A possibilidade de herdeiros ou do espólio pleitearem a restituição de valores pagos indevidamente a título de Imposto de Renda tem sido cada vez mais discutida no meio jurídico brasileiro. O tema ganhou relevância especialmente em casos envolvendo contribuintes com doenças graves, nos quais há isenção prevista em lei, mas que, por diferentes razões, continuaram recolhendo tributos.
Herdeiros podem solicitar restituição do IR? Veja regras
STJ e STF reconhecem que herdeiros podem pedir restituição de IR pago indevidamente. Veja regras, decisões e impactos jurídicos.
A questão central gira em torno de um ponto sensível do direito sucessório e tributário: esse direito é personalíssimo, ou seja, intransferível, ou integra o patrimônio do falecido e pode ser herdado?
A jurisprudência recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) tem consolidado um entendimento importante: a restituição de tributos pagos indevidamente possui natureza patrimonial e, portanto, pode ser transmitida aos herdeiros.
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Diferença entre isenção e restituição de imposto de renda
Para compreender a posição dos tribunais superiores, é essencial distinguir dois conceitos que frequentemente são confundidos.
Isenção por doença grave é direito pessoal
A isenção do Imposto de Renda para portadores de moléstia grave está prevista no artigo 6º, inciso XIV, da Lei nº 7.713/1988. Esse benefício:
- Depende de condição médica individual
- Exige comprovação por laudos oficiais
- Está vinculado diretamente ao contribuinte
Por esse motivo, trata-se de um direito personalíssimo, que não se transmite automaticamente aos herdeiros.
Restituição é direito patrimonial
Por outro lado, quando há pagamento indevido de imposto, nasce o direito à repetição de indébito, previsto no artigo 165 do Código Tributário Nacional.
Esse direito:
- Tem valor econômico definido
- Representa crédito contra a Fazenda Pública
- Integra o patrimônio do contribuinte
Ou seja, ainda que o contribuinte não tenha solicitado a devolução em vida, o crédito já existe e pode ser herdado.
O que dizem o STJ e o STF sobre o tema
A jurisprudência brasileira tem evoluído no sentido de ampliar a segurança jurídica para os herdeiros.
Entendimento do STJ
O Superior Tribunal de Justiça tem reiterado que:
- O espólio e os herdeiros são legítimos para pedir restituição de IR pago indevidamente
- Não é necessário que o contribuinte tenha feito pedido administrativo em vida
- O crédito tributário indevido integra o patrimônio do falecido
Em decisões como o REsp 1.660.301/SC e o REsp 2.197.436, o tribunal reforçou que o direito à restituição não é personalíssimo, mas sim patrimonial e transmissível.
Entendimento do STF
O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, consolidou o Tema 1.373 da repercussão geral, estabelecendo que:
- Não é necessário prévio requerimento administrativo
- O contribuinte ou seus sucessores podem recorrer diretamente ao Judiciário
- O acesso à Justiça é garantido pelo artigo 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal
O que é o espólio e qual sua função nesses casos
O espólio representa o conjunto de bens, direitos e obrigações deixados por uma pessoa falecida até a conclusão do inventário.
Base legal da transmissão
Segundo o artigo 1.784 do Código Civil, a herança é transmitida automaticamente aos herdeiros no momento da morte, abrangendo:
- Bens imóveis e móveis
- Direitos creditórios
- Ações judiciais e valores a receber
Isso inclui créditos tributários decorrentes de pagamento indevido.
Quando herdeiros podem pedir restituição do IR
Na prática, a restituição pode ser solicitada em diferentes situações.
Casos mais comuns
- Contribuinte com doença grave que continuou pagando IR indevidamente
- Erros de retenção na fonte sobre aposentadorias ou pensões
- Diferenças de cálculo não corrigidas em vida
Em todos esses cenários, o valor pago a mais se transforma em crédito transmissível ao espólio.
É necessário pedido administrativo antes da ação judicial?
A resposta, segundo os tribunais superiores, é não.
Posição consolidada
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O STF já decidiu que não é exigido:
- Pedido prévio à Receita Federal
- Esgotamento da via administrativa
- Qualquer condição prévia para ajuizar ação
Isso reforça o princípio constitucional do acesso à Justiça, previsto na Constituição Federal.
Como funciona a ação de restituição por herdeiros
Na prática, a ação pode ser ajuizada:
- Pelo espólio, representado pelo inventariante
- Ou diretamente pelos herdeiros, conforme o estágio do inventário
O que precisa ser comprovado
- Pagamento indevido do imposto
- Condição que gerou a isenção (como moléstia grave)
- Documentação fiscal e médica
- Relação sucessória com o falecido
Principais pontos que a Justiça já pacificou
A consolidação da jurisprudência trouxe maior previsibilidade para casos semelhantes.
Entendimentos firmes
- Restituição de IR é direito patrimonial
- Pode ser transmitida aos herdeiros
- Não exige pedido administrativo prévio
- Pode ser discutida diretamente no Judiciário
Esse conjunto de decisões reduz conflitos e evita interpretações restritivas que impediriam o acesso dos herdeiros a valores legítimos.
Impactos práticos para famílias e inventários
A consolidação desse entendimento tem efeitos diretos em processos de inventário no Brasil.
Na prática, isso significa:
- Possibilidade de recuperar valores significativos pagos indevidamente
- Aumento do patrimônio a ser partilhado
- Necessidade de análise fiscal detalhada no inventário
Em muitos casos, famílias descobrem que há valores a receber apenas durante a partilha de bens.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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