O setor de inteligência artificial está na vanguarda da inovação, mas também na linha de frente de um polêmico modelo de gestão do tempo: o chamado regime 9-9-6. Inspirado por práticas laborais chinesas, o termo refere-se a jornadas de trabalho que vão das 9h às 21h, seis dias por semana — totalizando 72 horas semanais.
9-9-6: o intenso regime de trabalho que está ganhando espaço nas startups de IA
Descubra o impacto do modelo 9-9-6 nas startups de IA. Saiba por que ele é alvo de críticas e o que a Geração Z propõe.
Esse padrão, cada vez mais comum em startups de IA, tem sido associado ao aumento da produtividade em curto prazo. No entanto, especialistas, pesquisadores e até jovens profissionais da Geração Z têm questionado sua eficácia e, sobretudo, seus impactos sobre a saúde física e mental.
Leia mais:
Esta IA promete tornar a previsão do tempo mais acessível e precisa para todos; saiba como
O que é o regime 9-9-6?

Origem e propagação do modelo
O regime 9-9-6 se consolidou inicialmente em empresas de tecnologia chinesas, como Alibaba e Huawei, mas ganhou notoriedade global com o apoio público de grandes empresários como Jack Ma, fundador do Alibaba, que o classificou como “uma bênção”.
Nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, figuras como Elon Musk e Tim Cook também são conhecidos por manter rotinas extremas. Musk, por exemplo, já afirmou trabalhar até 120 horas por semana e elogiou funcionários chineses por “virarem a madrugada até as 3h da manhã”.
Adoção pelas startups de IA
A pressão por inovação e resultados rápidos no setor de IA tem levado muitas startups a aderirem ao 9-9-6 como uma espécie de cultura organizacional. A expectativa é de que longas jornadas aumentem a produtividade e acelerem entregas.
No entanto, essa lógica vem sendo confrontada por um volume crescente de pesquisas que apontam o contrário.
Impactos do excesso de trabalho: o custo da produtividade forçada
Exaustão e burnout
Caitlin Collins, psicóloga organizacional e diretora de estratégia da Betterworks, alerta que jornadas intensas levam ao burnout, à fadiga cognitiva e ao desengajamento — exatamente os fatores que comprometem a criatividade, peça-chave para empresas de tecnologia.
“A ideia de que trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana, impulsiona a inovação é profundamente equivocada”, afirma Collins.
Problemas de saúde física
Estudos científicos reforçam essa percepção. Uma pesquisa britânica revelou que trabalhadores que ultrapassam 11 horas diárias de trabalho têm 67% mais chances de sofrer um ataque cardíaco. Já aqueles que passam das 54 horas semanais correm risco aumentado de morte por excesso de trabalho — um fenômeno chamado de karoshi no Japão.
Cultura do tang ping: a resposta dos jovens ao 9-9-6
Movimento de resistência na China
Em resposta à cultura de exaustão, surgiu o movimento tang ping — expressão que pode ser traduzida como “deitar e relaxar”. Jovens chineses começaram a usar o termo para encorajar-se mutuamente a desacelerar, priorizando descanso e saúde mental em detrimento do sucesso profissional imediato.
Geração Z e a busca por equilíbrio
Fora da China, a Geração Z também tem reagido ao modelo 9-9-6. Jovens profissionais têm priorizado ambientes de trabalho mais flexíveis, saudáveis e alinhados com seus valores pessoais.
Christine Royston, diretora de marketing da Wrike, aponta que essa tendência reflete uma mudança estrutural na forma como o trabalho é percebido:
“A Geração Z está impulsionando a adoção de plataformas de colaboração mais inteligentes e flexíveis. Não se trata apenas de estilo de vida, mas de uma nova compreensão da produtividade.”
Seis mudanças propostas pela Geração Z
A nova geração de trabalhadores tem proposto transformações profundas na cultura corporativa. Entre as principais mudanças, destacam-se:
1. Saúde mental como prioridade
Mais do que um diferencial, o bem-estar emocional é visto como um elemento central para a performance e retenção de talentos.
2. Modelos de trabalho flexíveis
O home office, o trabalho híbrido e horários ajustáveis são valorizados por promoverem autonomia e integração entre vida pessoal e profissional.
3. Propósito acima do lucro
Trabalhos que se conectam com causas sociais ou ambientais ganham espaço entre os jovens.
4. Tecnologia a serviço do ser humano
Ferramentas digitais devem otimizar tarefas, mas também proteger limites e evitar sobrecarga.
5. Cultura de pausas
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Descansos regulares e respeito ao tempo pessoal são incentivados para manter o foco e a criatividade.
6. Lideranças mais humanas
Modelos hierárquicos rígidos dão lugar ao “conscious un-bossing”, ou liderança consciente, com base em empatia, diálogo e colaboração.
Por que o 9-9-6 ainda resiste?
Apesar das críticas e das evidências científicas contrárias, o modelo 9-9-6 ainda encontra espaço. Algumas explicações possíveis incluem:
Pressão por resultados
Startups em fase inicial precisam provar valor rapidamente para atrair investimentos, o que gera ambientes de alta pressão.
Cultura empreendedora de sacrifício
Muitos fundadores veem o excesso de trabalho como um rito de passagem, algo necessário para o sucesso.
Falta de regulação trabalhista
Em alguns países, especialmente nos setores de tecnologia, não há fiscalização adequada sobre jornadas abusivas.
Dilema das empresas de IA: inovação com humanidade

O grande desafio para o futuro próximo é encontrar o equilíbrio entre performance e humanidade. Empresas que insistirem no modelo 9-9-6 podem, a longo prazo, enfrentar altos índices de turnover, desmotivação e perda de talentos qualificados — especialmente entre os mais jovens.
Por outro lado, aquelas que abraçarem a flexibilidade, o respeito aos limites e o bem-estar dos colaboradores podem se destacar como pioneiras de uma nova era de inovação sustentável.
Considerações finais
O regime 9-9-6 pode parecer tentador em um ambiente de startups acelerado, mas especialistas, estudos e os próprios trabalhadores mostram que esse caminho leva à exaustão, não à excelência. A produtividade do futuro passa pela empatia, pela tecnologia bem utilizada e, acima de tudo, por uma relação mais equilibrada com o tempo.
Imagem: Freepik
Pode ser do seu interesse:
