A indústria de investimentos alternativos focada em empresas em dificuldades financeiras, conhecida no mercado como “special situations” ou simplesmente special sits, vive um momento de transformação e crescimento no Brasil. Após dois anos marcados pela proliferação de casas especializadas, o setor passa agora por um processo de consolidação, ao mesmo tempo em que grandes bancos passam a disputar espaço nesse nicho antes dominado por gestoras independentes.
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Mercado de special sits cresce no Brasil com grandes bancos e gestoras em meio a juros altos e demanda por crédito alternativo.
Impulsionado por um cenário macroeconômico adverso — com juros elevados, crédito bancário mais restrito e aumento de casos de inadimplência corporativa —, o mercado de special sits está se tornando um instrumento relevante de financiamento para empresas em estresse financeiro, reestruturação ou buscando soluções fora dos modelos tradicionais.
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O que são os special sits?
O termo “special sits”, abreviação de special situations, se refere a operações financeiras estruturadas voltadas para empresas que enfrentam dificuldades, seja por questões operacionais, excesso de dívida, crise de governança ou contextos macroeconômicos desfavoráveis.
Características principais dos special sits:
- Investimentos em empresas com risco elevado, mas com potencial de recuperação.
- Crédito estruturado, muitas vezes com garantias reais, participação acionária ou governança compartilhada.
- Operações conhecidas como distressed credit, debt-to-equity, post-M&A, entre outras.
- Prazo médio mais longo e retorno potencialmente acima da média.
- Adoção de práticas jurídicas e contábeis sofisticadas, com foco em reestruturação de passivos e turnaround.
Esse tipo de operação exige alta especialização da equipe gestora e rede de relacionamento jurídico e corporativo, o que tradicionalmente afastava os grandes bancos do setor — até agora.
Entrada de grandes bancos muda o perfil do mercado
Tradicionalmente, os special sits no Brasil eram dominados por gestoras independentes, como Jive Investments, Starboard, Prisma Capital, Quadra Capital e G5 Partners. Essas casas se especializaram em reestruturação, recuperação judicial e créditos em disputa, atuando em casos emblemáticos como Oi, Saraiva e Livraria Cultura.
No entanto, nos últimos meses, bancos como Itaú, BTG Pactual e Bradesco têm estruturado braços dedicados a esse tipo de investimento. A entrada dessas instituições marca um novo capítulo para o segmento, com maior acesso a capital e possibilidade de oferecer soluções híbridas entre crédito e participação societária.
Motivações dos bancos:
- Busca por retornos acima do CDI, em um ambiente de compressão de margens.
- Expansão das operações de private credit e ativos ilíquidos.
- Aproveitamento da base de clientes corporativos em dificuldades.
- Diversificação frente à concorrência das fintechs e dos FIDCs.
Essa mudança representa uma institucionalização do mercado de special sits, ao mesmo tempo em que pressiona as gestoras menores a buscarem escala, fusões ou venda de carteiras.
Consolidação das gestoras independentes
A pressão competitiva e os desafios de captação em um ambiente de juros altos têm acelerado a consolidação entre gestoras de menor porte. Muitas delas enfrentam dificuldade para levantar fundos com investidores institucionais, que se mostram mais conservadores e sensíveis ao risco em tempos de Selic elevada.
Tendências observadas:
- Fusões entre gestoras complementares, com objetivo de ganhar escala e musculatura para captar com family offices e institucionais.
- Venda de carteiras inadimplentes para fundos mais robustos ou com funding estrangeiro.
- Criação de plataformas de co-investimento com bancos ou players estrangeiros.
- Foco em nichos específicos, como varejo em recuperação judicial ou incorporações com passivos fiscais.
Segundo executivos do setor, esse movimento tende a profissionalizar ainda mais o mercado e a elevar o nível técnico das operações, com ganhos de governança, compliance e prestação de contas.
Juros altos tornam crédito bancário mais seletivo

O ciclo prolongado de taxas de juros elevadas no Brasil, iniciado em 2021, tornou o crédito bancário mais caro e restrito. Pequenas e médias empresas, especialmente as que enfrentam desequilíbrio financeiro, passaram a ter dificuldade de acesso a capital tradicional.
Nesse contexto, os special sits surgem como uma alternativa de financiamento sob medida, combinando:
- Flexibilidade nos prazos
- Modelagem jurídica personalizada
- Possibilidade de reestruturação de passivos
- Em alguns casos, entrada como sócio para apoiar a retomada da operação
Essas operações têm se mostrado particularmente eficazes para setores com ativos físicos relevantes, como varejo, agronegócio, imobiliário e logística.
O perfil do investidor em special sits
Os fundos de special sits atraem um perfil de investidor mais sofisticado, com alta tolerância a risco e visão de longo prazo. Entre os principais aplicadores estão:
- Family offices que buscam diversificação patrimonial
- Investidores institucionais com mandatos de retorno absoluto
- Fundos de pensão interessados em ativos ilíquidos
- Investidores estrangeiros com apetite por emergentes
Apesar do risco elevado, os retornos também são expressivos. Em média, gestoras do segmento buscam retornos anuais entre 20% e 30%, com base no sucesso da reestruturação ou recuperação do ativo.
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Desafios do setor em 2025
Embora o setor esteja em expansão, ele também enfrenta desafios significativos:
1. Risco jurídico e regulatório
Muitas operações envolvem processos de recuperação judicial, disputas tributárias ou conflitos societários. Isso exige conhecimento jurídico profundo e eleva o tempo de maturação dos investimentos.
2. Baixa previsibilidade
Diferente do crédito tradicional, os special sits não têm fluxo de caixa regular, o que complica a precificação e a estrutura de distribuição para o varejo.
3. Desvalorização dos ativos de garantia
Em períodos de estresse econômico, os ativos dados em garantia podem perder valor, afetando o retorno da operação.
4. Concorrência com fundos internacionais
Gestoras globais com acesso a capital em dólar e experiência em distressed assets podem disputar os mesmos ativos, elevando os preços e reduzindo margens.
Projeções para os próximos anos

A expectativa é que o mercado de special sits no Brasil continue a se expandir nos próximos dois a três anos, acompanhando:
- A continuidade de juros altos e inadimplência empresarial
- O avanço da regulação do mercado de crédito privado
- A entrada de investidores estrangeiros por meio de fundos estruturados
- O uso de inteligência artificial e análise de dados para precificação de risco
Empresas brasileiras que estiverem enfrentando dificuldades operacionais ou financeiras, mas com ativos valiosos ou capacidade de recuperação, devem continuar sendo alvo de fundos especializados.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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