O parcelamento da compra de alimentos, prática que até pouco tempo era praticamente inexistente no varejo alimentar brasileiro, começa a ganhar espaço nos supermercados, especialmente no Rio Grande do Sul. A mudança reflete um cenário de forte comprometimento da renda das famílias com dívidas, aumento do custo de vida e redução do poder de compra à vista, levando o setor a adotar estratégias antes restritas a itens de bazar e eletrodomésticos.
Crise no bolso? Supermercados passam a parcelar compras de alimentos
Supermercados passam a parcelar alimentos diante do aumento do endividamento das famílias e da queda do poder de compra no Brasil.
O movimento foi confirmado pelo presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Lindonor Peruzzo Junior, após relatos de consumidores que passaram a encontrar a opção de pagamento parcelado em compras de supermercado. Segundo ele, a própria rede que comanda passou a permitir o parcelamento em 2024, sinalizando uma adaptação do varejo a um contexto econômico mais adverso.
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Endividamento crescente pressiona o varejo alimentar
O avanço do parcelamento de alimentos está diretamente ligado ao aumento do endividamento das famílias brasileiras. Com a renda comprometida por dívidas diversas, muitos consumidores já não conseguem pagar à vista nem mesmo itens essenciais do dia a dia.
Impacto de apostas e crédito consignado
De acordo com Lindonor Peruzzo Junior, fatores como os gastos com apostas esportivas online e a ampliação do crédito consignado CLT têm contribuído para agravar a situação financeira de milhares de trabalhadores. O crédito com desconto em folha, embora ofereça juros mais baixos, reduz a renda disponível mensal e limita a capacidade de pagamento de despesas básicas.
— Novos tempos, mais difíceis. Os gastos com bets e o crédito consignado CLT têm sido devastadores — afirmou o presidente da Agas, destacando que o desvio de recursos que antes eram destinados ao supermercado se tornou cada vez mais frequente.
Endividamento além do sistema bancário
Outro ponto de preocupação citado por Peruzzo Junior é o endividamento informal. Segundo ele, há casos recorrentes de funcionários com dívidas junto a familiares, amigos e até agiotas, o que evidencia a gravidade da situação financeira enfrentada por parte da população.
Mudança de comportamento no consumo de alimentos
Tradicionalmente, o pagamento parcelado no varejo era associado a bens duráveis ou de maior valor agregado. No setor de alimentos, quando existia, a prática ficava restrita a produtos de bazar ou campanhas muito específicas.
Alimentos entram no parcelamento
Com a queda do poder de compra à vista, supermercados passaram a flexibilizar suas políticas de pagamento para manter o fluxo de vendas e apoiar clientes em momentos de aperto financeiro. A possibilidade de dividir a compra do rancho do mês em parcelas, ainda que limitada, representa uma mudança relevante no comportamento do varejo alimentar.
Estratégia para manter o consumo
Para as redes supermercadistas, permitir o parcelamento de alimentos funciona como uma estratégia para evitar a queda brusca no volume de vendas, especialmente no final do mês, quando o orçamento das famílias costuma estar mais pressionado.
Como as principais redes do Rio Grande do Sul estão reagindo
A coluna consultou as cinco maiores redes de supermercados do Rio Grande do Sul para entender como cada uma tem lidado com o parcelamento de compras.
Grupo Zaffari
O Grupo Zaffari não deu retorno oficial sobre a política de parcelamento. No entanto, foi identificado que há diferenças entre lojas da rede. Em uma unidade, o parcelamento de alimentos não foi permitido, enquanto outra ofereceu a opção para a compra de dois sucos, indicando testes pontuais da estratégia.
Comercial Zaffari
A Comercial Zaffari mantém uma postura mais conservadora. A rede parcela apenas itens de bazar e eletrodomésticos, não incluindo alimentos na política regular de parcelamento.
UnidaSul
Na UnidaSul, o parcelamento também permanece restrito ao bazar. As compras podem ser divididas em até seis vezes, desde que a parcela mínima seja de R$ 30, o que limita o uso da modalidade para alimentos de menor valor.
Imec
A rede Imec é uma das que mais avançaram na flexibilização. Desde julho de 2023, oferece parcelamento para a compra de alimentos em até três vezes, sem juros, no último final de semana de cada mês e em ações pontuais, como aniversários de lojas.
Segundo a empresa, o objetivo é apoiar os clientes e estimular as vendas em um cenário de redução do poder de compra à vista, especialmente no fim do mês, quando o orçamento familiar costuma estar mais apertado.
Asun
A rede Asun permitiu o parcelamento de alimentos na primeira semana de dezembro, mas não detalhou se a opção será mantida de forma permanente. A iniciativa, no entanto, reforça a tendência de maior flexibilidade nas formas de pagamento.
Parcelar comida é solução ou risco?
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Do ponto de vista da educação financeira, o parcelamento de alimentos é visto com cautela por especialistas. Embora possa aliviar um problema pontual no orçamento, a prática recorrente traz riscos significativos.
Quando o parcelamento pode ajudar
Em situações excepcionais, como um imprevisto financeiro temporário, parcelar a compra do supermercado pode ser uma alternativa para equilibrar as contas. Se a família consegue reorganizar o orçamento no mês seguinte, o impacto tende a ser controlado.
Risco de efeito bola de neve
O problema surge quando o parcelamento vira hábito. Como a compra de alimentos é mensal e recorrente, acumular prestações pode gerar um efeito bola de neve. Chega um momento em que o consumidor precisa pagar parcelas de compras anteriores e, ao mesmo tempo, garantir o rancho do mês atual.
Comprometimento da renda futura
Esse acúmulo de parcelas reduz a renda disponível nos meses seguintes e aumenta a dependência de crédito, aprofundando o endividamento. Em um cenário de juros elevados no cartão de crédito, o risco financeiro se torna ainda maior.
Reflexos sociais e econômicos da prática
O parcelamento de alimentos é um sinal claro de fragilidade econômica. Quando itens básicos passam a ser comprados a prazo, isso indica que parte da população já não consegue manter o consumo essencial apenas com a renda mensal.
Alerta para políticas públicas
Especialistas veem o fenômeno como um alerta para a necessidade de políticas públicas voltadas à educação financeira, à regulação do crédito e à proteção da renda das famílias. Sem medidas estruturais, a tendência é de agravamento do endividamento.
Desafio para supermercados
Para os supermercados, o desafio é equilibrar apoio ao cliente e sustentabilidade do negócio. Embora o parcelamento possa impulsionar vendas no curto prazo, ele também aumenta riscos de inadimplência e custos operacionais.
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Imagem: Canva
