A Sumitomo Chemical estabeleceu uma meta ambiciosa para o mercado brasileiro: dobrar de tamanho até 2030. Para chegar lá, a multinacional japonesa pretende combinar a expansão de seu portfólio tradicional de defensivos agrícolas com uma categoria que busca melhorar o funcionamento da própria planta — os chamados biorracionais.
Essa estratégia ganhou força com o lançamento do TopGrain, regulador de crescimento desenvolvido para soja e milho. Formulado com ácido abscísico, substância produzida naturalmente pelos vegetais, o produto atua na fase de enchimento dos grãos e promete ajudar as culturas a administrar melhor a água disponível.
Segundo dados divulgados pela companhia, o negócio brasileiro faturou R$ 4,1 bilhões em 2025 e deve crescer entre 7% e 8% em 2026. Os biorracionais já representam 18% das vendas e aproximadamente 25% do resultado da operação no país.
O avanço da categoria, entretanto, dependerá de um ponto decisivo para o agricultor: transformar os resultados obtidos em testes comerciais em ganhos consistentes dentro de lavouras submetidas a diferentes condições de solo, clima e manejo.
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O que são produtos biorracionais

Biorracional é uma denominação adotada pela Sumitomo Chemical para agrupar tecnologias desenvolvidas a partir de processos biológicos, compostos naturais ou mecanismos fisiológicos específicos.
O conceito é mais amplo do que a ideia tradicional de produto biológico. Ele pode incluir microrganismos, extratos botânicos, bioestimulantes, inoculantes, reguladores de crescimento e substâncias semelhantes às que a própria planta produz.
A Sumitomo divide esse portfólio em frentes relacionadas a:
- saúde e atividade biológica do solo;
- controle de pragas por meios biológicos;
- regulação do crescimento vegetal;
- melhoria do desenvolvimento das culturas;
- manejo fisiológico e enchimento de grãos.
De acordo com a definição institucional da companhia, os biorracionais são tecnologias derivadas de fontes naturais, como microrganismos e produtos botânicos, usadas de maneira direcionada dentro de um programa integrado de manejo. O portfólio internacional também inclui soluções para saúde pública, proteção de florestas e controle de pragas urbanas.
Na prática, a categoria não se limita a substituir um defensivo químico por outro produto. A proposta é atuar em processos específicos da planta ou do ambiente de cultivo.
Por que os biorracionais ganharam espaço no agronegócio
O crescimento dos bioinsumos está ligado à busca por maior produtividade sem depender apenas da expansão da área plantada. O Brasil ampliou fortemente sua produção agrícola nas últimas décadas, mas enfrenta limites ambientais, econômicos e logísticos para continuar incorporando terras no mesmo ritmo.
A alternativa passa a ser produzir mais em cada hectare, reduzir perdas e aumentar a estabilidade das lavouras. Isso se torna ainda mais importante diante de secas, ondas de calor e chuvas irregulares.
Os biorracionais entram nesse cenário como ferramentas complementares. Eles podem estimular raízes, favorecer a absorção de nutrientes, interferir no desenvolvimento vegetal ou contribuir para o controle de determinados organismos.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária inclui entre as aplicações dos insumos biológicos o controle de pragas, a promoção do crescimento e o suprimento de nutrientes. A própria Embrapa ressalta, porém, que cada tecnologia precisa ser avaliada conforme sua finalidade.
Isso significa que o termo “biológico” ou “natural” não garante resultado automático. Desempenho, dose, momento de aplicação, compatibilidade e condições ambientais continuam sendo determinantes.
O químico e o biorracional cumprem funções diferentes
A estratégia da Sumitomo não prevê abandonar fungicidas, herbicidas e inseticidas. A companhia apresenta os biorracionais como uma camada adicional do manejo.
Os defensivos tradicionais são utilizados para proteger a lavoura contra doenças, plantas daninhas e insetos. Já produtos voltados ao manejo fisiológico procuram melhorar a forma como a planta utiliza água, luz, nutrientes e energia.
