A Uber, uma das gigantes da mobilidade urbana no mundo, vem atravessando um período financeiramente positivo — mas, segundo estudo recente, à custa dos ganhos dos próprios motoristas.
Lucro da Uber aumento reduzindo ganhos de motoristas? Entenda
Estudo aponta que a Uber aumentou seus lucros reduzindo ganhos dos motoristas por meio de algoritmos e do modelo de preço antecipado.
A pesquisa publicada esta semana pelo professor Len Sherman, da Columbia Business School, lança luz sobre a forma como a empresa equilibra sua rentabilidade e a remuneração da base trabalhadora.
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Modelo de preço antecipado como pivô da mudança
A base da análise é um conjunto extenso de dados: cerca de 25 mil corridas realizadas entre 2018 e fevereiro de 2025 por um único motorista nos Estados Unidos. Com essas informações, Sherman avalia como a Uber vem usando algoritmos e inteligência artificial para maximizar seu lucro, ajustando tanto os preços cobrados dos passageiros quanto os valores pagos aos motoristas de forma individualizada.
Esse modelo, conhecido como preço antecipado, foi implementado pela Uber com a promessa de oferecer maior previsibilidade para passageiros. Nele, o valor da corrida é informado antes do embarque, baseado em estimativas de tempo, distância e tráfego. No entanto, o estudo aponta que, sob essa superfície de transparência, oculta-se uma sofisticada operação de maximização de lucros.
Discriminação algorítmica de preços
A Uber estaria se aproximando da prática chamada discriminação de preços, conceito em que diferentes consumidores pagam valores distintos por um mesmo serviço, conforme sua disposição para gastar. Na outra ponta, os motoristas também estariam sendo remunerados de forma variável, conforme seu comportamento e histórico de aceitação de corridas.
A consequência, segundo Sherman, é que os valores pagos aos motoristas se tornaram menos previsíveis. Em 2018, 98% das corridas seguiam o padrão de remuneração proporcional a tempo, distância e tarifa dinâmica. Em 2024, esse percentual caiu para 77%.
Participação da Uber nas corridas aumenta
Margem da empresa cresceu mais de 10 pontos em dois anos
O estudo ainda revela que a fatia que a Uber retém de cada corrida aumentou significativamente. No início de 2022, a empresa ficava com cerca de 32% do valor da viagem. No final de 2024, essa porcentagem subiu para 42%, com registros de mais de 50% em trajetos específicos.
Esse aumento não é desprezível. Ele coincide com um momento de forte valorização da empresa na bolsa: desde 2023, quando a Uber passou a registrar lucros anuais, suas ações valorizaram cerca de 300%.
Segundo Sherman, esse cenário só foi possível graças a um modelo de negócios baseado em maximizar os lucros por viagem, independentemente do custo ao trabalhador.
Corridas curtas mais caras, longas mais vantajosas
Estratégia de precificação favorece deslocamentos maiores
Outro ponto da análise é a alteração no comportamento de precificação conforme a duração da corrida. A Uber teria elevado os valores de corridas curtas, tornando-as menos vantajosas para o passageiro e para o motorista — que, além de receber menos, depende do giro rápido para lucrar.
Já nas viagens mais longas, os preços ficaram mais competitivos. Isso, segundo o professor, sugere uma estratégia da empresa para incentivar deslocamentos extensos, que tendem a ser mais rentáveis, especialmente se feitos fora dos horários de pico e com pouco trânsito.
A prática, no entanto, pode alterar a lógica do mercado de mobilidade urbana, prejudicando usuários que dependem da plataforma para pequenos deslocamentos — e forçando motoristas a adaptar sua rotina a trajetos que nem sempre se encaixam em sua logística pessoal.
Uber rebate críticas e defende transparência

Empresa classifica estudo como “distorcido”
Procurada pelo site Business Insider, que divulgou o estudo em primeira mão, a Uber rebateu os apontamentos. A companhia classificou a análise como “uma história cansada e distorcida”, ressaltando que foi baseada nos dados de um único motorista.
A empresa defende que seu sistema de preço antecipado é justo e transparente, e que os algoritmos utilizados não consideram características pessoais dos motoristas ou passageiros. Segundo a Uber, os cálculos envolvem apenas variáveis operacionais como distância, tempo estimado, demanda e tráfego.
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Ainda assim, a resposta da Uber não foi suficiente para encerrar o debate sobre a equidade do modelo atual.
Especialistas alertam para falta de regulação
Debate sobre direitos dos motoristas se intensifica
A crescente dependência de algoritmos no setor de transporte por aplicativo acende um alerta entre especialistas em relações de trabalho. Para Len Sherman, o caso da Uber evidencia a necessidade de regulação mais clara e fiscalização dos sistemas algorítmicos utilizados por empresas de tecnologia.
Organizações de defesa dos direitos dos trabalhadores também vêm pressionando governos a reconhecerem os motoristas como empregados formais — com direitos como salário mínimo, jornada controlada e benefícios trabalhistas.
No Brasil, por exemplo, o governo federal discute um projeto de regulamentação do trabalho por aplicativo, que prevê uma remuneração mínima por hora e contribuições à Previdência Social.
Futuro da mobilidade em discussão
Lucro sustentável ou exploração tecnológica?
O caso analisado por Sherman expõe um dilema central da economia digital: como equilibrar inovação e lucro com justiça social e dignidade no trabalho. Se, por um lado, o uso de inteligência artificial e precificação dinâmica eleva a eficiência e o faturamento das empresas, por outro, pode precarizar as condições de quem sustenta o serviço na ponta.
O modelo da Uber pode ser apenas um exemplo entre tantos na chamada “gig economy”, em que trabalhadores autônomos se tornam peças de um sistema controlado por algoritmos que mudam regras sem aviso prévio.
Enquanto a empresa celebra seus recordes financeiros, os motoristas enfrentam um cenário de maior incerteza e pressão. A resposta para esse impasse pode vir do legislativo, da mobilização dos trabalhadores — ou da própria sociedade, ao repensar o que espera das plataformas digitais.
Imagem: Lutsenko_Oleksandr / Shutterstock.com

