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Governo estuda fim da isenção de dividendos para corrigir tabela do Imposto de Renda

Governo estuda tributar dividendos para financiar correção da tabela do Imposto de Renda. Medida pode arrecadar R$ 160 bi por ano.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto5 min de leitura
Governo estuda fim da isenção de dividendos para corrigir tabela do Imposto de Renda

Em meio ao crescente debate sobre a justiça tributária no Brasil, o Governo Federal estuda o fim da isenção dos lucros e dividendos pagos por empresas a seus sócios e acionistas. A proposta, que faz parte de um projeto mais amplo de reforma do Imposto de Renda, ganhou destaque nesta semana após declarações do secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Marcos Pinto, durante audiência pública no Congresso Nacional.

A medida busca resolver um dos maiores entraves da política fiscal brasileira: a defasagem da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), que acumula perdas expressivas ao longo das últimas décadas. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a defasagem chega a 154,67% entre 1996 e 2024.

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Tabela defasada e falta de recursos

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Imagem: jittawit21/shutterstock.com

Impacto orçamentário da correção total

A correção integral da tabela do IRPF, considerada por especialistas como uma medida necessária para restabelecer a justiça fiscal, exigiria mais de R$ 100 bilhões ao ano, conforme revelou Marcos Pinto. No entanto, o secretário foi direto ao afirmar que “o governo não tem dinheiro para bancar tal medida”.

A proposta do Ministério da Fazenda, em análise no Congresso, é menos ambiciosa: isentar quem ganha até R$ 5 mil mensais e oferecer um benefício parcial para rendas entre R$ 5 mil e R$ 7 mil. Isso reduziria a conta para R$ 25 bilhões por ano, valor considerado viável dentro das atuais restrições fiscais — especialmente se acompanhado da criação de um imposto mínimo sobre rendas mais altas.


A renúncia bilionária da isenção de dividendos

O valor perdido com a isenção

A principal aposta do governo para financiar a ampliação da faixa de isenção do IR é o fim da isenção sobre lucros e dividendos, atualmente em vigor desde 1996. Segundo estimativas da Unafisco Nacional (Associação dos Auditores-fiscais da Receita Federal), essa renúncia tributária representa cerca de R$ 160,1 bilhões por ano.

Com o fim da isenção, o governo poderia corrigir a tabela do IR e ainda contar com uma sobra de R$ 60 bilhões, valor que poderia ser aplicado em outras políticas públicas ou no equilíbrio fiscal. O projeto também prevê a tributação da remessa de dividendos para o exterior, desde que o destino seja um cidadão estrangeiro.


Reforma busca equidade e simplificação

Alvo são os mais ricos

O projeto de lei enviado em março ao Congresso Nacional estabelece que 141,3 mil pessoas, com rendimentos superiores a R$ 50 mil por mês, passem a pagar mais impostos. Esse grupo representa apenas 0,13% dos contribuintes brasileiros, mas concentra uma fatia significativa da renda nacional.

A estratégia do governo é promover uma reforma tributária neutra, ou seja, que mantenha o equilíbrio das contas públicas, mas reorganize a carga tributária de forma mais justa, transferindo parte da contribuição para os que têm maior capacidade de pagamento.


Privilégios tributários sob questionamento

Incentivos sem retorno

Outro ponto destacado na audiência pública foi o volume de privilégios tributários concedidos pelo Brasil. Em 2024, segundo a Unafisco, foram R$ 538 bilhões em renúncias fiscais na esfera federal, valor superior ao orçamento de muitas áreas essenciais, como saúde e educação.

De acordo com a entidade, boa parte desses incentivos não traz retorno efetivo à economia, não geram empregos e tampouco contribuem para reduzir desigualdades. Para os auditores, trata-se de uma distorção do sistema, que beneficia grandes empresas sem contrapartida social.


Especialistas defendem fim da isenção de dividendos

Modelo é exceção no mundo

Economistas e especialistas em tributação apontam que o Brasil é uma das poucas grandes economias do mundo que ainda não tributa lucros e dividendos na pessoa física. A prática cria uma espécie de “paraíso fiscal interno” para os mais ricos, que conseguem estruturar suas rendas por meio de pessoas jurídicas para reduzir drasticamente a carga tributária.

Tributar dividendos seria uma forma de equilibrar o sistema e aumentar a progressividade, princípio segundo o qual quem ganha mais deve pagar mais impostos.


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Desafios políticos e resistência do mercado

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Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Setores empresariais se opõem

Apesar do potencial arrecadatório e dos argumentos técnicos, o fim da isenção enfrenta resistência de setores empresariais e parte do Congresso Nacional. Críticos alegam que a mudança pode afetar investimentos, desestimular o empreendedorismo e prejudicar empresas de menor porte.

Contudo, o Ministério da Fazenda sustenta que a tributação será seletiva e progressiva, afetando apenas grandes rendimentos, além de respeitar os princípios constitucionais da capacidade contributiva e da equidade.


Caminho da reforma ainda é incerto

Congresso terá papel decisivo

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é o relator do projeto de reforma do IR e será peça-chave na articulação política para sua aprovação. A proposta ainda deve ser discutida em comissões e poderá sofrer alterações antes de ir à votação no plenário.

A expectativa do governo é de que as mudanças entrem em vigor ainda em 2025, caso haja consenso entre os parlamentares. Com um cenário fiscal apertado e cobranças sociais crescentes, a reforma do Imposto de Renda promete ser uma das pautas centrais do segundo semestre no Congresso.


Conclusão: justiça fiscal ou risco político?

A proposta de tributar dividendos para corrigir a tabela do IR representa um passo ousado do governo na direção da justiça tributária, mas também impõe desafios políticos consideráveis. Com a concentração da renda em poucas mãos e o sistema tributário sobrecarregando a classe média e os mais pobres, o debate sobre quem deve pagar mais impostos se torna cada vez mais urgente.

O desfecho dessa discussão indicará os rumos da política econômica brasileira nos próximos anos e poderá redefinir o pacto social em torno da arrecadação e da distribuição de riquezas.

Imagem: Freepik e Canva

Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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