Uma comparação possível é a manutenção de um veículo. Os defensivos evitam ou corrigem problemas que impedem o funcionamento, enquanto o manejo fisiológico procura melhorar o desempenho do motor. Uma função não necessariamente elimina a outra.
Como funciona o TopGrain na soja e no milho
O TopGrain é um regulador de crescimento em grânulos solúveis em água, indicado pela Sumitomo para soja e milho. Sua formulação contém ácido abscísico e outros ingredientes.
O ácido abscísico, também conhecido pela sigla ABA, é um hormônio vegetal produzido naturalmente em diferentes partes das plantas. Uma de suas funções mais conhecidas está relacionada à resposta ao déficit hídrico.
Quando a planta percebe a redução da disponibilidade de água, o nível de ABA pode aumentar e estimular o fechamento dos estômatos. Essas pequenas estruturas localizadas principalmente nas folhas controlam as trocas gasosas e a saída de vapor de água.
Ao fechar os estômatos, a planta reduz a transpiração e conserva água. Existe, contudo, um equilíbrio delicado: os estômatos também permitem a entrada de dióxido de carbono, necessário para a fotossíntese.
Materiais técnicos da Embrapa descrevem o ABA como um dos agentes associados ao fechamento estomático durante períodos de deficiência hídrica.
Segundo a Sumitomo, o TopGrain foi desenvolvido para atuar nesse processo fisiológico e contribuir para a estabilidade da planta durante o enchimento dos grãos. A fabricante também atribui à tecnologia efeitos sobre a uniformidade e a translocação de açúcares para as estruturas reprodutivas.
O produto consta no portfólio oficial da Sumitomo Chemical como regulador de crescimento voltado à produtividade e ao enchimento de grãos em soja e milho.
Por que a fase de enchimento é decisiva
O enchimento ocorre quando os compostos produzidos pela planta são direcionados para os grãos. É nessa etapa que se define grande parte de seu peso final.
Calor excessivo, falta de água, doenças e problemas nutricionais podem reduzir o transporte de açúcares e limitar o peso dos grãos. Mesmo uma lavoura com boa formação inicial pode perder produtividade se enfrentar estresse nesse período.
A lógica do TopGrain é fornecer suporte fisiológico justamente nessa janela. A aplicação, entretanto, deve respeitar a dose, o estágio da cultura e as orientações presentes na bula e na receita agronômica.
Quanto o TopGrain pode aumentar a produtividade
A Sumitomo informa que os ganhos podem chegar a três sacas por hectare na soja e sete sacas por hectare no milho. Esses números representam o desempenho potencial divulgado pela fabricante, e não uma garantia para todas as lavouras.
Segundo os executivos da companhia, o custo do tratamento da soja deve ficar abaixo do valor de uma saca por hectare. No milho, o custo foi estimado em pouco mais de uma saca.
Em uma situação hipotética, uma propriedade com 500 hectares de soja teria acréscimo bruto de 1.500 sacas se alcançasse o ganho máximo divulgado. Para calcular o resultado financeiro real, o produtor precisaria descontar o preço do produto, a aplicação, eventuais custos operacionais e os impostos.
A conta também depende da cotação da soja no momento da venda. Um aumento de produtividade pode ser tecnicamente relevante, mas ter retorno financeiro menor em uma safra com preços baixos.
Antes de adotar o produto em toda a área, uma prática consolidada é montar faixas comparativas na própria fazenda. O produtor pode aplicar a tecnologia em uma parcela e manter outra, com características semelhantes, sem o tratamento.
Para a comparação ser confiável, é importante registrar:
- cultivar utilizada;
- data e dose da aplicação;
- fertilidade e características do solo;
- volume de chuva;
- temperatura;
- pressão de pragas e doenças;
- produtividade corrigida pela umidade;
- custo total por hectare.
O acompanhamento de um engenheiro agrônomo é essencial para interpretar o resultado e evitar que diferenças de solo ou manejo sejam atribuídas indevidamente ao produto.
