A Uber anunciou a demissão de aproximadamente 3.300 funcionários em todo o mundo, o equivalente a cerca de 10% de sua força de trabalho corporativa. A decisão faz parte de uma ampla reorganização da companhia, anunciada pelo CEO Dara Khosrowshahi em 2 de setembro de 2026.
Segundo o executivo, a empresa pretende simplificar sua estrutura, eliminar camadas hierárquicas e acelerar o processo de tomada de decisões. A companhia afirma que a expansão registrada nos últimos anos aumentou a complexidade interna e provocou fragmentação entre equipes e projetos.
A Uber informou que a maioria dos funcionários afetados já foi comunicada. Em países onde existem procedimentos trabalhistas específicos, as notificações seguirão as exigências locais.
Por que a Uber está demitindo funcionários?

A redução ocorre em um momento de crescimento da empresa. O argumento apresentado pela administração não é de uma crise financeira, mas de uma tentativa de tornar a operação mais enxuta e direcionar recursos para áreas consideradas estratégicas.
Khosrowshahi afirmou que o rápido crescimento da Uber nos últimos cinco anos criou estruturas mais complexas do que o necessário. Com isso, a companhia passou a ter mais níveis de gestão, equipes com funções sobrepostas e processos considerados lentos.
A reorganização pretende reduzir essa burocracia. A empresa também deverá concentrar investimentos em áreas como motoristas, entregadores, comerciantes e tecnologias relacionadas a veículos autônomos.
Trabalho presencial ganha espaço
Outra mudança anunciada envolve o modelo de trabalho. A Uber pretende ampliar a presença física dos funcionários nos escritórios, reduzindo significativamente a possibilidade de trabalho totalmente remoto.
A companhia também informou que vai diminuir o número de chamadas “microequipes”, estruturas menores criadas para coordenar projetos e atividades específicas. A intenção é reduzir funções predominantemente administrativas e aumentar a autonomia das equipes responsáveis pela execução.
Na área de entregas, restaurantes, varejo e vendas diretas deverão ser integrados sob uma estrutura global única. A medida busca evitar a duplicação de funções e facilitar a coordenação entre negócios.
Demissões acontecem apesar de resultados positivos
O anúncio chama atenção porque ocorre enquanto a Uber apresenta indicadores financeiros e operacionais robustos.
No segundo trimestre de 2026, encerrado em 30 de junho, a companhia registrou US$ 14,2 bilhões em receita, alta de 12% em relação ao mesmo período do ano anterior. As reservas brutas, ou Gross Bookings, chegaram a US$ 58 bilhões, crescimento de 24% na comparação anual.
O número de viagens também avançou. Foram 3,9 bilhões de viagens no trimestre, aumento de 18%. A quantidade de consumidores ativos mensais chegou a 208 milhões, 16% acima do registrado um ano antes.
A Uber ainda apresentou lucro líquido de US$ 2,4 bilhões no período. Entretanto, esse resultado foi beneficiado por um ganho de US$ 1,6 bilhão antes dos impostos relacionado à reavaliação de investimentos societários. Por isso, o lucro líquido não deve ser interpretado isoladamente como indicador do desempenho operacional da empresa.
Outro destaque foi a geração de caixa. O fluxo de caixa livre chegou a US$ 2,8 bilhões no trimestre, enquanto o acumulado dos últimos 12 meses ultrapassou pela primeira vez US$ 10 bilhões.
O que a Uber pretende fazer com os recursos economizados?
A companhia pretende utilizar parte dos recursos obtidos com a redução da estrutura corporativa para financiar novas oportunidades de crescimento.
Entre as prioridades estão o fortalecimento das operações tradicionais de mobilidade e entregas e o avanço da estratégia relacionada a veículos autônomos. A Uber vem tentando se posicionar como uma plataforma capaz de conectar usuários a diferentes formas de transporte, incluindo serviços operados por veículos sem motorista.
A empresa afirma que está investindo nessa estratégia a partir de uma posição financeira mais confortável. No segundo trimestre, o EBITDA ajustado alcançou US$ 2,8 bilhões, alta de 33% em um ano.
Como está a Uber no Brasil?
A reestruturação anunciada é global, mas o Brasil continua sendo um dos mercados relevantes para a companhia.
De acordo com dados divulgados pela própria Uber, 140 milhões de brasileiros já utilizaram o aplicativo pelo menos uma vez. A empresa também informa que mais de 2 milhões de brasileiros geram renda por meio da plataforma e que mais de 17 bilhões de viagens foram realizadas no país desde o início da operação, em 2014.
A empresa afirma ainda ter repassado mais de R$ 225 bilhões a motoristas e motociclistas parceiros no Brasil ao longo de sua operação. Os números mostram a dimensão alcançada pela plataforma no mercado brasileiro, tanto para consumidores quanto para trabalhadores que utilizam o aplicativo para geração de renda.
No cenário mundial, a Uber informa presença em mais de 70 países e mais de 15 mil cidades. A plataforma possui mais de 200 milhões de usuários ativos e cerca de 9,7 milhões de motoristas e entregadores parceiros ativos.
Demissão significa crise na Uber?

Não necessariamente. A redução de aproximadamente 10% da equipe corporativa acontece em paralelo a crescimento de receita, viagens, reservas e geração de caixa.
O movimento indica principalmente uma mudança na estratégia de gestão. A companhia pretende operar com uma estrutura menor e mais centralizada, enquanto direciona capital para segmentos considerados capazes de gerar crescimento futuro.
Esse tipo de reestruturação também mostra uma mudança comum entre grandes empresas de tecnologia: crescimento de receita não significa necessariamente aumento proporcional do quadro corporativo. À medida que as companhias amadurecem, elas podem buscar maior produtividade por funcionário e estruturas administrativas mais enxutas.
No caso da Uber, a combinação entre corte de pessoal, reorganização das equipes e investimentos em automação e veículos autônomos sinaliza uma tentativa de preparar a empresa para uma nova etapa de expansão.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
