Uma nova acusação abala a credibilidade da plataforma de transporte por aplicativo Uber. Um estudo da Columbia Business School, em Nova York, afirma que a empresa usa algoritmos opacos para aplicar discriminação de preços e aumentar seus lucros às custas de passageiros e motoristas.
Uber teria algoritmo opaco que impulsiona lucro, diz segundo estudo
Estudo da Columbia Business School acusa Uber de usar algoritmo opaco para manipular tarifas e reduzir pagamentos a motoristas, gerando bilhões em lucro.
A pesquisa segue um relatório semelhante publicado pela Universidade de Oxford, que também indicou redução drástica nos ganhos dos motoristas desde a adoção de um sistema de precificação dinâmica.
As conclusões das duas instituições acadêmicas reacendem o debate sobre a transparência dos algoritmos, o poder de manipulação das plataformas digitais e os limites éticos da inteligência artificial no mercado de trabalho e consumo.
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O que diz o estudo da Columbia Business School?

Base em milhões de dados de corridas
A pesquisa da Ivy League Business School se baseou na análise de dezenas de milhares de viagens feitas por motoristas do Uber, incluindo mais de 2 milhões de solicitações de corrida. Os dados permitiram concluir que o novo modelo de precificação da Uber, implementado nos Estados Unidos em 2022, resultou em um aumento sistemático, seletivo e opaco nas tarifas dos passageiros e na redução dos ganhos dos motoristas.
Discriminação algorítmica
Segundo o autor principal do estudo, Len Sherman, a plataforma utiliza inteligência artificial para identificar quanto os passageiros estão dispostos a pagar e quanto os motoristas aceitariam para uma corrida, praticando uma espécie de discriminação algorítmica personalizada.
“A Uber diz: ‘Sabemos mais sobre o comportamento do usuário e do motorista do que eles mesmos, então podemos ajustar os preços de forma a maximizar nosso lucro’”, afirmou Sherman.
Como funciona o algoritmo de precificação da Uber?
Preços dinâmicos e personalizados
O sistema de precificação da Uber, também chamado de “preço antecipado” ou “preço dinâmico”, calcula o valor da corrida antes do usuário confirmar a solicitação. Segundo a empresa, isso proporciona maior transparência. No entanto, críticos afirmam que o algoritmo usa variáveis ocultas e dados comportamentais para ajustar os preços de forma individualizada.
Entre as variáveis que podem ser consideradas pelo sistema:
- Histórico de uso do app
- Localização geográfica
- Horário de solicitação
- Perfil de consumo
- Probabilidade de aceitar o preço sugerido
Redução dos repasses a motoristas
O estudo de Columbia também revela que, enquanto o passageiro paga mais, o motorista recebe proporcionalmente menos. Em alguns casos, o percentual retido pela Uber ultrapassa 40% do valor total da corrida.
“A empresa conseguiu aumentar a sua participação nas tarifas dos usuários de forma gradual, chegando a 42% até o fim de 2024”, aponta o relatório.
Estudo da Universidade de Oxford reforça denúncias
Queda nos ganhos dos motoristas no Reino Unido
O estudo da Universidade de Oxford, publicado uma semana antes, analisou 1,5 milhão de viagens no Reino Unido e constatou que, desde a introdução do algoritmo de precificação dinâmica em 2023, os motoristas passaram a receber consideravelmente menos por hora.
A pesquisa mostrou que:
- A comissão média da Uber subiu de 25% para 29%;
- Em algumas viagens, a Uber chegou a reter mais de 50% do valor pago pelo passageiro;
- Motoristas relataram redução significativa na renda mensal, mesmo com aumento na demanda.
Uber nega acusações e defende modelo de preços

Posicionamento oficial da empresa
Em resposta aos estudos, a Uber divulgou nota afirmando que não reconhece os números divulgados pelas universidades e reafirma seu compromisso com a transparência e a equidade.
“Nossos algoritmos de precificação são projetados para balancear oferta e demanda em tempo real, melhorando a confiabilidade da plataforma”, disse um porta-voz da empresa.
Alegação de que preços não são personalizados
A Uber também negou que o algoritmo utilize dados pessoais para ajustar preços individualmente. Segundo a nota, o sistema de precificação não se baseia em características individuais de motoristas ou passageiros.
“As sugestões de que manipulamos preços de forma discriminatória são falsas e infundadas”, concluiu a empresa.
Histórico de polêmicas da Uber com relação a motoristas
Reconhecimento de vínculo trabalhista
A Uber já foi alvo de diversas ações judiciais em países como Reino Unido, França, Espanha e Brasil por negar direitos trabalhistas a motoristas. Em 2021, o Supremo Tribunal do Reino Unido decidiu que os motoristas da Uber têm direito ao salário mínimo e a férias pagas.
Vazamento dos “Uber Files”
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+311 mil seguidores
Em 2022, a empresa também foi envolvida no escândalo global dos “Uber Files”, uma investigação que revelou como a companhia:
- Distorceu dados para enganar autoridades;
- Fez lobby secreto com líderes políticos;
- Incentivou práticas agressivas de expansão, mesmo violando leis locais.
Impacto econômico da mudança de algoritmo
Uber aumentou lucro mesmo reduzindo repasses
Em 2024, a Uber registrou um fluxo de caixa de US$ 6,9 bilhões, revertendo o prejuízo de US$ 303 milhões em 2022. O relatório da Columbia sugere que essa melhora financeira ocorreu às custas de menores repasses aos motoristas e tarifas mais elevadas para os usuários.
Efeitos colaterais
A pressão sobre os motoristas leva a consequências como:
- Aumento da jornada de trabalho para manter a renda;
- Dificuldade de atrair novos condutores;
- Insatisfação generalizada entre motoristas e clientes.
O que dizem especialistas e acadêmicos?

Falta de transparência preocupa pesquisadores
Para estudiosos do mercado de trabalho digital, os algoritmos usados por plataformas como a Uber devem ser mais transparentes e auditáveis.
“O poder da plataforma reside justamente no controle da informação. Os trabalhadores não têm acesso aos dados que determinam sua renda”, diz uma pesquisadora de economia do trabalho da Universidade de Cambridge.
Algoritmos e desigualdade
Segundo especialistas, o uso de inteligência artificial para precificação personalizada pode reproduzir desigualdades, penalizando usuários e motoristas de regiões periféricas ou com menor poder de barganha.
Considerações finais
As denúncias feitas pelas universidades de Columbia e Oxford reforçam as críticas de que a Uber utiliza algoritmos de forma opaca para maximizar seus lucros, mesmo que isso prejudique motoristas e usuários. Apesar de negar as alegações, a empresa já acumula um histórico de controvérsias relacionadas à exploração de trabalhadores, lobby político e manipulação de dados.
Em meio ao avanço da inteligência artificial e do trabalho mediado por aplicativos, o caso da Uber reacende um debate essencial: qual deve ser o limite ético para o uso de algoritmos em plataformas digitais?
Transparência, equidade e fiscalização se tornam urgentes em um ambiente cada vez mais regulado por códigos invisíveis.