Por que o Brasil é estratégico para a Sumitomo Chemical
O Brasil responde por aproximadamente 76% das vendas de biorracionais da Sumitomo Chemical na América Latina. A categoria teria crescido 14% no país em 2024 e 17% em 2025, conforme números apresentados pela empresa.
Ainda assim, os executivos estimam que essas tecnologias estejam presentes em cerca de 10% da área tratada com produtos de proteção de cultivos. Essa diferença entre crescimento e baixa penetração ajuda a explicar o potencial enxergado pela multinacional.
Estados Unidos e países europeus possuem mercados mais estabelecidos, mas avançam em ritmo menor. No Brasil, a combinação de área agrícola extensa, duas ou mais safras anuais em algumas regiões e maior exposição a condições tropicais cria espaço para diferentes ferramentas de manejo.
Outro indicador valorizado pela companhia é a taxa de recompra. Quando o agricultor utiliza novamente uma tecnologia na safra seguinte, a empresa entende que ela começou a fazer parte do manejo, em vez de permanecer apenas como teste.
Para dobrar a operação até 2030, a Sumitomo precisará conquistar novos produtores e manter aqueles que já experimentaram seus produtos. A expansão dependerá, portanto, não apenas de lançamentos, mas da repetição dos resultados em escala comercial.
Uma estratégia construída ao longo de décadas
Embora a denominação biorracional tenha recebido maior destaque recentemente, a Sumitomo atua nesse campo há mais de 60 anos.
Em 2000, a companhia ampliou sua presença ao adquirir negócios agrícolas e de saúde pública da Abbott. A operação incorporou tecnologias como o ProGibb, regulador de crescimento lançado originalmente em 1962, e o DiPel, bioinseticida comercializado desde a década de 1970.
Em outubro de 2025, o grupo anunciou a unificação da Sumitomo Biorational, da Valent BioSciences, da MGK e da Valent North America em uma nova estrutura. A Sumitomo BioRational Company iniciou oficialmente suas atividades em abril de 2026, com sede em Libertyville, nos Estados Unidos.
O centro reúne pesquisa, desenvolvimento, fabricação e comercialização de produtos de origem microbiológica, botânica e fisiológica. A criação da nova empresa mostra que os biorracionais deixaram de ser apenas uma linha dentro do portfólio e ganharam uma estrutura global própria.
A Sumitomo BioRational Company afirma que a integração pretende acelerar o desenvolvimento e a chegada de novas tecnologias ao mercado.
Quais culturas já utilizam o portfólio biorracional
O TopGrain começa concentrado em soja e milho, mas a atuação da empresa no Brasil é mais ampla. O portfólio inclui soluções para:
- arroz;
- cana-de-açúcar;
- algodão;
- maçã;
- uva;
- soja;
- milho;
- tratamento de sementes;
- saúde do solo.
Entre os exemplos estão reguladores de crescimento, bioinseticidas baseados em microrganismos e inoculantes com fungos micorrízicos. Esses fungos podem estabelecer associação com as raízes e ampliar o acesso da planta a água e nutrientes.
A companhia também prepara uma solução para pastagens. Esse mercado é relevante no Brasil porque abrange áreas extensas e enfrenta desafios ligados à degradação do solo, produtividade da forragem e variações climáticas.
Quais cuidados o agricultor deve ter antes da aplicação
Mesmo quando uma substância está presente naturalmente na planta, o produto comercial deve ser utilizado de acordo com a bula. Concentração, formulação e momento de aplicação alteram seu efeito.
O agricultor deve verificar:
- se o produto está autorizado para a cultura;
- qual é a dose recomendada;
- em que estágio a aplicação deve ocorrer;
- quais produtos podem ser misturados no tanque;
- quais equipamentos de proteção individual são exigidos;
- se há restrições ambientais ou operacionais;
- como armazenar e descartar a embalagem.
A Sumitomo informa que o TopGrain possui alta compatibilidade com outros produtos e pode ser incorporado à rotina de pulverização. Isso não dispensa um teste prévio de compatibilidade nem a orientação de um profissional habilitado.
