A indústria de vestuário da Ásia, que sustenta milhões de trabalhadores e suas famílias, vive um momento de profunda incerteza. Com o prazo se esgotando para a conclusão de novos acordos comerciais, o governo dos Estados Unidos, sob a liderança do ex-presidente Donald Trump, prepara a imposição de tarifas punitivas que podem alterar radicalmente o destino econômico de países como Camboja e Sri Lanka.
‘Não vamos sobreviver’: o tarifaço de Trump ameaça empregos nos EUA
Milhares de trabalhadores da indústria de vestuário temem perder seus empregos com novas tarifas impostas pelos EUA ao Camboja e ao Sri Lanka.
No dia 9 de julho, Trump notificou diversas nações sobre as novas tarifas de importação, com vigência prevista para 1° de agosto. O impacto será sentido com mais intensidade em economias que dependem fortemente das exportações para o mercado americano, como é o caso desses dois países asiáticos.
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O impacto direto no Camboja e no Sri Lanka

Camboja: epicentro de mão de obra barata
O Camboja se consolidou como alternativa viável à China para grandes marcas ocidentais em razão da sua mão de obra abundante e barata. Em 2024, o país exportou mais de US$ 3 bilhões em roupas para os EUA, e a indústria têxtil responde por mais de 10% das exportações totais do país, empregando cerca de 900 mil pessoas.
As tarifas propostas pelos EUA chegam a 36%, o que pode inviabilizar a competitividade cambodjana no setor. Empresas como Nike, Levi’s e Lululemon dependem diretamente dessas exportações.
Sri Lanka: entre a crise e o comércio
No Sri Lanka, as exportações de vestuário renderam US$ 1,9 bilhão em 2024, fazendo do setor a terceira maior fonte de moeda estrangeira. As tarifas anunciadas por Trump, que podem chegar a 30%, colocam o país em desvantagem frente a concorrentes como o Vietnã, que conseguiu acordos mais favoráveis.
A indústria emprega cerca de 350 mil pessoas e, em um cenário de crise econômica interna, um aumento nos impostos de exportação ameaça derrubar ainda mais a frágil estabilidade social e financeira da nação.
Vozes da linha de produção
A crise iminente não é abstrata para quem trabalha nas fábricas. Nao Soklin, costureira no sudeste do Camboja, expressa sua angústia com clareza:
“Você pode imaginar o que irá acontecer se perdermos nossos empregos? Estou muito preocupada, especialmente com meus filhos. Eles precisam comer.”
Junto com o marido, ela trabalha até 10 horas por dia e juntos ganham cerca de US$ 570 mensais. O valor cobre apenas o básico: aluguel e alimentação para os dois filhos e os pais idosos.
Tentativas de negociação
Reduções parciais e esperança limitada
Autoridades do Camboja e do Sri Lanka ainda tentam renegociar os termos antes do prazo final. Ambas as nações conseguiram concessões iniciais: 13 pontos percentuais para o Camboja e 14 para o Sri Lanka. No entanto, a meta das autoridades é a eliminação total das tarifas.
“Queremos que a tarifa seja zero”, disse Sun Chanthol, vice-primeiro-ministro do Camboja.
“Consideramos esta redução o princípio de uma situação muito boa”, declarou Harshana Suriyapperuma, ministro da Fazenda do Sri Lanka.
O argumento de Trump
O ex-presidente defende que as tarifas são necessárias para reduzir o desequilíbrio comercial entre os EUA e os países beneficiados. Em carta aos líderes mundiais, Trump afirmou que os acordos atuais não são recíprocos e penalizam a economia americana.
Contudo, especialistas discordam. Mark Anner, da Universidade Rutgers, explica que os EUA também se beneficiam amplamente desses acordos, comprando roupas a preços mais baixos e aumentando os lucros de empresas americanas.
O contexto histórico e geopolítico

O fim das quotas e a ascensão dos emergentes
Até 2005, os EUA, UE e Canadá mantinham um sistema de quotas que protegia a entrada de produtos de países em desenvolvimento, como o Sri Lanka. Esse modelo ajudou o setor a se desenvolver, mesmo com a forte concorrência da China.
A reversão atual, com tarifas elevadas, representa um retrocesso, segundo os analistas.
A disputa com a China
Sheng Lu, da Universidade de Delaware, aponta que a tensão entre EUA e China influencia diretamente essa política tarifária. Camboja e Sri Lanka integram cadeias de produção dependentes de insumos chineses, e os EUA buscam forçar um redesenho dessas relações econômicas.
“Agora, é preciso atingir um delicado equilíbrio”, comenta o professor Lu.
As mulheres como as mais impactadas
O setor de vestuário emprega majoritariamente mulheres — cerca de 70% da força de trabalho. O aumento das tarifas ameaça diretamente os seus salários, já muito baixos, além de colocar em risco a alimentação e o sustento de suas famílias.
Surangi Sandya, supervisora em uma fábrica no Sri Lanka, teme o pior:
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“Se os pedidos diminuírem, se houver perdas, pode haver a possibilidade de fechamento da companhia.”
O drama da migração e o risco social
A incerteza é tanta que muitos trabalhadores já cogitam migrar ilegalmente para países vizinhos. No Camboja, An Sopheak relata:
“Nossa sobrevivência depende da fábrica de roupas. Não iremos sobreviver se nosso patrão fechar as portas.”
Ela vive com a família em um pequeno quarto de 16 m² e teme não conseguir outro emprego caso a fábrica encerre as atividades.
“Rezamos todos os dias para que o presidente Trump suspenda as tarifas. Por favor, pense em nós e no nosso pobre país.”
A lógica por trás das tarifas é sustentável?
Analistas apontam a irracionalidade de esperar que países como Camboja e Sri Lanka possam equilibrar o déficit comercial com os EUA comprando bens de alto valor, como aviões.
“Quantos aviões Boeing o Camboja ou o Sri Lanka precisam e podem comprar por ano?”, ironiza o professor Sheng Lu.
Consequências geopolíticas e econômicas
A imposição de tarifas pode afastar esses países dos EUA e aproximá-los ainda mais da China, justamente o que a diplomacia americana tenta evitar. Além disso, pode prejudicar a reputação americana em sua relação com países em desenvolvimento, afetando futuras negociações multilaterais.
Caminhos possíveis

Com a data de 1° de agosto se aproximando, os governos locais intensificam suas tentativas de negociação. No entanto, sem avanços concretos, a perspectiva é de demissões em massa, queda nas exportações e aumento da pobreza.
Especialistas internacionais e organizações trabalhistas apelam para que o governo americano reconsidere sua política, buscando soluções que levem em conta tanto os interesses comerciais quanto o impacto humano.
Conclusão
A ofensiva tarifária promovida pelos Estados Unidos não atinge apenas cifras, mas pessoas — milhões delas. Famílias inteiras, especialmente mulheres, enfrentam a ameaça concreta de perder o pouco que conquistaram em países ainda em desenvolvimento. O desfecho dessas negociações pode moldar não só o comércio internacional de roupas, mas também os rumos da geopolítica asiática nos próximos anos.
