O saque-aniversário do FGTS, criado em 2019 durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, passa por mudanças significativas a partir deste sábado. A modalidade, que permite ao trabalhador sacar parte do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no mês de seu aniversário, terá regras mais rígidas para antecipação de valores por meio de empréstimos.
Novas regras do FGTS limitam antecipação do saque-aniversário; veja as restrições
Novas regras do saque-aniversário do FGTS limitam crédito, reduzem antecipações e ampliam debate sobre uso do fundo e proteção social.
As alterações, anunciadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, restringem o número de parcelas que podem ser antecipadas, limitam o valor por parcela e impõem carência para contratação do crédito. As mudanças têm como objetivo reforçar a proteção do trabalhador, evitar endividamento excessivo e preservar os recursos do fundo para investimentos públicos, como habitação popular e infraestrutura.
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O que muda com a nova regra?
Limite de parcelas para antecipação
Atualmente, não há restrição quanto ao número de parcelas do saque-aniversário que podem ser antecipadas pelos bancos. Trabalhadores podem contratar vários empréstimos simultaneamente, com base nos saques anuais futuros.
Com a nova regra:
- Durante o primeiro ano de transição, será possível antecipar até cinco parcelas;
- A partir do segundo ano, o limite cai para três parcelas — ou seja, três anos de saques.
Restrições de valor por parcela
Outra mudança relevante é o teto por parcela antecipada:
- Valor mínimo de antecipação: R$ 100;
- Valor máximo de antecipação: R$ 500 por parcela;
- Dessa forma, o total máximo permitido de antecipação passa a ser de R$ 2.500 (cinco parcelas de R$ 500).
Anteriormente, não havia limite de valor e o trabalhador podia antecipar valores superiores a R$ 10 mil, dependendo do saldo disponível em sua conta vinculada.
Limitação de uma operação de crédito por ano
Agora, o trabalhador poderá contratar apenas um empréstimo por ano com base no saque-aniversário. Antes, eram permitidas operações múltiplas ao longo do ano, inclusive simultâneas.
Carência de 90 dias
Os bancos terão que respeitar um prazo mínimo de 90 dias após a adesão ao saque-aniversário para oferecer a linha de crédito. Atualmente, 26% das concessões são feitas no mesmo dia da opção pela modalidade.
Entenda o saque-aniversário
Criado em 2019, o saque-aniversário é uma alternativa ao saque-rescisão tradicional. Ao aderir, o trabalhador renuncia ao direito de sacar o saldo total da conta em caso de demissão, mantendo apenas o acesso à multa de 40%.
O trabalhador pode retirar anualmente, no mês do seu aniversário, um percentual do saldo do FGTS, que varia de acordo com a faixa de valor disponível na conta.
Tabela atual de saque-aniversário
| Faixa de saldo | Percentual de saque | Parcela adicional |
|---|---|---|
| Até R$ 500 | 50% | — |
| R$ 500,01 a R$ 1.000 | 40% | R$ 50 |
| R$ 1.000,01 a R$ 5.000 | 30% | R$ 150 |
| R$ 5.000,01 a R$ 10.000 | 20% | R$ 650 |
| R$ 10.000,01 a R$ 15.000 | 15% | R$ 1.150 |
| R$ 15.000,01 a R$ 20.000 | 10% | R$ 1.900 |
| Acima de R$ 20.000 | 5% | R$ 2.900 |
A adesão é opcional e pode ser feita pelo aplicativo FGTS, site da Caixa ou presencialmente em agências.
Posição do governo Lula

O Ministério do Trabalho, liderado por Luiz Marinho, vem manifestando críticas contundentes à modalidade. Para o governo, o saque-aniversário expõe o trabalhador a riscos financeiros, especialmente quando ele recorre à antecipação por meio de crédito bancário.
Segundo Marinho, a antecipação compromete a segurança do trabalhador em caso de demissão, pois os valores ficam bloqueados e já foram cedidos ao banco. Em outubro, ele declarou:
“A antecipação do saque-aniversário se transformou em uma armadilha. O trabalhador se vê desamparado no desemprego, pois não pode sacar seu FGTS e ainda tem o saldo reduzido por empréstimos mal planejados.”
Além disso, o governo aponta dois efeitos colaterais graves:
- Desestruturação do FGTS como fundo de investimento público, com prejuízos a programas habitacionais e obras públicas;
- Diminuição da proteção social oferecida pelo FGTS aos trabalhadores formais.
Críticas do setor financeiro
O mercado financeiro reagiu negativamente às novas limitações. Eduardo Lopes, presidente da associação Zetta, que reúne empresas de tecnologia e crédito, alertou que o saque-aniversário:
- É uma linha de crédito acessível a milhões de negativados;
- É mais ampla que o crédito consignado tradicional, que exige vínculo empregatício formal.
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Segundo ele, mais de 130 milhões de brasileiros estavam elegíveis ao saque-aniversário em 2024, enquanto apenas 48 milhões podiam acessar o consignado via CLT.
“Cerca de 70% dos que usaram o saque-aniversário estavam negativados. Essa era a única linha de crédito disponível para muitos. Restringir esse acesso vai gerar um impacto grande”, disse Lopes.
Ele também criticou a ideia de que as pessoas migrarão para o crédito com garantia de FGTS lançado no governo Lula:
“São linhas de crédito muito diferentes. Dizer que quem não conseguir a antecipação vai para o consignado CLT não procede. Uma não substitui a outra.”
Visões econômicas e estudos acadêmicos
Economistas como Bruno Barsanetti e Arthur Kuchenbecker defendem que o saque-aniversário trouxe benefícios importantes à gestão financeira das famílias. Em artigo recente, eles argumentam que:
- O saque-aniversário permitiu o uso racional de uma poupança compulsória, antes imobilizada;
- Facilitou o acesso ao crédito para quem não tinha alternativas no sistema bancário tradicional;
- Sua restrição pode prejudicar famílias que dependem da antecipação como forma de sobrevivência ou reestruturação financeira.
Os autores sugerem que alternativas mais eficazes ao fim do saque-aniversário seriam:
- Aprimorar a rentabilidade do FGTS;
- Flexibilizar o saque-rescisão com regras mais modernas;
- Educação financeira para decisões mais conscientes.
E agora? O que o trabalhador pode fazer?

Com as novas regras, o trabalhador precisa avaliar com cautela antes de optar pelo saque-aniversário ou contratar empréstimos.
Dicas importantes:
- Simule as condições de antecipação no aplicativo do banco ou no site da Caixa;
- Considere o custo efetivo total (CET) do empréstimo, incluindo juros e taxas;
- Avalie se você tem estabilidade no emprego — o saque-aniversário compromete o saldo em caso de demissão;
- Evite antecipar várias parcelas se não for absolutamente necessário;
- Considere consultar um planejador financeiro para evitar decisões impulsivas.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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