Na tarde desta terça-feira (17), a Câmara dos Deputados deu um importante passo para a implementação da reforma tributária no Brasil, ao aprovar o texto-base do Projeto de Lei Complementar (PLP) 68/2024.
Regulamentação da reforma tributária é aprovada pela Câmara
A Câmara aprovou o texto-base da regulamentação da reforma tributária, com alíquotas de até 28% para bens e serviços sem benefícios fiscais
Este projeto trata da regulamentação do novo sistema de tributação, que visa simplificar e tornar mais eficiente o atual modelo, considerado por muitos especialistas como um dos mais complexos do mundo. No entanto, a aprovação do texto-base não é o fim do processo legislativo.
Deputados ainda devem avaliar as emendas de redação e, posteriormente, o projeto será encaminhado para a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que poderá vetar algumas das desonerações propostas. As expectativas são altas, mas as questões em torno das alíquotas e da distribuição de benefícios fiscais ainda geram debates.
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O que muda com a reforma tributária?
A criação de dois novos tributos: CBS e IBS
A reforma tributária, conforme o texto aprovado, propõe a criação de dois novos tributos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Esses impostos serão responsáveis por substituir vários tributos federais, estaduais e municipais, como o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).
O objetivo da criação dessas novas contribuições é simplificar o sistema tributário, reduzindo a burocracia e os custos de compliance. No entanto, o processo de transição até a plena implementação desses tributos, prevista para 2033, traz desafios para as empresas e para a arrecadação pública.

Alíquota padrão de 28% para bens e serviços sem benefícios fiscais
Com as modificações aprovadas, a alíquota padrão para bens e serviços sem benefícios fiscais foi definida em 28,11%. Esse valor é superior à previsão inicial do Senado, que apontava uma alíquota de 29%, o que reflete uma tentativa de redução de impostos, mas que ainda resulta em uma alta carga tributária para diversos setores da economia.
A alíquota de 28% será aplicada a bens e serviços que não se beneficiem das isenções e reduções fiscais previstas na reforma. No entanto, uma série de produtos e serviços terá sua alíquota reduzida, como alimentos da cesta básica, medicamentos e outros itens essenciais. As alíquotas reduzidas podem variar entre 30% e 100%, dependendo do item.
A carga tributária média para o consumidor será de 20%
Uma das mudanças mais importantes da reforma tributária diz respeito à carga tributária para o consumidor. A média de tributos a serem pagos pelos brasileiros será de 20%, o que representa uma redução em relação aos níveis atuais de tributação, que podem ultrapassar os 30% para alguns produtos e serviços.
A reforma traz também a expectativa de um impacto positivo sobre a redução da sonegação, uma vez que os novos tributos contarão com um sistema de arrecadação automático. Isso significa que o processo de pagamento de impostos será mais transparente e eficiente, dificultando a evasão fiscal.
Desonerações e benefícios fiscais: desafios e controvérsias
Deputado Reginaldo Lopes e as mudanças no relatório
O relator da reforma na Câmara, deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), foi responsável por uma série de modificações no texto aprovado. Entre as mudanças mais significativas, destacam-se os cortes ou reduções de benefícios fiscais para diversos bens e serviços que haviam sido incluídos na versão original do Senado.
Itens como saneamento, bolachas/biscoitos, água mineral, veterinários, estacionamentos, veículos elétricos, Sociedades Anônimas do Futebol, cursos de línguas estrangeiras, agrotóxicos, aviação regional e representantes comerciais tiveram suas desonerações cortadas ou reduzidas, gerando controvérsias no meio político e empresarial.
Essas modificações resultaram em uma redução da alíquota total, que caiu 0,70 ponto percentual. No entanto, a reforma continua com uma série de exceções que beneficiam setores específicos, o que gerou críticas tanto da oposição quanto de especialistas que defendem uma tributação mais uniforme.

Impostos seletivos: um foco em produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente
Outra alteração importante foi a criação do Imposto Seletivo, que incidirá sobre produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, como refrigerantes, sucos, bebidas energéticas, fumo, bebidas alcoólicas, veículos, embarcações e aeronaves. A medida visa desincentivar o consumo de itens considerados nocivos, ao mesmo tempo em que contribui para aumentar a arrecadação.
O Imposto Seletivo também incidirá sobre concursos de prognósticos, como as apostas em plataformas de fantasy sports e em jogos de azar. Essa nova tributação reflete uma tendência crescente de taxação de produtos e serviços considerados nocivos à saúde pública ou ao meio ambiente.
Zona Franca de Manaus e exceções fiscais
A Zona Franca de Manaus permanece com incentivos fiscais importantes, como a manutenção da alíquota zero para certos produtos e a manutenção do benefício para a instalação de uma refinaria, atendendo a uma demanda do senador Eduardo Braga (MDB-AM).
Essas exceções refletem o desafio de criar um sistema tributário mais justo, mas que ao mesmo tempo preserve incentivos regionais importantes para o desenvolvimento de áreas como a Zona Franca.
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O futuro do sistema tributário brasileiro: transição e desafios
A transição para o novo sistema tributário: um processo longo
O novo sistema tributário começará a ser cobrado em 2026, com uma alíquota de teste que visa simular o valor exato necessário para manter a arrecadação atual. A transição, no entanto, será gradual e ocorrerá entre 2027 e 2033, período durante o qual o Brasil experimentará mudanças significativas na forma de arrecadação e na distribuição dos recursos.
Esse processo de transição é crucial para que o país consiga adaptar sua economia e as operações das empresas ao novo sistema, garantindo que a arrecadação seja mantida sem causar grandes impactos negativos sobre os contribuintes.
O impacto nas empresas e nos consumidores
Com a nova tributação, espera-se que as empresas se beneficiem da simplificação do sistema e da redução da cumulatividade dos impostos. No entanto, o impacto sobre os consumidores ainda é incerto, especialmente considerando a possibilidade de aumentos nos preços de produtos e serviços, especialmente para aqueles que não se beneficiam das desonerações.
Além disso, a complexidade da reforma tributária e as exceções previstas podem gerar desafios para os contribuintes, que precisarão se adaptar a um novo sistema de arrecadação e fiscalização.

Considerações finais
A aprovação do texto-base da regulamentação da reforma tributária pela Câmara dos Deputados representa um marco importante na trajetória de mudanças no sistema fiscal brasileiro.
Embora a alíquota de 28% para bens e serviços sem benefícios fiscais seja um tema de debate, a reforma traz ganhos significativos em termos de simplificação tributária, redução da sonegação e estímulo à desoneração de atividades essenciais.
A transição para o novo sistema será um processo gradual, com desafios a serem superados tanto por empresas quanto por consumidores. O governo e o Congresso ainda precisarão trabalhar em outros projetos relacionados à reforma tributária, como a definição das alíquotas do Imposto Seletivo, que substituirá o IPI a partir de 2027.
Imagem: Lula Marques/ Agência Brasil
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