As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, especialmente as exportações de aeronaves da Embraer, representam uma grave ameaça à indústria nacional. Anunciadas pelo presidente norte-americano Donald Trump, as alíquotas de 50% entrarão em vigor a partir de 1º de agosto e podem impactar de forma devastadora a receita da fabricante brasileira de aviões.
Tarifas de 50% nos EUA seriam “embargo comercial” aos jatos, alerta CEO da Embraer
Tarifa de 50% imposta por Trump ameaça exportações da Embraer para os EUA, podendo causar impacto semelhante ao da crise da Covid-19.
A medida foi comparada pelo próprio presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, a um novo colapso de proporções similares à crise da Covid-19. Segundo ele, os efeitos esperados incluem cancelamentos de pedidos, adiamentos de entregas e até possíveis cortes na força de trabalho.
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Um cenário de perdas
De acordo com Gomes Neto, o custo extra estimado é de cerca de US$ 9 milhões por avião exportado aos Estados Unidos. Essa cifra, por si só, já seria alarmante, mas torna-se ainda mais preocupante diante do peso do mercado americano para a Embraer: 45% do segmento de jatos comerciais e 70% da divisão de jatos executivos têm como destino os Estados Unidos.
O CEO afirmou:
“Se isso for para frente, nessa magnitude, vamos ter um impacto similar ao da Covid em termos de queda de receita da companhia”.
Apesar do tom grave, o executivo destacou que até o momento não houve cancelamentos de pedidos, o que dá à empresa e ao governo brasileiro uma brecha para negociação e possível reversão das tarifas.
Efeitos no mercado: ações oscilam e investidores reagem
A reação do mercado foi imediata. As ações da Embraer, que inicialmente chegaram a subir 3% no pregão do dia 15, passaram a oscilar após as declarações do executivo. Após o anúncio inicial da tarifa na semana passada, os papéis da empresa já haviam caído mais de 8%, demonstrando o alto grau de sensibilidade do mercado diante das tensões comerciais com os EUA.
Análise do Bradesco BBI
Os analistas do Bradesco BBI alertaram que a Embraer é a empresa mais exposta ao mercado norte-americano dentro do setor de bens de capital. Estimativas indicam que aproximadamente 60% da receita da companhia vem da América do Norte.
Eles projetam que as novas tarifas poderiam gerar um impacto de até US$ 220 milhões no Ebit (lucro antes de juros e impostos) da empresa em 2025 — o equivalente a 35% do total estimado para o ano.
Reações da empresa e posicionamento institucional
A Embraer informou que os possíveis impactos serão discutidos na divulgação dos resultados do segundo trimestre, marcada para o dia 5 de agosto. A companhia também comunicou que está trabalhando com autoridades governamentais para tentar restabelecer a alíquota zero de importação para o setor aeronáutico.
A esperança é de que, com a articulação diplomática e apoio de entidades do setor, os EUA possam rever a medida antes que ela entre em vigor.
Avaliação do JPMorgan: impactos por segmento

Segundo relatório assinado pelos analistas Marcelo Motta e Jonathan S. Koutras, do JPMorgan, a tarifa terá efeitos distintos nas diversas divisões da Embraer.
Aviação comercial
O segmento respondeu por 35% da receita da companhia em 2024 e por 12% do Ebit. A boa notícia é que os contratos desse setor geralmente permitem o repasse dos custos de tarifas aos clientes, o que pode amenizar os prejuízos.
Um destaque importante é o modelo E175, totalmente fabricado no Brasil e sem concorrente certificado nos EUA. Isso confere à Embraer um diferencial competitivo e poder de precificação elevado, mesmo em meio a tarifas.
Contudo, os jatos da família E2 enfrentam concorrência direta do A220 da Airbus, e ainda não possuem clientes norte-americanos — o que os isenta, por ora, dos efeitos diretos da medida.
Jatos executivos
A divisão de jatos executivos, especialmente os modelos Praetor, pode sofrer mais duramente. Apesar de parte do processo de montagem ser realizado nos EUA, até 70% dos componentes ainda vêm do Brasil. Esse detalhe torna o segmento vulnerável às novas alíquotas.
O relatório do JPMorgan aponta que as margens dessa divisão podem sofrer uma redução de até 15% no pior cenário, pressionando os resultados financeiros de forma significativa.
Segmento de serviços e suporte
Outro ponto afetado será o setor de peças e manutenção. Caso 25% da receita de serviços e suporte venha de importações brasileiras, o impacto projetado seria de cerca de 5% no Ebit desse segmento.
Essa área, muitas vezes vista como estável e resistente a choques, poderá também ser contaminada pelos efeitos da tarifa, dificultando a previsibilidade das receitas da Embraer.
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Um possível “embargo velado”
O presidente da companhia foi enfático ao afirmar que, na prática, as tarifas funcionam como um “embargo comercial” aos modelos E1 fabricados no Brasil. Diante de um custo adicional de 50%, exportar para os Estados Unidos se tornaria economicamente inviável.
Essa realidade não apenas impacta a empresa brasileira como também afeta companhias aéreas americanas, que passariam a pagar mais caro por aeronaves ou teriam que buscar alternativas de menor desempenho ou preço mais elevado.
Repercussões políticas e diplomáticas
O governo brasileiro já indicou que pretende contestar as tarifas na Organização Mundial do Comércio (OMC) e iniciar diálogos bilaterais com os EUA. A alegação é de que a medida viola princípios de comércio justo e prejudica de forma desproporcional uma indústria estratégica.
As tarifas fazem parte de um pacote mais amplo de pressões protecionistas que marcam a gestão de Trump, especialmente em momentos eleitorais, quando o discurso nacionalista se intensifica.
Embraer em números: dependência dos EUA e alternativas
A forte presença da Embraer no mercado norte-americano a torna particularmente vulnerável a medidas como essa. Segundo dados da própria companhia:
- 45% da receita dos jatos comerciais têm origem nos EUA
- 70% da divisão de jatos executivos depende do mercado norte-americano
- 60% da receita geral da Embraer vem da América do Norte
Com tamanha dependência, a empresa poderá ser forçada a revisar suas estratégias de diversificação de mercado, apostando em mercados emergentes, Europa ou países da Ásia e Oriente Médio.
Caminhos para a Embraer

Apesar do cenário negativo, a Embraer ainda possui trunfos importantes:
- O modelo E175 permanece dominante em seu nicho sem concorrência direta
- A montagem parcial nos EUA pode ser usada para negociar exceções
- A empresa tem histórico de superar grandes crises, como a própria pandemia
Além disso, o fortalecimento de acordos com países da União Europeia e da América Latina pode abrir novas rotas comerciais e mitigar parte dos impactos.
Imagem: Leonidas Santana/shutterstock.com
