O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre o café brasileiro provocou uma reação imediata no mercado internacional. Com sobretaxa de 50%, o preço global do grão disparou, mas os embarques para o maior consumidor do mundo encolheram drasticamente.
Tarifaço afeta café brasileiro e exportações despencam para os EUA
Exportações de café do Brasil aos EUA caem após tarifaço de 50%. Entenda aqui os impactos no mercado e o futuro do setor. Leia agora!!
Dados preliminares do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) revelam que, entre 1º e 25 de agosto, o Brasil exportou apenas 193,9 mil sacas aos EUA, uma queda de 46,6% em relação ao mesmo período de 2024. A medida acendeu o alerta entre produtores, cooperativas e autoridades do setor.

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Impactos imediatos do tarifaço dos EUA nas exportações de café brasileiro
Queda expressiva nos embarques
Segundo Eduardo Heron, diretor técnico do Cecafé, a retração não se deve apenas à sobretaxa, mas também a uma safra menor e a problemas logísticos que dificultaram o escoamento. Ele destaca que, em julho, as exportações alcançaram cerca de 450 mil sacas, número bem superior ao registrado em agosto.
Heron reforça que não houve redução no consumo americano. Pelo contrário: “o consumidor dos EUA continua comprando, mas agora paga mais caro”, afirma. Isso mostra que o tarifaço não diminuiu a demanda, mas gerou aumento nos custos finais para o consumidor.
Contratos adiados e incerteza no mercado
Outro ponto sensível foi o adiamento de contratos. Heron alerta que o impacto real da sobretaxa será sentido de forma mais intensa a partir de setembro, quando começam os maiores volumes da nova safra. Nesse cenário, o atraso em negociações pode comprometer o planejamento financeiro de produtores e cooperativas.
Estratégias das cooperativas
O caso da Cocapec
Na região da Alta Mogiana, a Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas (Cocapec) conseguiu manter embarques para os EUA graças a contratos futuros. Segundo o gerente de negócios Ricardo Ravagnani, cerca de 20% da produção da cooperativa é destinada ao mercado americano, e parte dessa safra já estava vendida antecipadamente.
Apesar da instabilidade, Ravagnani observa que nenhum comprador sinalizou cancelamentos de contratos firmados. O problema, no entanto, está nos negócios de curto prazo: tradings e compradores do mercado à vista recuaram, aguardando definições sobre a manutenção ou flexibilização das tarifas.
Safra menor e desafios climáticos
A Cocapec projeta receber 1,2 milhão de sacas em 2025, número maior que em 2024, mas abaixo da meta inicial de 1,4 milhão. Problemas climáticos prejudicaram a produtividade, agravando o impacto do tarifaço. Ainda assim, Ravagnani acredita que a dependência dos EUA em relação ao café brasileiro torna improvável uma substituição completa do produto no curto prazo.
A posição da Cooxupé
A maior cooperativa de café do Brasil, a Cooxupé, também se viu diante de incertezas. Até julho, os embarques seguiam normalmente, mas a partir de agosto novos contratos praticamente desapareceram. O superintendente comercial Luiz Fernando dos Reis afirma que importadores estão em compasso de espera.
Para Reis, o risco está no médio prazo: se a oferta global aumentar, compradores americanos podem recorrer a cafés de outros países, com custos mais baixos que o brasileiro. Isso representaria perda de espaço em um mercado estratégico.
Dependência dos EUA e dificuldade em abrir novos mercados
O Brasil responde por 40% da produção mundial de café e exportou para 116 países em 2024. Ainda assim, os EUA permanecem como destino principal, absorvendo 23% das exportações nacionais no último ano. Essa concentração expõe a fragilidade do setor: substituir o mercado americano é um desafio quase impossível no curto prazo.
Embora alguns países emergentes estejam aumentando o consumo, a capacidade de absorver volumes expressivos ainda é limitada. Para o Cecafé, remanejar o café que iria para os EUA exigirá esforço diplomático e estratégias comerciais mais agressivas.
A tensão diplomática
Conversas com a NCA
O Cecafé mantém diálogo com a Associação Nacional do Café dos Estados Unidos (NCA), tentando amenizar os impactos da sobretaxa. Apesar das dificuldades no relacionamento com o governo Trump, a entidade aposta na negociação como alternativa.
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Uma comitiva do setor esteve em Washington para encontros com representantes da indústria cafeeira, órgãos governamentais e eventos ligados à Câmara de Comércio Brasil-EUA. O objetivo foi pressionar por uma solução que evite danos maiores às exportações brasileiras.
Lei de reciprocidade em discussão
O governo brasileiro estuda adotar a Lei de Reciprocidade Econômica, o que poderia gerar ainda mais tensão diplomática. O Cecafé alertou que tal medida poderia prejudicar as negociações em andamento e comprometer o diálogo com autoridades e compradores americanos.
Perspectivas para o setor
Preços internacionais em alta
O tarifaço já elevou os preços internacionais do café em 33% apenas em agosto. Embora essa valorização possa parecer positiva para os produtores, ela é acompanhada por incertezas de mercado, custos adicionais e maior dificuldade de negociação.
Gargalos logísticos e pressão climática
Além da questão tarifária, gargalos de transporte e problemas climáticos continuam afetando a produção. O setor teme que a combinação desses fatores reduza a competitividade do café brasileiro frente a concorrentes.
Alternativas de mercado
Especialistas defendem a diversificação de destinos como forma de reduzir a dependência dos EUA. Europa e países asiáticos aparecem como alternativas viáveis, mas exigem adaptações logísticas, negociações comerciais e campanhas de promoção da imagem do café brasileiro.

O tarifaço imposto pelos EUA escancarou a vulnerabilidade das exportações brasileiras de café. Embora os contratos futuros tenham garantido uma certa estabilidade temporária, o risco de queda prolongada nos embarques preocupa produtores, cooperativas e autoridades.
A dependência do mercado americano e os desafios para abrir novos destinos reforçam a necessidade de estratégias diplomáticas e comerciais mais robustas. O Brasil, maior produtor mundial, não deve perder protagonismo, mas precisa agir rapidamente para proteger sua posição no mercado internacional e garantir que o impacto do tarifaço não se torne permanente.
