A expectativa de uma queda mais rápida da Selic sofreu um novo revés. O banco francês BNP Paribas revisou suas projeções para a economia brasileira e passou a trabalhar com um cenário de juros mais elevados por mais tempo, refletindo uma atividade econômica mais forte do que o esperado e uma inflação que continua resistente.
A instituição aumentou suas estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), elevou as previsões para a inflação e revisou para cima a taxa básica de juros ao final de 2026. O movimento reforça uma percepção que tem ganhado força entre economistas: o Banco Central terá menos espaço para reduzir a Selic nos próximos meses.
Para consumidores, investidores e empresas, a mudança nas projeções ajuda a entender por que financiamentos continuam caros, por que a renda fixa segue atraente e por que a inflação ainda preocupa.
Leia mais:
Afinal, de que forma a Selic influencia as taxas de juros?
O que mudou nas projeções para a Selic?

O BNP Paribas elevou sua expectativa para a Selic ao final de 2026.
A previsão passou de 13,5% para 14% ao ano.
Embora a instituição ainda espere um corte de 0,25 ponto percentual em uma das próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), os economistas acreditam que o ciclo de redução dos juros deve ser interrompido logo em seguida.
Na prática, isso significa que a Selic poderá permanecer em níveis elevados durante boa parte de 2026.
Por que a Selic continua pressionada?
A principal razão está na combinação entre crescimento econômico mais forte e inflação acima do desejado.
Quando a economia cresce em ritmo acelerado, o consumo aumenta. Isso tende a impulsionar a demanda por produtos e serviços, o que pode gerar novas pressões sobre os preços.
Como a principal função da Selic é ajudar a controlar a inflação, o Banco Central costuma agir com cautela diante desse cenário.
Economia surpreende positivamente
Os dados mais recentes mostraram que a atividade econômica continua aquecida.
O PIB brasileiro cresceu no primeiro trimestre de 2026, impulsionado principalmente pelo consumo das famílias.
Segundo os economistas do BNP Paribas, a economia brasileira tem demonstrado uma resiliência superior à prevista anteriormente.
O mercado de trabalho segue gerando empregos, enquanto a renda dos trabalhadores continua avançando, ainda que em ritmo mais moderado.
Medidas do governo ajudam a impulsionar o consumo
Outro fator citado pelo banco é o impacto das políticas de estímulo adotadas pelo governo federal.
Diversas medidas anunciadas recentemente devem aumentar a renda disponível das famílias e facilitar o acesso ao crédito.
Entre elas estão:
- Ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda;
- Programas habitacionais;
- Linhas de crédito para reforma de imóveis;
- Renegociação de dívidas;
- Financiamentos para empresas.
Segundo os cálculos da instituição, o conjunto dessas iniciativas representa um estímulo equivalente a cerca de 1,3% do PIB.
Consumo das famílias deve crescer mais
Diante desse cenário, o BNP Paribas elevou sua projeção para o consumo das famílias em 2026.
A expectativa passou de 1,3% para 2,1%.
Esse aumento do consumo ajuda a sustentar o crescimento econômico, mas também dificulta uma desaceleração mais rápida da inflação.
Inflação continua acima do esperado
Se a atividade econômica traz boas notícias para o crescimento do país, o mesmo não pode ser dito da inflação.
Os economistas apontam que os índices de preços continuam surpreendendo negativamente.
Entre os principais fatores estão:
Alimentos mais caros
Os preços dos alimentos seguem pressionados por fatores climáticos e por custos globais maiores.
Além disso, as tensões geopolíticas internacionais e a volatilidade das commodities contribuem para elevar despesas relacionadas à produção agrícola.
O BNP Paribas revisou sua projeção para a inflação dos alimentos consumidos em casa para 8,5% em 2026.
Serviços seguem pressionados
O mercado de trabalho aquecido também mantém a inflação de serviços em patamares elevados.
Com mais pessoas empregadas e renda maior circulando na economia, setores como alimentação fora do lar, transporte e serviços pessoais tendem a registrar reajustes frequentes.
El Niño pode aumentar pressão sobre os preços
Outro fator de preocupação citado pelo banco é o risco climático.
Os modelos meteorológicos passaram a indicar uma probabilidade maior de ocorrência de um fenômeno El Niño forte entre o final de 2026 e o início de 2027.
Caso o cenário se confirme, algumas das principais regiões produtoras do país podem enfrentar:
- Secas prolongadas;
- Mudanças no regime de chuvas;
- Queda na produtividade agrícola;
- Pressão adicional sobre os alimentos.
Regiões podem ser diretamente afetadas
As projeções indicam possíveis impactos em áreas importantes para a produção agrícola brasileira, incluindo:
- MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia);
- Região Norte;
- Estados do Sul do Brasil.
Essas alterações climáticas podem afetar a oferta de alimentos e contribuir para manter a inflação elevada.
Qual é a nova projeção para o IPCA?
O banco também revisou para cima suas estimativas para a inflação oficial do país.
As novas projeções indicam:
- IPCA de 5,6% em 2026;
- IPCA de 4,6% em 2027.
Os números permanecem acima da meta perseguida pelo Banco Central, o que ajuda a justificar uma política monetária mais conservadora.
Como a Selic afeta a vida dos brasileiros?
A Selic influencia praticamente todos os aspectos da economia.
Crédito e financiamentos
Quando os juros permanecem elevados:
- Financiamentos imobiliários ficam mais caros;
- Empréstimos pessoais custam mais;
- Parcelamentos têm juros maiores;
- Empresas enfrentam crédito mais caro.
Investimentos
Por outro lado, aplicações de renda fixa tendem a se beneficiar.
Produtos como:
- Tesouro Selic;
- CDBs;
- LCIs;
- LCAs;
- Fundos DI;
costumam oferecer rentabilidades mais atrativas em cenários de juros elevados.
O que esperar das próximas decisões do Copom?

A palavra-chave para os próximos meses é cautela.
Embora ainda exista expectativa de algum ajuste pontual na Selic, o cenário desenhado por grandes instituições financeiras indica que o Banco Central deverá agir com prudência para evitar uma desancoragem das expectativas de inflação.
A combinação de crescimento econômico resiliente, mercado de trabalho aquecido, estímulos fiscais e riscos climáticos reduz significativamente o espaço para cortes agressivos dos juros.
Para consumidores e investidores, isso significa que a Selic deve continuar sendo uma das protagonistas da economia brasileira ao longo de 2026, influenciando desde o custo do crédito até o rendimento das aplicações financeiras.
