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Tarifas de 50% nos EUA seriam “embargo comercial” aos jatos, alerta CEO da Embraer

Tarifa de 50% imposta por Trump ameaça exportações da Embraer para os EUA, podendo causar impacto semelhante ao da crise da Covid-19.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Embraer

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, especialmente as exportações de aeronaves da Embraer, representam uma grave ameaça à indústria nacional. Anunciadas pelo presidente norte-americano Donald Trump, as alíquotas de 50% entrarão em vigor a partir de 1º de agosto e podem impactar de forma devastadora a receita da fabricante brasileira de aviões.

A medida foi comparada pelo próprio presidente-executivo da Embraer, Francisco Gomes Neto, a um novo colapso de proporções similares à crise da Covid-19. Segundo ele, os efeitos esperados incluem cancelamentos de pedidos, adiamentos de entregas e até possíveis cortes na força de trabalho.

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Imagem: Evan El-Amin / shutterstock.com

Embraer sob risco: impacto direto na operação

Um cenário de perdas

De acordo com Gomes Neto, o custo extra estimado é de cerca de US$ 9 milhões por avião exportado aos Estados Unidos. Essa cifra, por si só, já seria alarmante, mas torna-se ainda mais preocupante diante do peso do mercado americano para a Embraer: 45% do segmento de jatos comerciais e 70% da divisão de jatos executivos têm como destino os Estados Unidos.

O CEO afirmou:

“Se isso for para frente, nessa magnitude, vamos ter um impacto similar ao da Covid em termos de queda de receita da companhia”.

Apesar do tom grave, o executivo destacou que até o momento não houve cancelamentos de pedidos, o que dá à empresa e ao governo brasileiro uma brecha para negociação e possível reversão das tarifas.

Efeitos no mercado: ações oscilam e investidores reagem

A reação do mercado foi imediata. As ações da Embraer, que inicialmente chegaram a subir 3% no pregão do dia 15, passaram a oscilar após as declarações do executivo. Após o anúncio inicial da tarifa na semana passada, os papéis da empresa já haviam caído mais de 8%, demonstrando o alto grau de sensibilidade do mercado diante das tensões comerciais com os EUA.

Análise do Bradesco BBI

Os analistas do Bradesco BBI alertaram que a Embraer é a empresa mais exposta ao mercado norte-americano dentro do setor de bens de capital. Estimativas indicam que aproximadamente 60% da receita da companhia vem da América do Norte.

Eles projetam que as novas tarifas poderiam gerar um impacto de até US$ 220 milhões no Ebit (lucro antes de juros e impostos) da empresa em 2025 — o equivalente a 35% do total estimado para o ano.

Reações da empresa e posicionamento institucional

A Embraer informou que os possíveis impactos serão discutidos na divulgação dos resultados do segundo trimestre, marcada para o dia 5 de agosto. A companhia também comunicou que está trabalhando com autoridades governamentais para tentar restabelecer a alíquota zero de importação para o setor aeronáutico.

A esperança é de que, com a articulação diplomática e apoio de entidades do setor, os EUA possam rever a medida antes que ela entre em vigor.

Avaliação do JPMorgan: impactos por segmento

Trump EUA
Imagem: Freepik

Segundo relatório assinado pelos analistas Marcelo Motta e Jonathan S. Koutras, do JPMorgan, a tarifa terá efeitos distintos nas diversas divisões da Embraer.

Aviação comercial

O segmento respondeu por 35% da receita da companhia em 2024 e por 12% do Ebit. A boa notícia é que os contratos desse setor geralmente permitem o repasse dos custos de tarifas aos clientes, o que pode amenizar os prejuízos.

Um destaque importante é o modelo E175, totalmente fabricado no Brasil e sem concorrente certificado nos EUA. Isso confere à Embraer um diferencial competitivo e poder de precificação elevado, mesmo em meio a tarifas.

Contudo, os jatos da família E2 enfrentam concorrência direta do A220 da Airbus, e ainda não possuem clientes norte-americanos — o que os isenta, por ora, dos efeitos diretos da medida.

Jatos executivos

A divisão de jatos executivos, especialmente os modelos Praetor, pode sofrer mais duramente. Apesar de parte do processo de montagem ser realizado nos EUA, até 70% dos componentes ainda vêm do Brasil. Esse detalhe torna o segmento vulnerável às novas alíquotas.

O relatório do JPMorgan aponta que as margens dessa divisão podem sofrer uma redução de até 15% no pior cenário, pressionando os resultados financeiros de forma significativa.

Segmento de serviços e suporte

Outro ponto afetado será o setor de peças e manutenção. Caso 25% da receita de serviços e suporte venha de importações brasileiras, o impacto projetado seria de cerca de 5% no Ebit desse segmento.

Essa área, muitas vezes vista como estável e resistente a choques, poderá também ser contaminada pelos efeitos da tarifa, dificultando a previsibilidade das receitas da Embraer.

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Um possível “embargo velado”

O presidente da companhia foi enfático ao afirmar que, na prática, as tarifas funcionam como um “embargo comercial” aos modelos E1 fabricados no Brasil. Diante de um custo adicional de 50%, exportar para os Estados Unidos se tornaria economicamente inviável.

Essa realidade não apenas impacta a empresa brasileira como também afeta companhias aéreas americanas, que passariam a pagar mais caro por aeronaves ou teriam que buscar alternativas de menor desempenho ou preço mais elevado.

Repercussões políticas e diplomáticas

O governo brasileiro já indicou que pretende contestar as tarifas na Organização Mundial do Comércio (OMC) e iniciar diálogos bilaterais com os EUA. A alegação é de que a medida viola princípios de comércio justo e prejudica de forma desproporcional uma indústria estratégica.

As tarifas fazem parte de um pacote mais amplo de pressões protecionistas que marcam a gestão de Trump, especialmente em momentos eleitorais, quando o discurso nacionalista se intensifica.

Embraer em números: dependência dos EUA e alternativas

A forte presença da Embraer no mercado norte-americano a torna particularmente vulnerável a medidas como essa. Segundo dados da própria companhia:

  • 45% da receita dos jatos comerciais têm origem nos EUA
  • 70% da divisão de jatos executivos depende do mercado norte-americano
  • 60% da receita geral da Embraer vem da América do Norte

Com tamanha dependência, a empresa poderá ser forçada a revisar suas estratégias de diversificação de mercado, apostando em mercados emergentes, Europa ou países da Ásia e Oriente Médio.

Caminhos para a Embraer

Embraer no 2T21
Imagem: testing / shutterstock.com

Apesar do cenário negativo, a Embraer ainda possui trunfos importantes:

  • O modelo E175 permanece dominante em seu nicho sem concorrência direta
  • A montagem parcial nos EUA pode ser usada para negociar exceções
  • A empresa tem histórico de superar grandes crises, como a própria pandemia

Além disso, o fortalecimento de acordos com países da União Europeia e da América Latina pode abrir novas rotas comerciais e mitigar parte dos impactos.

Imagem: Leonidas Santana/shutterstock.com

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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