O Brasil vive um cenário aparentemente contraditório em 2026. De um lado, a taxa de desemprego atingiu 5,8% em fevereiro — o menor nível já registrado para o período, segundo o IBGE. De outro, os gastos com seguro-desemprego continuam em alta, pressionando as contas públicas.
Essa dinâmica chama atenção porque, em teoria, menos desemprego deveria significar menor demanda pelo benefício. No entanto, fatores estruturais do mercado de trabalho ajudam a explicar por que o número de beneficiários e os valores pagos seguem crescendo.
Expansão do emprego formal amplia base do benefício
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O principal fator por trás da alta do seguro-desemprego é o crescimento do emprego com carteira assinada. Entre 2021 e 2025, o Brasil criou cerca de 5,8 milhões de novos vínculos formais.
Como o seguro-desemprego é um direito restrito a trabalhadores formais, essa expansão aumenta automaticamente o número potencial de pessoas aptas a receber o benefício.
Como funciona?
- Mais trabalhadores com carteira assinada
- Maior número absoluto de demissões (mesmo com taxa estável)
- Aumento proporcional de pedidos de seguro-desemprego
Esse efeito é considerado “matemático” por especialistas: mesmo que o mercado esteja aquecido, o crescimento da base formal amplia o volume total de beneficiários.
Número de beneficiários cresce de forma consistente
Após atingir um mínimo de cerca de 444 mil beneficiários em julho de 2021, o seguro-desemprego voltou a crescer gradualmente.
Em 2025, o número já se aproximava de 560 mil pessoas atendidas, com predominância de:
- Trabalhadores com ensino médio completo
- Renda entre um e três salários mínimos
- Atuação no setor de serviços
Esse perfil reflete a estrutura do mercado de trabalho brasileiro, que ainda concentra grande parte dos empregos formais em atividades de menor qualificação.
Salários mais altos elevam o custo do benefício
Outro fator decisivo para o aumento dos gastos é a valorização salarial. Entre dezembro de 2021 e dezembro de 2025, os salários do setor privado tiveram ganho real de 8,7%.
Como o valor do seguro-desemprego é calculado com base na média salarial do trabalhador, esse aumento impacta diretamente o custo do programa.
Evolução do valor médio do benefício
| Período | Valor médio |
|---|---|
| Dez/2021 | R$ 1.663 |
| Dez/2025 | R$ 1.843 |
| Fev/2026 | R$ 1.945,63 |
O crescimento acumulado supera a inflação, indicando que o aumento real da renda elevou o chamado “ticket médio” do benefício.
Demissões aumentam, mas rotatividade permanece estável
Embora o número absoluto de demissões tenha crescido, isso não significa deterioração do mercado de trabalho.
A taxa de rotatividade — proporção entre desligamentos e total de empregos formais — permanece estável entre 23% e 24%, dentro do padrão histórico.
O que explica?
- Expansão do número total de empregos formais
- Ajustes naturais após o período pós-pandemia
- Maior mobilidade no mercado de trabalho
Além disso, também houve aumento nos pedidos de demissão voluntária — um sinal típico de mercado aquecido. Esses trabalhadores, porém, não têm direito ao seguro-desemprego.
Impacto direto nas contas públicas
Na prática, porém, o sistema não é totalmente autossuficiente. Quando os gastos superam a arrecadação, o Tesouro Nacional precisa cobrir a diferença.
Em 2025, as despesas com o benefício chegaram a cerca de R$ 49 bilhões — um aumento de 31% em relação a 2021.
Consequências fiscais
- Necessidade de aportes do Tesouro
- Redução de espaço no orçamento público
- Pressão indireta sobre outras políticas públicas
Embora o seguro-desemprego tenha fonte própria, seu crescimento impacta o equilíbrio fiscal do país como um todo.
Inatividade ainda é ponto de atenção
Apesar da baixa taxa de desemprego, o Brasil ainda enfrenta níveis elevados de inatividade — pessoas que não estão trabalhando nem procurando emprego.
Esse grupo não entra nas estatísticas tradicionais de desemprego, mas influencia a leitura real do mercado de trabalho.
Isso significa que o cenário positivo deve ser analisado com cautela, já que parte da população permanece fora da força de trabalho.
O que esperar?
A tendência para o seguro-desemprego dependerá de três fatores principais:
1. Ritmo de geração de empregos formais
Se o mercado continuar criando vagas com carteira assinada, a base de beneficiários seguirá elevada.
2. Evolução dos salários
Ganhos reais aumentam o valor médio do benefício e ampliam o impacto fiscal.
3. Políticas públicas e ajustes fiscais
Mudanças nas regras ou no financiamento do FAT podem alterar o comportamento dos gastos.
Considerações finais
O aumento dos gastos com seguro-desemprego, mesmo em um cenário de desemprego historicamente baixo, não é uma contradição — mas sim um reflexo da formalização do mercado de trabalho e da valorização salarial.
Esse movimento indica uma economia mais estruturada, com maior proteção social, mas também traz desafios fiscais importantes para o governo.
Entender essa dinâmica é essencial para avaliar o verdadeiro estado do mercado de trabalho brasileiro e os caminhos da política econômica nos próximos anos.
