nascimentos, o estudo do IBGE mostra melhora nos registros de mortes.
O sub-registro de óbitos caiu de 4,89% em 2015 para 3,40% em 2024.
Já a subnotificação no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) foi estimada em 1%.
Diferença entre sub-registro e subnotificação de óbitos
Sub-registro de óbitos
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Ocorre quando a morte não é registrada oficialmente em cartório.
Isso costuma acontecer em áreas remotas ou em situações nas quais a família não consegue realizar o procedimento formal.
Subnotificação de óbitos
Acontece quando o falecimento não é informado adequadamente aos sistemas de saúde, principalmente ao SIM.
Esse tipo de falha prejudica indicadores epidemiológicos e estatísticas de mortalidade.
Mortes infantis seguem com maior invisibilidade
O levantamento mostra que a ausência de registros é mais elevada entre crianças menores de 1 ano.
O sub-registro de óbitos infantis atingiu 10,8% em 2024, percentual mais de três vezes superior à média nacional de óbitos totais.
Na Região Norte, o índice chegou a 26,6%.
As menores taxas foram observadas:
- Sudeste: 2,67%;
- Sul: 2,96%.
Especialistas destacam que mortes infantis sem registro dificultam o planejamento de ações de saúde pública, vacinação e combate à mortalidade neonatal.
Municípios com maiores índices de subnotificação de óbitos
Entre as cidades com maior subnotificação de mortes no sistema de saúde aparecem:
- Miguel Calmon (BA): 71,2%;
- Jordão (AC): 46,7%;
- Porto do Mangue (RN): 37,5%;
- Matões do Norte (MA): 35,2%;
- Umburanas (BA): 33,8%;
- Pedrinhas Paulista (SP): 33,3%;
- Miraselva (PR): 33,3%;
- Presidente Médici (MA): 32,8%;
- Bonfim (MG): 31,2%.
Ranking das cidades com maior sub-registro de óbitos
Os municípios com piores índices de registro civil de mortes em 2024 foram:
- Chapada de Areia (TO): 83,4%;
- Bom Jesus do Tocantins (PA): 77,9%;
- Junco do Maranhão (MA): 73,5%;
- Amajari (RR): 70,9%;
- Lagoa de Velhos (RN): 66,9%;
- Porto Rico do Maranhão (MA): 57,9%;
- Alto Alegre (RR): 57,3%;
- Cutias (AP): 57,3%;
- Bernardo do Mearim (MA): 56,7%;
- Bacurituba (MA): 55,2%.
Registro civil é fundamental para acesso a direitos
Especialistas em políticas públicas afirmam que reduzir o sub-registro significa ampliar o acesso da população a direitos básicos.
A certidão de nascimento é o primeiro documento oficial de um cidadão brasileiro. Sem ela, crianças podem ficar fora de programas sociais, do sistema educacional e até do atendimento de saúde em determinadas situações.
Nos últimos anos, o governo federal, estados e cartórios ampliaram iniciativas como:
- unidades interligadas em maternidades;
- digitalização de registros;
- mutirões de documentação;
- gratuidade da primeira certidão;
- integração entre sistemas públicos.
Mesmo com o avanço histórico registrado em 2024, o desafio continua concentrado em áreas de vulnerabilidade social e baixa cobertura de serviços públicos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Imagem: Freepik / Reprodução
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