A bula e a receita agronômica devem prevalecer sobre materiais promocionais ou recomendações informais. A fabricante também alerta que o produto pode oferecer riscos à saúde humana, aos animais e ao meio ambiente quando utilizado incorretamente.
O que pode limitar o avanço dos biorracionais
O potencial comercial é elevado, mas a categoria enfrenta desafios. Um deles é a expectativa de que todo produto associado à ideia de sustentabilidade funcione em qualquer condição.
As respostas fisiológicas variam conforme genética, estágio da cultura, solo, temperatura, disponibilidade de água e qualidade da aplicação. Uma tecnologia que apresentou bom desempenho em determinada região pode entregar outro resultado em um ambiente diferente.
Também existe o desafio de comunicar com precisão a diferença entre reguladores de crescimento, bioestimulantes, inoculantes e agentes biológicos de controle. Tratar todas essas categorias como equivalentes dificulta a escolha técnica.
Outro ponto é o custo. O produtor brasileiro atravessa um período de margens pressionadas por juros, insumos e preços das commodities. Qualquer aplicação adicional precisa demonstrar retorno mensurável.
Por isso, o crescimento sustentável dos biorracionais dependerá de pesquisa regional, assistência técnica, ensaios independentes e transparência sobre a variabilidade dos resultados.
O que a estratégia significa para o mercado brasileiro
A meta da Sumitomo Chemical mostra que as grandes indústrias de insumos enxergam o manejo fisiológico e os produtos biológicos como parte permanente do agronegócio, e não como uma tendência passageira.
O TopGrain é o lançamento mais visível dessa estratégia porque mira soja e milho, as duas principais culturas de grãos do país. Se os ganhos apresentados pela empresa forem repetidos em diferentes ambientes, a tecnologia poderá conquistar espaço rapidamente.
Para o agricultor, entretanto, a decisão não deve se apoiar apenas na promessa de sacas adicionais. O caminho mais seguro é testar, medir e comparar o retorno dentro da própria realidade produtiva.
A Sumitomo pretende dobrar de tamanho no Brasil até 2030, mas a confirmação dessa aposta acontecerá no campo. Será a consistência dos resultados, safra após safra, que determinará se os biorracionais passarão de uma frente promissora para um componente habitual do manejo agrícola brasileiro.
Perguntas frequentes

O que é um produto biorracional?
É uma tecnologia baseada em fontes naturais, microrganismos, compostos botânicos ou mecanismos biológicos específicos. A categoria pode incluir reguladores de crescimento, bioestimulantes, inoculantes e produtos para controle de pragas.
O TopGrain é um defensivo biológico?
A Sumitomo classifica o TopGrain como biorracional, mas sua categoria agronômica é a de regulador de crescimento vegetal. Ele não substitui automaticamente fungicidas, inseticidas, herbicidas ou fertilizantes.
Para quais culturas o TopGrain é indicado?
O lançamento é voltado para as culturas de soja e milho. O produtor deve seguir as indicações e doses autorizadas na bula.
Quanto o TopGrain pode aumentar a produtividade?
A Sumitomo informa potencial de até três sacas por hectare na soja e sete sacas por hectare no milho. O resultado pode variar conforme clima, solo, manejo, cultivar e qualidade da aplicação.
O que é ácido abscísico?
O ácido abscísico é um hormônio produzido naturalmente pelas plantas. Entre suas funções está a participação na resposta ao estresse hídrico e na regulação da abertura e do fechamento dos estômatos.
O TopGrain substitui fertilizantes?
Não. O produto atua no manejo fisiológico e não fornece os nutrientes necessários à cultura. A adubação deve continuar seguindo a análise do solo e a recomendação agronômica.
Produtos biorracionais dispensam receita agronômica?
Não necessariamente. A exigência depende da classificação e do registro do produto. No caso do TopGrain, a própria fabricante orienta a leitura da bula e o uso conforme receita e recomendação de engenheiro agrônomo.
