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Sinais dos satélites Starlink preocupam cientistas e ameaçam telescópios terrestres

Satélites da Starlink emitem sinais indesejados e afetam telescópios que estudam o universo primitivo, segundo estudo australiano.

Bruna MachadoPor Bruna Machado5 min de leitura
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Um novo estudo conduzido por pesquisadores australianos revelou uma ameaça invisível à pesquisa científica espacial: satélites da rede Starlink, criada por Elon Musk, estão emitindo sinais de rádio indesejados que afetam diretamente telescópios responsáveis por observar o universo em seus momentos mais antigos.

As emissões, embora involuntárias, podem comprometer a qualidade dos dados coletados em experimentos de ponta, especialmente aqueles que buscam sinais extremamente fracos vindos do nascimento do cosmos.

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Imagem: Freepik e Canva

Os satélites da Starlink foram projetados para oferecer conexão à internet em regiões remotas por meio de uma rede global de equipamentos em órbita baixa da Terra. Porém, o novo estudo mostra que esses dispositivos também emitem ondas de rádio que não fazem parte do sinal de internet transmitido aos usuários.

Essas ondas, chamadas de emissões espúrias, estão vazando de circuitos internos dos satélites e ocorrem justamente em frequências que são reservadas exclusivamente para uso científico, conforme diretrizes da União Internacional de Telecomunicações (UIT). A intensidade desses vazamentos é particularmente alarmante: cerca de 10 mil vezes maior do que os sinais que os astrônomos buscam detectar.

Impacto direto em telescópios de próxima geração

A descoberta preocupa especialmente os cientistas envolvidos com o projeto SKA-Low (Square Kilometre Array – Low Frequency Array), um dos maiores projetos de radioastronomia em desenvolvimento no mundo.

Instalado na Austrália, o telescópio é projetado para captar sinais deixados por nuvens de hidrogênio que existiam há mais de 13 bilhões de anos, antes da formação das primeiras estrelas e galáxias.

De acordo com os pesquisadores, até um terço das observações em determinadas faixas de frequência pode ser corrompido por esses ruídos. Isso dificulta significativamente a missão de estudar o chamado “universo escuro”, uma era misteriosa e pouco compreendida da história cósmica.

O que torna esse tipo de interferência tão difícil de mitigar?

Ao contrário das interferências provocadas por feixes ativos de internet, que a SpaceX já aprendeu a desligar em determinados horários ou trajetórias, essas novas emissões vêm de componentes internos dos satélites. São como “sinais fantasmas” emitidos mesmo quando os sistemas estão em modo de espera.

Essas emissões não intencionais são parecidas com ruídos de eletrodomésticos que, mesmo desligados, podem interferir em rádios sensíveis. Como resultado, medidas convencionais de controle não são eficazes nesse caso.

Limitações nas normas internacionais

Embora as frequências em questão sejam protegidas por normas internacionais para uso científico, as emissões espúrias ainda não são reguladas de maneira rígida.

Isso significa que, tecnicamente, os satélites não estão violando regras existentes, o que expõe uma lacuna regulatória cada vez mais evidente diante da expansão das chamadas megaconstelações de satélites.

Com a previsão de que a constelação Starlink atinja dezenas de milhares de unidades, o risco para a radioastronomia se multiplica. O debate sobre a criação de novas regras para limitar essas emissões involuntárias já está sendo reaberto entre entidades científicas e reguladores globais.

Possíveis soluções técnicas e os desafios envolvidos

Os pesquisadores sugerem duas abordagens principais para lidar com o problema:

  1. Redesenho dos satélites
    Uma das soluções seria modificar a engenharia dos satélites para que suas estruturas internas sejam melhor blindadas contra vazamentos de sinal. Isso, no entanto, demandaria novos investimentos da SpaceX e testes adicionais, o que pode impactar o ritmo de expansão da Starlink.
  2. Limpeza dos dados nos telescópios
    Outra possibilidade seria aplicar algoritmos de filtragem avançados nos dados obtidos pelos telescópios. No entanto, os cientistas alertam que esse processo exige um poder de processamento extremamente elevado — maior até do que o necessário para analisar os próprios sinais cósmicos.

Ou seja, embora as soluções sejam tecnicamente possíveis, elas envolvem custos e limitações significativas tanto para as empresas quanto para os centros de pesquisa.

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Starlink reage e abre diálogo com a comunidade científica

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Imagem: Freepik e Canva

Após a divulgação do estudo, os cientistas compartilharam seus achados com representantes da SpaceX. Segundo os autores, a empresa demonstrou abertura para analisar o problema e buscar formas de mitigar os efeitos.

Vale lembrar que não é a primeira vez que a Starlink coopera com astrônomos. Em anos anteriores, a empresa já ajustou o brilho de seus satélites para reduzir a poluição visual nas observações ópticas do céu noturno. Desta vez, o desafio é mais técnico e exige soluções que vão além do controle de antenas ou rotas de transmissão.

O avanço das megaconstelações e o futuro da pesquisa astronômica

A questão levantada pelo estudo australiano é apenas uma entre diversas preocupações envolvendo as megaconstelações de satélites. Com projetos similares sendo desenvolvidos por empresas como Amazon (Projeto Kuiper), OneWeb e outras, o céu noturno está se tornando cada vez mais povoado por artefatos artificiais.

Além da interferência em telescópios de rádio, essas constelações também impactam observatórios ópticos, alteram padrões de tráfego espacial e geram riscos de colisões em órbita.

Do ponto de vista científico, o momento é crítico. As tecnologias que permitem o estudo dos primórdios do universo nunca estiveram tão avançadas, mas sua eficácia pode ser limitada justamente por inovações comerciais que não foram projetadas pensando na compatibilidade com a ciência.

O desafio da convivência entre tecnologia e ciência

A coexistência entre redes de comunicação por satélite e a radioastronomia é possível, mas requer planejamento, diálogo e regulamentação eficaz. Especialistas alertam que, sem ações coordenadas, o progresso científico pode ser freado por ruídos invisíveis.

Enquanto empresas como a SpaceX continuam expandindo suas redes para conectar o mundo, cientistas pedem que essa conectividade não custe a perda da capacidade de investigar as origens do próprio universo.

A decisão agora está nas mãos da comunidade internacional: adaptar as regras, incentivar o desenvolvimento tecnológico mais responsável e garantir que o avanço de um setor não signifique o retrocesso de outro.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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