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Fim da isenção de IR para LCI e CRI eleva custo do financiamento e pode afetar moradia

Medida provisória de Haddad propõe alíquota de 5 % sobre rendimentos de LCIs e CRIs para compensar recuo no IOF, saiba mais!

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
malha fina restituição IR

Desde o fim de 2024, o governo federal e o setor imobiliário travam um cabo de guerra em torno das isenções tributárias que sustentam grande parte do crédito habitacional no País. A mais recente ofensiva partiu do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que anunciou em 8 de junho de 2025 uma medida provisória (MP) para instituir alíquota de 5% de Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). Hoje, esses papéis são totalmente isentos para pessoas físicas.

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Cinco pilhas de moedas, em ordem crescente, dispostas sobre uma mesa. No topo da última pilha, uma mão aproxima a lente de uma lupa.
Imagem: Jirsak/shutterstock.com

Por que LCIs e CRIs eram isentos

LCIs são títulos bancários lastreados em financiamentos habitacionais; CRIs, por sua vez, são emitidos por securitizadoras para transformar fluxos de recebíveis de contratos imobiliários em papel de investimento. Em comum, ambos foram criados para baratear o funding do setor de construção civil, reduzindo o custo do crédito de longo prazo. A isenção sempre funcionou como contrapartida para atrair o investidor pessoa física e irrigar a cadeia produtiva da habitação com recursos a taxas mais competitivas.

O que muda com a alíquota de 5%

A MP de Haddad busca compensar o impacto fiscal da redução planejada do IOF em outras frentes, preservando a arrecadação federal. A ideia do ministro é “equalizar distorções” entre produtos financeiros hoje tributados em até 17,5% e instrumentos isentos.

Alinhamento parcial

Embora LCIs e CRIs continuem “incentivados”, a margem de atração para o investidor diminui. Num cenário de Selic persistente em 10% ao ano, qualquer tributação direta corta retorno líquido, tornando alternativas como CDBs atrelados ao CDI — também taxados, mas com liquidez diária — mais atrativas.

Efeito dominó

A consequência mais temida é o repasse de custos ao tomador final de crédito imobiliário. Bancos e securitizadoras calculam que a mordida de 5% pode elevar de 0,3 a 0,5 ponto percentual o spread das novas operações, pois os emissores precisarão oferecer rendimento bruto maior para compensar o imposto.

Impacto na Selic real

Com o juro básico em patamar ainda elevado, a taxação reduz o diferencial líquido do investidor, mas não altera a Selic. Isso força o setor a oferecer retornos adicionais, pressionando a taxa efetiva de novas hipotecas.

Reação do mercado: apreensão imediata

A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) classificou a proposta como “retrocesso”. Segundo o presidente Luiz França, incrementar a carga tributária justamente quando o desemprego recua a mínimas históricas vai na contramão de políticas anticíclicas.

Crédito habitacional em risco

Dados da Caixa mostram que mais de 60% dos financiamentos do programa Minha Casa, Minha Vida dependem de recursos captados via LCIs. Qualquer encarecimento pode encurtar prazos ou exigir entradas maiores do comprador, freando o ritmo de contratações.

Comparação com crises passadas

Em 2015, a queda brusca do funding do FGTS paralisou linhas habitacionais e derrubou lançamentos em 26%. Analistas temem que a nova MP reproduza, em menor escala, aquele choque de liquidez.

Argumentos do governo: “corrigir distorções”

Haddad sustenta que a diferença entre alíquota zero e a faixa de 17,5% aplicada a outros títulos gera desequilíbrios no mercado de capitais e dificulta a rolagem da dívida pública. A Fazenda calcula arrecadação adicional de até R$ 4 bilhões por ano — valor considerado modesto frente ao déficit primário, mas simbólico para sinalizar disciplina fiscal.

Visão da equipe econômica

Para o Tesouro, as isenções são regressivas: beneficiam investidores de renda mais alta e retiram espaço de emissão para papéis que financiam outras áreas prioritárias, como infraestrutura e saúde.

Críticas de especialistas

Tributarista consultado pela reportagem afirma que “a alíquota linear ignora a função social do crédito imobiliário” e que mecanismos de escalonamento (alíquota menor para imóveis populares) seriam mais coerentes.

Como ficam investidores e emissores

uma mão humana empilhando modedas, representando um gráfico e ao lado da última pilha de moedas, uma casa.
Imagem: Andrey Popov/shutterstock.com

Investidor pessoa física

O rendimento líquido de uma LCI pós-fixada a 95% do CDI, por exemplo, cairia de 13,90% ao ano (bruto) para 13,20% (líquido) após o IR de 5%. Esse recuo, embora pareça pequeno, encurta a vantagem em relação a um CDB de 100% do CDI que paga IR regressivo de até 22,5% apenas sobre o rendimento.

Estratégias de ajuste

  • Migração para debêntures incentivadas de infraestrutura, ainda isentas
  • Diversificação em fundos imobiliários, cuja tributação ocorre no ganho de capital
  • Apostas em Tesouro IPCA+ como hedge de inflação, mesmo com IR padrão

Bancos e securitizadoras

Os emissores precisarão oferecer taxa bruta maior ou aceitar margens menores. Instituições de médio porte, que dependem fortemente das LCIs para captar, tendem a sofrer mais, ao passo que grandes bancos podem repassar parte do custo ao cliente.

Possíveis caminhos de negociação

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A Abrainc e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) já articulam frentes de diálogo no Congresso para tentar:

  1. Diferenciar LCIs destinadas à habitação popular (faixa 1 do MCMV)
  2. Reduzir a alíquota para papéis com prazo superior a cinco anos
  3. Cravar um período de transição de 12 meses para emissões já em curso

Desafios estruturais do setor

Selic e inflação

Com inflação acumulada em 3,8% nos 12 meses até maio, o juro real segue alto para padrões internacionais. Sem redução consistente da Selic, qualquer aumento de custo tributário onera o tomador final.

Custo da máquina pública

Entidades do setor afirmam que o governo deveria priorizar cortes de despesas correntes, em vez de criar novas bases de tributação. O argumento lembra as reformas fiscais de 1999 e 2016, que buscaram controlar gastos antes de elevar impostos.

Cenários para o crédito imobiliário em 2025

Otimista

Se o Congresso amenizar a alíquota ou estabelecer faixas, o impacto poderia ser diluído. Bancos manteriam ritmo de concessões, e o custo efetivo total (CET) dos financiamentos subiria menos de 0,2 ponto percentual.

Base

A MP passa conforme proposta. Construtoras adiam lançamentos de médio padrão, enquanto o programa habitacional popular sente menos por subsídios federais. O ritmo de vendas desacelera, mas não há retração dramática.

Pessimista

Aumentos adicionais de IR — como já ventilado para LCAs e CRAs — intensificam a fuga de investidores. Fundings alternativos encarecem, e o volume de crédito imobiliário recua até 15% em relação a 2024, afetando diretamente o PIB do setor.

O que o pequeno investidor deve acompanhar

Selic
Imagem: Freepik e Canva
  1. Cronograma da MP – Se não for convertida em lei em 120 dias, a tributação caduca.
  2. Taxa Selic – Reduções futuras podem compensar parte da perda de atratividade.
  3. Curva de juros – LCIs prefixadas podem voltar a ter apelo se o mercado precificar cortes agressivos.
  4. Novas isenções setoriais – Projetos de lei tramitam para ampliar debêntures de infraestrutura e logística.

Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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