O transporte rodoviário continua sendo a principal alternativa para movimentação de mercadorias no Brasil. Responsável por grande parte da circulação de produtos entre indústrias, centros de distribuição e consumidores, o setor desempenha um papel estratégico para a economia nacional. No entanto, um estudo recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) trouxe novos elementos para um debate que se arrasta desde 2018: os impactos da política de pisos mínimos do frete sobre os custos empresariais.
Frete rodoviário ficou 16,4% mais caro com tabelamento, aponta CNI
Estudo da CNI aponta que tabela mínima do frete elevou custos em 16,4%. Entenda os impactos para empresas e consumidores.
Segundo levantamento da entidade, o tabelamento do frete elevou em média 16,4% os custos do transporte rodoviário em comparação a um cenário de livre negociação. O resultado reforça preocupações do setor produtivo sobre competitividade, inflação de custos e eficiência logística.
A discussão ganhou ainda mais relevância diante da tramitação da Medida Provisória (MP) 1.343/2026, que amplia mecanismos de fiscalização e endurece penalidades relacionadas ao cumprimento da tabela de fretes.
O que é o tabelamento do frete?

A Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas foi criada em 2018 após a greve dos caminhoneiros que paralisou o país.
A legislação determinou que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) passasse a divulgar valores mínimos para a contratação de fretes, considerando fatores como:
- Distância percorrida;
- Tipo de carga transportada;
- Custos operacionais;
- Preço do diesel;
- Tempo de viagem.
O objetivo foi garantir uma remuneração mínima aos transportadores, especialmente caminhoneiros autônomos, reduzindo situações de frete considerado abaixo dos custos operacionais.
Desde sua implementação, entretanto, a medida divide opiniões entre transportadores e setores que dependem da logística para produzir e distribuir mercadorias.
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Estudo aponta aumento médio de 16,4% nos custos logísticos
De acordo com pesquisa realizada pela CNI com 1.571 empresas industriais, a política de pisos mínimos elevou os custos do frete rodoviário em média 16,4%. Além disso, 94% das empresas que contratam transporte rodoviário afirmaram perceber impactos negativos decorrentes da política.
O levantamento também identificou que 64% das indústrias classificam os efeitos como altos ou muito altos para suas operações logísticas.
Na avaliação da entidade, o aumento dos custos acaba afetando diretamente a competitividade das empresas, especialmente em setores que dependem intensamente do transporte rodoviário.
Pequenas empresas sentem impacto maior
Os dados mostram que o aumento dos custos não ocorre de forma uniforme entre os diferentes portes empresariais.
Pequenas indústrias
Entre as pequenas empresas, a alta média observada chegou a 19%.
Como possuem menor poder de negociação e menor capacidade de absorver aumentos operacionais, esses negócios tendem a sentir os impactos de forma mais intensa.
Médias empresas
As médias indústrias registraram aumento médio de 18% nos custos relacionados ao transporte.
Grandes empresas
Já entre as grandes organizações, o impacto médio foi estimado em 14%, percentual menor devido à escala operacional e maior capacidade de negociação logística.
Regiões Norte e Nordeste lideram aumento dos custos
A pesquisa também revelou diferenças regionais significativas.
O Nordeste apresentou o maior aumento médio dos custos de transporte, chegando a 20,3%. Em seguida aparece a Região Norte, com elevação de 17,2%.
Segundo a CNI, alguns fatores ajudam a explicar esse cenário:
- Forte dependência do modal rodoviário;
- Menor integração com outros modais de transporte;
- Distâncias elevadas entre centros produtivos e consumidores;
- Importância do frete de retorno para viabilidade das operações.
Na prática, empresas localizadas nessas regiões enfrentam maior dificuldade para diluir custos logísticos.
Quais setores são mais afetados?
Os impactos também variam conforme a atividade econômica.
Setores em que a logística representa parcela relevante do custo final tendem a sofrer efeitos mais intensos.
Mineração e produtos minerais
Os maiores aumentos foram registrados nos segmentos de extração mineral e produtos minerais não metálicos, incluindo:
- Fertilizantes;
- Sal;
- Gesso;
- Cerâmica.
Nesses casos, os custos de transporte aumentaram cerca de 23%.
Indústria alimentícia
Empresas do setor de alimentos também aparecem entre as mais impactadas, principalmente pela necessidade de distribuição constante para diferentes regiões do país.
Máquinas e equipamentos
Fabricantes de máquinas e equipamentos registraram elevação acima da média nacional devido ao elevado peso da logística na composição dos custos.
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O impacto pode chegar ao consumidor?
Embora o estudo tenha focado nas empresas, especialistas apontam que aumentos logísticos costumam refletir em toda a cadeia econômica.
Quando o transporte fica mais caro, empresas podem adotar diferentes estratégias:
- Reduzir margens de lucro;
- Cortar investimentos;
- Buscar ganhos de produtividade;
- Repassar parte dos custos aos preços finais.
Em setores com margens apertadas, o repasse ao consumidor tende a ocorrer de forma gradual, contribuindo para a elevação dos preços de bens industriais e alimentos.
Críticas à metodologia da ANTT

Outro ponto levantado pela pesquisa envolve a metodologia utilizada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres para definir os pisos mínimos.
Segundo a sondagem, oito em cada dez empresas consideram que os critérios atuais não refletem adequadamente a realidade operacional do transporte de cargas no país.
A principal crítica é que um modelo único teria dificuldade para contemplar a diversidade das operações logísticas brasileiras, que variam conforme:
- Região;
- Tipo de carga;
- Distância percorrida;
- Infraestrutura disponível;
- Demanda de mercado.
A ANTT realiza periodicamente audiências públicas para revisão dos cálculos e atualização da tabela.
O que muda com a MP 1.343/2026?
Além dos efeitos já observados com a política de pisos mínimos, a indústria acompanha com atenção a tramitação da MP 1.343/2026.
A proposta amplia mecanismos de fiscalização, cria novas exigências regulatórias e endurece penalidades para casos de descumprimento das regras do frete mínimo.
Entre as empresas que afirmam conhecer o conteúdo da medida:
- 85% apontam preocupação com aumento dos custos;
- 57% citam perda de competitividade;
- 35% mencionam riscos de insegurança jurídica.
O texto ainda está em discussão no Congresso Nacional e pode sofrer alterações durante a tramitação.
Conclusão
O debate sobre o tabelamento do frete continua dividindo opiniões entre transportadores e setor produtivo. Enquanto caminhoneiros defendem a política como instrumento de proteção contra fretes considerados inviáveis economicamente, a indústria argumenta que a medida aumenta custos, reduz competitividade e pressiona toda a cadeia logística.
Os dados mais recentes da CNI mostram que os impactos já são percebidos por grande parte das empresas brasileiras, especialmente pequenos negócios e setores altamente dependentes do transporte rodoviário. Com a discussão da MP 1.343/2026 em andamento, o tema deve continuar no centro das atenções de empresários, transportadores e formuladores de políticas públicas nos próximos meses.
O desafio será encontrar um equilíbrio que garanta remuneração adequada aos transportadores sem comprometer a eficiência logística e a competitividade da economia brasileira.
