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Famílias brasileiras enfrentam orçamento mais apertado com queda da renda disponível

Inflação, juros e dívidas comprimem o orçamento das famílias. Veja quanto sobra da renda e entenda o impacto no consumo em 2026.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa··10 min de leitura
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A combinação de inflação, despesas essenciais mais caras e juros elevados está comprimindo o orçamento das famílias brasileiras. Em maio, depois de considerados os gastos básicos e o serviço das dívidas, restavam apenas 21,7% da renda para outros consumos, segundo levantamento da consultoria Tendências.

Na prática, significa que, a cada R$ 100 recebidos, aproximadamente R$ 78 já estavam comprometidos com alimentação, transporte, moradia, medicamentos e pagamentos relacionados a dívidas. O resultado ficou próximo do menor nível da série histórica do levantamento, iniciado em 2011.

Quando o custo das dívidas é retirado da conta, a situação melhora, mas ainda revela forte pressão sobre o orçamento: a renda disponível depois das despesas essenciais correspondia a 41,64% da renda em maio.

O cenário ajuda a explicar por que muitas famílias estão reduzindo compras, procurando preços menores, adiando a aquisição de bens e recorrendo ao crédito para manter o consumo.

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

A perda de espaço no orçamento não é provocada por um único fator.

De um lado, os preços de produtos e serviços essenciais continuam em níveis elevados. De outro, famílias que possuem empréstimos, financiamentos ou dívidas no cartão precisam destinar uma parcela maior da renda para o pagamento dos compromissos financeiros.

A combinação é especialmente pesada porque o consumidor não consegue simplesmente eliminar despesas como alimentação, aluguel, transporte e energia elétrica.

Assim, quando essas contas ficam mais caras, sobra menos dinheiro para todo o restante.

O levantamento da Tendências mostra justamente essa diferença: em maio, as famílias tinham 41,64% da renda disponível depois das despesas essenciais, mas essa parcela caía para 21,7% quando o serviço das dívidas também era considerado.

Isso significa que quase metade do espaço financeiro restante pode ser consumida pelo custo do endividamento.

Inflação continua afetando o poder de compra

Mesmo quando a inflação desacelera, isso não significa que os preços tenham voltado ao patamar anterior.

O exemplo mais simples é o supermercado. Se determinado produto passa de R$ 10 para R$ 11, houve aumento de 10%. Se permanece em R$ 11 no mês seguinte, a inflação daquele produto pode ser zero naquele período, mas o consumidor continua pagando R$ 1 a mais do que antes.

Esse efeito acumulado reduz o poder de compra.

Os dados mais recentes do IPCA-15 mostram que houve desaceleração da inflação em julho. O indicador subiu apenas 0,06% no mês, acumulou 3,51% no ano e 4,52% em 12 meses.

A alimentação apresentou queda de 0,66% em julho, mas ainda acumulava alta de 4,37% no ano. Dentro da alimentação no domicílio, a alta acumulada era de 4,69%.

Ou seja: houve alívio no ritmo de aumento dos preços, mas o nível de preços continua elevado para o consumidor.

Supermercado se tornou um dos principais termômetros do aperto financeiro

A alimentação é uma das áreas em que a perda de poder de compra aparece de forma mais evidente.

Uma pesquisa da dunnhumby com mais de 10 mil consumidores apontou gasto médio mensal de R$ 1.073,98 em supermercados. O levantamento mostrou que o valor representa uma parcela significativa da renda de grande parte das famílias.

O impacto, porém, varia conforme o rendimento.

Para uma pessoa que recebe R$ 2.000 por mês, uma despesa de R$ 1.000 representa metade da renda. Para alguém que ganha R$ 10 mil, o mesmo valor representa apenas 10%.

Por isso, a inflação dos alimentos tende a atingir proporcionalmente mais os consumidores de baixa renda.

Quando uma parcela elevada do salário já está comprometida com necessidades básicas, qualquer aumento de preço reduz rapidamente a margem disponível para outras despesas.

