O tempo sempre foi uma obsessão da humanidade. Desde os primeiros relógios solares até os atuais padrões atômicos, medir os segundos com precisão é fundamental para o funcionamento da sociedade moderna. Agora, um novo avanço científico promete transformar completamente a maneira como definimos essa unidade básica: os relógios ópticos.
Relógios ópticos podem alterar a forma como o mundo inteiro marca o tempo
Cientistas avançam na padronização dos relógios ópticos, que podem substituir o césio e mudar como o tempo é medido. Saiba mais aqui!!
Pesquisadores de seis países uniram forças em um estudo inédito para comparar os mais avançados relógios ópticos do planeta. Os resultados, publicados recentemente, aproximam ainda mais a ciência da tão aguardada redefinição do segundo — uma mudança histórica com impactos que vão da física de partículas à internet que usamos todos os dias.

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O que são relógios ópticos e o que eles podem muda rno mundo ?
A evolução da medição do tempo
Durante séculos, a contagem do tempo foi feita com base em observações astronômicas. No século XX, os relógios atômicos de césio revolucionaram esse campo, permitindo medições com um erro de apenas 1 segundo a cada milhões de anos. No entanto, os relógios ópticos elevam esse nível de precisão a uma nova ordem de grandeza.
Esses instrumentos funcionam com átomos resfriados a temperaturas próximas do zero absoluto, que são então excitados por lasers altamente controlados. As vibrações geradas — conhecidas como razões de frequência — são extremamente estáveis e podem ser usadas para contar os “tiques” do tempo com precisão quase absoluta.
Por que são mais precisos?
Um relógio óptico pode apresentar um erro de apenas 1 segundo a cada bilhões de anos, tornando-o cerca de 100 vezes mais exato do que o relógio de césio. Isso se deve à maior frequência das transições ópticas em comparação às micro-ondas usadas no césio. O desafio, no entanto, está na complexidade de construção e operação.
Atualmente, existem apenas cerca de 100 relógios ópticos em funcionamento no mundo. Cada um utiliza átomos diferentes — como estrôncio, íterbio ou alumínio — o que cria obstáculos à padronização. Por isso, comparar suas medidas é essencial para unificar um novo padrão global de tempo.
O estudo internacional que mudou o jogo
Cooperação científica sem precedentes
O experimento foi parte do projeto europeu ROCIT (Realizing Optical Clocks to Improve Time), que reuniu cientistas da Finlândia, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Japão. Eles conectaram laboratórios de ponta por meio de cabos de fibra óptica e conexões via satélite, permitindo uma comparação simultânea sem precedentes.
Ao longo de 45 dias, dez relógios foram monitorados continuamente, gerando 38 razões de frequência distintas — quatro delas medidas pela primeira vez. O objetivo foi reduzir incertezas que ainda impedem esses dispositivos de serem aceitos como padrão internacional.
Um salto na metrologia
De acordo com Marco Pizzocaro, do Instituto Nacional de Pesquisa Metrológica da Itália (INRiM), os resultados representam um marco para a metrologia, a ciência da medição. As comparações não apenas atingiram níveis inéditos de precisão, como também revelaram o que ainda precisa ser aperfeiçoado antes da adoção oficial dos relógios ópticos como referência.
Thomas Lindvall, do centro de metrologia finlandês VTT MIKES, destacou que a abordagem do estudo — ao combinar diferentes tipos de enlaces e múltiplos relógios simultaneamente — oferece um ganho informacional que não existia em estudos anteriores, normalmente restritos a pares de dispositivos.
Por que redefinir o segundo importa?
O segundo como unidade fundamental
O segundo é a unidade de base para o tempo no Sistema Internacional de Unidades (SI), servindo como referência para todas as outras medidas temporais. A atual definição, baseada em átomos de césio, está em vigor desde 1967. Com os avanços nos relógios ópticos, essa definição pode se tornar obsoleta.
Uma nova definição baseada em frequências ópticas permitiria maior precisão em sistemas como GPS, redes de telecomunicações, observatórios astronômicos e até experimentos de física de partículas. Seria uma evolução técnica com ramificações profundas na ciência e na infraestrutura global.
Benefícios para outras áreas da ciência
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Relógios ópticos extremamente precisos também permitem testar os limites da teoria da relatividade geral, que prevê que o tempo passa mais lentamente em campos gravitacionais mais intensos. Isso significa que, ao comparar relógios em diferentes altitudes, é possível detectar variações minúsculas na gravidade da Terra.
Além disso, eles podem ajudar na busca por fenômenos ainda não compreendidos, como a matéria escura, e contribuir para investigações em física quântica, cosmologia e mudanças na rotação da Terra.
Os próximos passos da pesquisa
Validação global
Apesar dos avanços, os relógios ópticos ainda precisam passar por mais testes antes de serem oficialmente reconhecidos como padrão. Isso envolve novas comparações, desenvolvimento de modelos mais robustos e maior consenso na comunidade internacional de metrologia.
A Comissão Internacional de Pesos e Medidas (CIPM), responsável pelas unidades do SI, já estuda a viabilidade da redefinição. A expectativa é que uma nova definição do segundo baseada em frequências ópticas possa ser aprovada até o fim da década.
O futuro: relógios nucleares?
Enquanto os relógios ópticos ganham espaço, outra fronteira começa a ser explorada: os relógios nucleares. Diferentemente dos ópticos, que medem a vibração de átomos inteiros, os nucleares baseiam-se na oscilação de núcleos atômicos, o que pode oferecer estabilidade ainda maior.
O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) já desenvolve protótipos desse tipo de relógio. O físico Jun Ye, ligado ao instituto, declarou que essas tecnologias nos colocam cada vez mais próximos de relógios que jamais errariam um segundo — mesmo em bilhões de anos.

O avanço dos relógios ópticos marca um ponto de inflexão na forma como a humanidade mede o tempo. O estudo coordenado por seis países demonstra que já estamos muito próximos de um novo paradigma de medição, mais preciso e confiável, com potencial para revolucionar setores como tecnologia, ciência e navegação.
A redefinição do segundo, quando ocorrer, será resultado de décadas de esforço científico e cooperação internacional. Mais do que apenas uma curiosidade técnica, trata-se de uma mudança com implicações profundas na nossa compreensão do universo — e na sincronia de tudo que depende do tempo em nossa vida cotidiana.
