A Uber encerrou suas operações na Nigéria e em Uganda em 2 de setembro de 2026, reduzindo de forma significativa sua presença no mercado africano. A decisão encerra uma trajetória de 12 anos na Nigéria, onde a plataforma chegou em 2014, e ocorre em um cenário de custos elevados, inflação, volatilidade cambial e concorrência cada vez mais intensa no transporte por aplicativo.
A empresa afirmou que a saída foi tomada depois de uma revisão de suas operações e de suas prioridades de investimento. A companhia não apresentou uma explicação detalhada sobre a rentabilidade de cada mercado, mas afirmou que a decisão está restrita aos dois países e não representa uma retirada geral da África.
Com a mudança, a Uber mantém operações em quatro mercados africanos: Egito, Gana, Quênia e África do Sul. A companhia também havia deixado a Costa do Marfim e a Tanzânia no período anterior, ampliando o movimento de redução de sua presença no continente.
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Por que a Uber saiu da Nigéria?

A Nigéria era um mercado importante para a expansão da Uber na África. A empresa começou em Lagos e posteriormente ampliou sua presença para outras cidades, acompanhando o crescimento do transporte solicitado por aplicativos.
O ambiente, entretanto, ficou mais difícil para plataformas e motoristas. O aumento dos combustíveis, dos custos de manutenção e de outras despesas operacionais reduziu a margem financeira dos profissionais, enquanto a inflação e a desvalorização da moeda aumentaram a pressão sobre os consumidores.
A concorrência também se tornou mais agressiva. Empresas como Bolt e inDrive disputam passageiros e motoristas com diferentes estratégias de preço e operação. Na inDrive, por exemplo, o modelo de negociação direta entre passageiro e motorista cria uma alternativa ao sistema tradicional de tarifas definidas pela plataforma.
Esse ambiente coloca as empresas diante de um problema difícil: aumentar o preço das corridas pode melhorar a remuneração dos motoristas, mas também pode afastar consumidores que já enfrentam perda de poder de compra.
Motoristas enfrentavam aumento dos custos
O impacto da decisão é especialmente relevante para os motoristas que utilizavam a Uber como fonte de renda.
Na Nigéria, profissionais do setor já vinham reclamando de tarifas, comissões e aumento das despesas para manter os veículos em circulação. A elevação dos combustíveis agravou o problema e reduziu o valor efetivamente recebido pelos motoristas após cada corrida.
Reportagens sobre o mercado nigeriano também apontam que motoristas passaram a utilizar simultaneamente diferentes aplicativos para tentar aumentar a quantidade de viagens e melhorar a renda. Em alguns casos, profissionais também abandonaram a atividade quando os custos passaram a comprometer a rentabilidade.
A saída da Uber, portanto, não acontece isoladamente. Ela é consequência de um mercado em que plataformas precisam equilibrar três interesses difíceis de conciliar: preços competitivos para passageiros, remuneração suficiente para motoristas e sustentabilidade financeira para a própria empresa.
O peso da moeda e da inflação
A situação econômica da Nigéria ajuda a explicar por que o transporte por aplicativo se tornou mais complexo.
Quando a moeda local perde valor, despesas relacionadas a veículos, peças, tecnologia e determinados serviços podem aumentar, enquanto a renda dos passageiros não acompanha necessariamente o mesmo ritmo.
Para o motorista, o problema aparece diretamente no orçamento. Uma corrida precisa compensar combustível, manutenção, pneus, seguro, financiamento ou depreciação do automóvel e, dependendo do caso, comissões cobradas pela plataforma.
Se o preço final da viagem não pode subir na mesma proporção dos custos, a margem diminui.
Para a plataforma, a dificuldade é semelhante. Tarifas muito elevadas podem reduzir a demanda, mas preços baixos demais tornam mais difícil manter motoristas disponíveis e sustentar a operação.
Uganda também perdeu a Uber
A saída não ficou restrita à Nigéria. A Uber também encerrou suas atividades em Uganda no mesmo período.
A empresa havia iniciado operações no país em 2016. Após o encerramento, concorrentes como Bolt, SafeBoda e Faras passaram a ocupar uma posição ainda mais importante na disputa pelos usuários que utilizavam a plataforma americana.
Em ambos os mercados, a retirada da Uber abre espaço para empresas que adotam modelos diferentes de formação de preços e estratégias mais adaptadas às condições locais.
Isso pode aumentar a concorrência no curto prazo, mas também significa que motoristas e passageiros precisarão se adaptar às novas plataformas disponíveis.
Uber está abandonando a África?
Não é correto dizer que a Uber está deixando o continente africano.
A companhia afirmou que a decisão não altera sua atuação nos demais mercados africanos e que continua vendo oportunidades de crescimento na África Subsaariana. Depois das saídas recentes, porém, sua presença ficou concentrada em um grupo menor de países.
A estratégia indica uma postura mais seletiva. Em vez de manter operações em muitos países com estruturas e condições econômicas diferentes, a empresa pode concentrar recursos onde identifica maior possibilidade de escala e sustentabilidade.
A manutenção de mercados como Quênia, Gana, Egito e África do Sul mostra que a empresa ainda considera o continente relevante para seus negócios.
O que a saída da Uber revela sobre o setor

O caso da Nigéria mostra que ter milhões de consumidores potenciais não garante que uma plataforma de transporte consiga operar de maneira sustentável.
Mercados emergentes oferecem enorme demanda, mas também apresentam desafios relacionados a infraestrutura, inflação, câmbio, combustível, poder de compra e regulamentação.
Para empresas globais, outro obstáculo é adaptar o modelo de negócio às características de cada país. Uma estratégia que funciona em uma economia pode não produzir o mesmo resultado em outra.
A experiência da Uber na África reforça justamente essa realidade: escala de usuários não é suficiente quando os custos crescem mais rapidamente que a capacidade de pagamento do mercado.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