Juros altos também retiram dinheiro do orçamento

A outra parte da equação está no crédito.

Em 5 de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. Apesar da redução, a taxa continua em nível elevado.

A Selic não corresponde diretamente aos juros cobrados de cada consumidor, mas influencia o custo do dinheiro na economia.

Em um ambiente de juros elevados, empréstimos, financiamentos e outras modalidades de crédito tendem a ficar mais caros.

Para quem já está endividado, o efeito é ainda mais importante. Uma parcela relevante da renda pode ser destinada ao pagamento de juros e prestações, diminuindo o dinheiro efetivamente disponível para consumo.

Por isso, uma redução da Selic pode ajudar a melhorar as condições financeiras ao longo do tempo, mas seus efeitos não aparecem imediatamente no orçamento de todas as famílias.

Endividamento recorde aumenta a pressão sobre as famílias

Os dados da Serasa ajudam a dimensionar o problema.

Em junho de 2026, 83,7 milhões de brasileiros estavam negativados, o maior número registrado na série histórica da empresa. O número avançou pelo 18º mês consecutivo.

As dívidas acumuladas pelos consumidores somavam mais de R$ 579,5 bilhões, segundo a Serasa. O valor médio devido por consumidor chegou a R$ 6.920,63.

Outro dado chama atenção: 50,9% da população adulta estava negativada.

Isso não significa que metade dos brasileiros esteja necessariamente sem renda ou sem capacidade de consumo. Mas mostra o tamanho do grupo que enfrenta algum tipo de restrição financeira decorrente de contas atrasadas.

Endividado e inadimplente não são a mesma coisa

Os dois termos costumam ser confundidos.

Uma pessoa endividada possui compromissos financeiros, como financiamento de veículo, empréstimo ou compras parceladas, mas pode estar pagando tudo em dia.

Já a inadimplência acontece quando uma obrigação não é paga no prazo e o consumidor fica em atraso.

O problema aparece quando o endividamento ocupa uma parcela tão grande da renda que qualquer imprevisto faz o consumidor perder a capacidade de pagamento.

Famílias de menor renda são as mais vulneráveis

O impacto da pressão financeira não é distribuído igualmente pela população.

Famílias de renda mais baixa normalmente destinam uma parcela maior dos ganhos para despesas essenciais. Isso deixa pouco espaço para poupança, lazer, investimentos e gastos inesperados.

Uma conta de R$ 200 pode representar uma despesa administrável para uma família de renda elevada, mas provocar um desequilíbrio significativo para quem recebe pouco.

O mesmo vale para os alimentos.

Quanto maior a parcela do orçamento destinada à alimentação, menor a capacidade de absorver aumentos de preços sem reduzir outros gastos.

É por isso que a inflação pode ter efeitos sociais diferentes mesmo quando o índice oficial é o mesmo para toda a população.

O brasileiro está consumindo menos?

A resposta não é tão simples.

Os indicadores mostram que existe uma diferença entre intenção de consumo e capacidade efetiva de gastar.

Mesmo com o orçamento pressionado, as famílias continuam comprando produtos e serviços. O que muda é a forma de consumo: pesquisa de preços, troca de marcas, redução de quantidade, adiamento de compras maiores e maior utilização de promoções podem fazer parte da estratégia para equilibrar as contas.

A situação também pode mudar rapidamente quando o consumidor consegue reduzir despesas financeiras.

Uma família que renegocia uma dívida e diminui o valor mensal das parcelas, por exemplo, pode recuperar parte da renda disponível sem necessariamente aumentar o salário.

O que pode acontecer daqui para frente?

A trajetória da inflação e dos juros será fundamental para determinar se o orçamento das famílias começará a ganhar espaço.

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O cenário atual já apresenta alguns sinais de melhora. O IPCA-15 desacelerou fortemente em julho, enquanto o Banco Central iniciou um processo de redução da Selic.

Mas isso não significa que a pressão financeira tenha desaparecido.

