O novo pacote de tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos atinge diretamente parte significativa das exportações brasileiras, com impacto estimado de bilhões de dólares para setores estratégicos da economia. Embora algumas mercadorias tenham sido isentas, aproximadamente 55,4% dos produtos enviados aos EUA seguem sujeitos ao teto tarifário, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
Tarifaço atinge setores-chave do Brasil; entenda os efeitos
Setores-chave do Brasil, como café, carne, madeira e pescados, enfrentam perdas bilionárias com o tarifaço dos EUA. Entenda os impactos.
As sobretaxas recaem sobre itens que estão entre os mais relevantes da pauta exportadora brasileira, como café, madeira, carnes, pescados, frutas e equipamentos de construção civil.
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Café: líder nas exportações e alvo da sobretaxa

O café, símbolo da economia nacional e carro-chefe das exportações agrícolas, é um dos produtos mais prejudicados. O Brasil responde por cerca de 35% do café consumido nos EUA e teve o mercado norte-americano como principal destino do grão não torrado em 2024.
Em valor, isso representou US$ 1,9 bilhão, equivalente a 16,7% do total exportado pelo país. Minas Gerais, maior produtor nacional, deve sofrer perdas expressivas. O vice-governador Mateus Simões estimou que só o estado perderá R$ 1 bilhão em vendas.
Apesar do impacto, o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, sinalizou que o café pode ser incluído em futuras rodadas de isenções, o que traz um fio de esperança ao setor.
Dependência do mercado norte-americano
O caso do café expõe uma vulnerabilidade: a concentração das vendas em mercados específicos. Essa dependência pode amplificar prejuízos sempre que barreiras comerciais são impostas, especialmente por economias de grande porte como os Estados Unidos.
Madeira: risco de colapso no setor
Outro segmento gravemente atingido é o de madeira processada. Em 2024, o Brasil exportou cerca de US$ 1,6 bilhão do produto para o mercado americano, representando, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), cerca de 50% da produção nacional destinada ao exterior.
Em nota, a Abimci alertou que o tarifaço já desencadeia um “início de colapso” no setor. Algumas empresas adotaram férias coletivas forçadas e outras estudam desligamentos para evitar prejuízos ainda maiores.
Efeitos em cadeia
A retração nas exportações de madeira pode gerar desemprego em regiões dependentes da atividade, impactando comunidades inteiras. O risco é de desarticulação de cadeias produtivas que levam anos para se consolidar.
Carnes: impacto bilionário para frigoríficos
As carnes, em especial a bovina, também foram alvo da política tarifária de Donald Trump. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) projeta perdas de US$ 1 bilhão com tarifas de até 50%.
Os Estados Unidos são o segundo maior comprador da carne bovina brasileira, atrás apenas da China. Em 2024, as exportações somaram 181 mil toneladas e US$ 1 bilhão somente no primeiro semestre.
Segundo Roberto Perosa, diretor da Abiec, a meta era exportar 400 mil toneladas até o fim do ano, número agora considerado inviável.
Competitividade comprometida
O aumento de custos provocado pelas tarifas reduz a competitividade da carne brasileira, abrindo espaço para concorrentes de outros países e dificultando a manutenção de contratos comerciais.
Pescados: setor sem alternativas comerciais
O setor de pescados enfrenta um cenário ainda mais crítico. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), 70% das exportações brasileiras têm como destino os EUA.
A situação é agravada pelo embargo europeu às exportações brasileiras de pescados, vigente desde 2017, o que elimina um mercado alternativo relevante. Dos US$ 600 milhões previstos em vendas externas para 2025, US$ 350 milhões seriam destinados aos Estados Unidos.
Frutas: risco de colapso no mercado interno

As frutas brasileiras também sofrem os efeitos das novas tarifas. Os EUA compraram 7% do volume total exportado em 2024. No entanto, o impacto vai além das estatísticas.
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O presidente da Abrafrutas, Guilherme Coelho, alerta que a devolução de grandes quantidades de frutas ao mercado interno pode provocar excesso de oferta, derrubando preços e prejudicando produtores.
Especial atenção é dada à produção de manga no Vale do São Francisco, planejada com meses de antecedência para atender exclusivamente ao mercado norte-americano. A barreira tarifária ameaça inviabilizar a safra.
Equipamentos de construção civil: metade das exportações em risco
O segmento de máquinas e equipamentos de construção civil destinou 52,2% de suas exportações aos EUA em 2024, somando US$ 1,5 bilhão.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), as tarifas não apenas elevam o custo para compradores americanos, como também intensificam a concorrência de países como China, Japão e Coreia do Sul, que podem oferecer produtos a preços mais competitivos.
Possíveis desdobramentos e soluções
Embora o tarifaço represente um choque imediato para vários setores, especialistas destacam que o Brasil pode adotar estratégias para mitigar o impacto:
- Diversificação de mercados: buscar novos destinos para exportações, reduzindo a dependência dos EUA.
- Negociações diplomáticas: ampliar diálogo para inclusão de produtos em listas de isenção.
- Incentivo ao consumo interno: criar políticas para absorver parte da produção que não será exportada.
O governo brasileiro já sinalizou que pretende intensificar negociações bilaterais e recorrer a mecanismos da Organização Mundial do Comércio (OMC) caso as tarifas sejam consideradas abusivas.
Conclusão
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos expõe fragilidades da pauta exportadora brasileira e reforça a importância de políticas de diversificação comercial. Enquanto as negociações seguem, setores como café, madeira, carne, pescados, frutas e equipamentos de construção civil se mobilizam para minimizar perdas e evitar um efeito cascata na economia interna.
Se o Brasil não ampliar seu leque de mercados e garantir mais previsibilidade nas relações comerciais, eventos como esse poderão continuar afetando a competitividade do país no cenário global.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

