Com a Selic mantida em 15% ao ano, o setor imobiliário brasileiro vem enfrentando um dos contextos mais desafiadores dos últimos tempos. O encarecimento do crédito imobiliário, consequência direta da política monetária do Banco Central, tem afetado o poder de compra da população e exigido respostas rápidas e criativas das incorporadoras.
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Com a Selic a 15%, o setor imobiliário adota estratégias flexíveis para manter as vendas e contornar o crédito caro que afeta compradores.
Segundo o Banco Central, a taxa básica de juros passou por sucessivos aumentos desde julho do ano passado, quando ainda estava em 10,50% ao ano. Nesta semana, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu manter a taxa em 15%, o maior patamar desde 2006.
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Estratégias de adaptação ganham força

Para não perder ritmo de vendas, o setor imobiliário tem se reinventado. Segundo pesquisa da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), em parceria com a Fipe, o mercado registrou crescimento de 11,8% nas vendas de imóveis novos no ano passado, comparado a 2023.
O destaque ficou com os imóveis de médio e alto padrão, com aumento de 23,8% nas vendas. Já os lançamentos cresceram 42%, mostrando que o setor imobiliário continua reagindo, mesmo em um cenário desafiador.
Campo Grande reflete resiliência do setor imobiliário
Na capital sul-mato-grossense, algumas incorporadoras têm se destacado pela forma como vêm lidando com os desafios da Selic alta. A Jooy, por exemplo, mantém quatro lançamentos em exibição no site e seis empreendimentos em construção.
Segundo o CEO da empresa, Sebastião Longuinho, a chave está na personalização e na leitura de mercado.
“Os juros mais altos naturalmente geram mais cautela, principalmente entre clientes mais sensíveis ao crédito. Mas reforçamos nossa estratégia com alternativas de pagamento que driblam esse efeito. O setor imobiliário precisa manter a confiança do comprador”, explicou.
Inovação e dados para driblar o cenário
A Jooy, como outras empresas do setor imobiliário, investiu fortemente em tecnologia e dados para refinar seu modelo de negócios. O CEO relatou ajustes importantes nos formatos de entrada, nas parcerias com bancos e na inteligência de mercado.
“Fortalecemos parcerias com instituições financeiras, ajustamos nossos modelos de entrada e ampliamos o uso de dados para entender o comportamento do cliente”, disse Longuinho.
Incorporadoras elevam o valor pago antes da entrega
A Plaenge, outra incorporadora atuante em Campo Grande, aumentou o percentual do valor que o comprador precisa quitar até a entrega das chaves — de 30% para até 50%. A medida busca compensar a dificuldade de repassar os contratos com financiamento bancário.
“A régua do banco está subindo, e o repasse está ficando mais difícil”, afirmou Alexandre Fabian, sócio-diretor da empresa.
Esse movimento é um reflexo da adaptação do setor imobiliário às novas condições do mercado.
Financiamento próprio como alternativa

Com mais de 60 anos de atuação, a Financial Imobiliária adotou uma estratégia diferenciada: abandonar o modelo tradicional de crédito bancário e apostar no financiamento direto ao cliente. O diretor Tiago Nantes explicou que essa tática foi lapidada ao longo de décadas.
“Começamos vendendo à vista. Depois passamos para 36, 60, 100 meses. Hoje já trabalhamos com 180 e até 200 meses, sempre com reajuste apenas pela inflação”, afirmou.
Segundo ele, isso reduz os impactos diretos da Selic sobre o financiamento, ainda que não elimine totalmente seus efeitos.
Selic alta pressiona custos da cadeia produtiva
Mesmo com financiamento próprio, o setor imobiliário não escapa dos reflexos da taxa Selic. A alta nos juros afeta o crédito de fornecedores e prestadores de serviço, elevando os custos de construção e impactando o preço final do imóvel.
“Quando a taxa está alta, nossos fornecedores também têm mais dificuldade de acesso ao crédito, o que encarece os materiais e a mão de obra”, explicou Nantes.
Inflação é fator de maior preocupação
Mais do que os juros altos, a inflação tem sido motivo de maior preocupação para algumas empresas do setor imobiliário. Isso porque a perda de poder de compra tende a aumentar a inadimplência.
“Com a inflação elevada, o cliente tem menor capacidade de pagamento. Isso pode gerar aumento da inadimplência, o que preocupa bastante”, afirmou Nantes.
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Setor imobiliário também observa aumento no aluguel
Com o crédito mais caro, muitas famílias estão adiando a compra da casa própria. Esse comportamento aquece o mercado de aluguel. A vice-presidente do Creci-MS, Simone Leal, confirma o aumento na procura por locações.
“As taxas mais elevadas reduzem o poder de compra e aumentam as parcelas. Por isso, muitos optam por alugar até que o cenário mude”, disse.
Esse efeito colateral da Selic alta tem impulsionado outro segmento do setor imobiliário: o aluguel residencial.
Aluguel residencial em alta em Campo Grande
Segundo o índice FipeZAP, o valor do aluguel residencial em Campo Grande subiu 0,42% em junho. No acumulado de 12 meses, a alta é de 10,85%. Entre os bairros com maior valorização está o Tiradentes, com aumento de 33,2%, atingindo R$ 34,20/m².
Outros bairros também apresentaram variações, como:
- São Francisco: R$ 35,40/m² (+5,4%)
- Jardim dos Estados: R$ 91,00/m² (estável)
- Pioneiros: R$ 31,60/m² (queda de 5,5%)
- Centro: R$ 29,30/m² (sem variação)
- Rita Vieira: R$ 26,90/m² (estável)
Esse cenário confirma a movimentação no setor imobiliário mesmo com juros altos.
Expectativas para o segundo semestre

Especialistas acreditam que o setor imobiliário continuará investindo em flexibilidade. A aposta em tecnologias, personalização, novos modelos de financiamento e adaptação às condições econômicas deverá continuar enquanto a Selic permanecer elevada.
Embora a manutenção da taxa de juros represente um desafio, o setor imobiliário brasileiro tem demonstrado capacidade de resiliência e adaptação.
Conclusão
Diante do atual cenário de juros elevados, o setor imobiliário brasileiro demonstra resiliência ao adotar estratégias inovadoras e mais flexíveis. Incorporadoras vêm ajustando seus modelos de financiamento, apostando em tecnologia e fortalecendo parcerias para manter o ritmo de vendas, mesmo com o crédito mais caro. Ao mesmo tempo, o mercado de locações se aquece, refletindo uma mudança no comportamento do consumidor. A capacidade de adaptação tem sido a chave para o setor se manter competitivo e relevante em meio aos desafios econômicos.