A inflação acumulada ainda está acima da meta central de 3% perseguida pelo Banco Central, enquanto a Selic de 14% permanece elevada. O próprio Banco Central tem indicado cautela diante das incertezas econômicas.

Além disso, milhões de brasileiros ainda carregam dívidas em atraso.

Uma eventual melhora mais consistente dependerá da combinação de inflação controlada, juros menores, manutenção da renda e condições favoráveis no mercado de trabalho.

O que fazer quando o dinheiro não sobra?

Em um cenário de orçamento apertado, o primeiro passo é descobrir exatamente para onde a renda está indo.

Uma divisão simples pode ajudar:

  • despesas essenciais: alimentação, moradia, transporte, energia e medicamentos;
  • dívidas: empréstimos, financiamentos, cartão e outras parcelas;
  • gastos variáveis: lazer, compras e serviços que podem ser reduzidos;
  • reserva: dinheiro destinado a emergências e objetivos futuros.

O consumidor também deve observar principalmente as dívidas com juros mais elevados.

Renegociar uma dívida pode ser vantajoso quando a nova condição reduz efetivamente o custo financeiro e cabe no orçamento. Porém, trocar uma dívida por outra sem resolver o problema de fluxo de caixa pode apenas adiar a dificuldade.

Outra recomendação é evitar transformar despesas recorrentes em parcelas que continuarão comprometendo os meses seguintes.

O cartão de crédito pode ser uma ferramenta útil quando utilizado dentro da capacidade de pagamento, mas o parcelamento excessivo diminui a renda disponível futura.

Por que o orçamento apertado preocupa a economia?

O problema não afeta apenas a vida financeira individual.

Quando milhões de famílias precisam reduzir o consumo, empresas também podem sentir os efeitos da menor demanda.

A queda nas compras de bens duráveis, por exemplo, pode afetar setores como eletrodomésticos, móveis, veículos e outros produtos de maior valor.

Ao mesmo tempo, famílias muito endividadas têm menos capacidade de formar reservas financeiras e enfrentar períodos de desemprego ou despesas inesperadas.

Por isso, a renda disponível funciona como um importante termômetro da saúde financeira dos consumidores.

Quanto maior a parcela do salário comprometida com despesas essenciais e dívidas, menor a capacidade das famílias de poupar, investir e consumir de maneira sustentável.

O que os números revelam sobre o bolso do brasileiro

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Os dados de 2026 mostram um quadro de forte pressão sobre o orçamento doméstico.

De um lado, a renda disponível chegou perto do menor nível da série histórica da Tendências. De outro, a inadimplência alcançou um recorde na medição da Serasa, com 83,7 milhões de consumidores negativados.

Ao mesmo tempo, a inflação começou a mostrar sinais de desaceleração e a Selic entrou em trajetória de queda, embora ainda esteja em patamar elevado.

Para o consumidor, a diferença entre inflação menor e preços menores continua sendo fundamental. Mesmo que os preços subam mais devagar, o orçamento continuará sentindo os aumentos acumulados dos últimos períodos.

A recuperação da renda disponível, portanto, não depende apenas de um único indicador. Ela passa por uma combinação de preços mais comportados, crédito menos caro, renda estável e redução do peso das dívidas.

Até lá, o desafio para milhões de famílias continuará sendo fazer o salário chegar ao fim do mês sem transformar as despesas de hoje em novas dívidas amanhã.

Conclusão

O orçamento das famílias brasileiras segue pressionado pela combinação de preços elevados, juros ainda altos e um nível preocupante de endividamento. Mesmo com sinais recentes de desaceleração da inflação e cortes na Selic, a recuperação do poder de compra tende a acontecer de forma gradual, já que os aumentos acumulados continuam pesando sobre as despesas do dia a dia.

Para milhões de brasileiros, o desafio continua sendo fazer a renda cobrir as necessidades básicas sem ampliar o endividamento. A evolução dos preços, do crédito e da renda nos próximos meses será decisiva para determinar se essa margem financeira finalmente começará a se recuperar.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

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