A decisão de David Vélez, fundador e CEO do Nubank, de vender novamente uma parte relevante de suas ações em 2025 provocou uma nova onda de análises no mercado financeiro. Embora o banco digital siga em uma trajetória de expansão e lucratividade, a movimentação acionária do executivo reacendeu discussões sobre gestão patrimonial, estratégias tributárias adotadas por bilionários e o crescente movimento de migração de grandes fortunas para países com carga fiscal mais leve. Em meio a um cenário global de revisão de políticas tributárias, as escolhas de Vélez se tornam um caso emblemático dessa nova dinâmica.
No mês de agosto de 2025, ele se desfez de 33 milhões de ações Classe A, levantando US$ 435,6 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 2,35 bilhões no câmbio da época. A venda representou 3,5% de sua participação no banco digital e foi caracterizada pelo próprio Nubank como parte de um plano de planejamento patrimonial do fundador.
Trata-se da terceira grande venda desde o IPO do Nubank na Bolsa de Nova York, em dezembro de 2021, e marca mais um capítulo relevante na trajetória pública do empresário colombiano que revolucionou o sistema bancário latino-americano.
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A nova venda de ações em 2025
A operação e seus números
A operação realizada em agosto foi descrita como estruturada, planejada e alinhada com a governança corporativa do Nubank. A empresa explicou que as vendas fazem parte da estratégia pessoal de diversificação patrimonial do executivo, algo comum entre fundadores de companhias listadas.
Dados principais da operação
- Quantidade de ações vendidas: 33 milhões
- Classe das ações: Classe A
- Valor arrecadado: US$ 435,6 milhões
- Percentual da participação: 3,5%
- Valorização do ativo: alinhada ao momento positivo do Nubank no mercado
Para analistas de mercado, a operação não surpreende. É prática comum que fundadores reduzam gradualmente sua participação ao longo dos anos, especialmente após um IPO bem-sucedido. No entanto, o fato de ocorrer em um momento de consolidação internacional do Nubank chamou a atenção do mercado.
Reações do mercado
Apesar da venda volumosa, as ações do Nubank reagiram de maneira moderada. Investidores já estavam acostumados às movimentações patrimoniais de Vélez e de outros executivos, e o banco digital conseguiu, nos últimos anos, conquistar um posicionamento sólido como uma das instituições financeiras mais valiosas da América Latina.
O mercado enxergou a operação como:
- Uma estratégia de diversificação, típica de fundadores.
- Um movimento coerente com a mudança de residência do executivo.
- Um ajuste patrimonial sem impacto direto na governança do banco.
A mudança de país: o impacto da residência fiscal
O novo endereço de David Vélez
Em 2022, David Vélez deixou o Brasil e mudou sua residência para o Uruguai. Embora fatores pessoais — como segurança, qualidade de vida, proximidade geográfica e fluência na língua espanhola — tenham pesado, analistas ressaltam que a mudança também traz implicações diretas no campo tributário.
O Uruguai se consolidou nos últimos anos como um destino estratégico para alta renda, por oferecer um sistema fiscal mais simples, estável e vantajoso para novos residentes estrangeiros.
Diferenças tributárias entre Brasil e Uruguai
Tributação no Brasil
O Brasil tem um dos sistemas de tributação sobre ganhos de capital mais elevados entre os países emergentes. As alíquotas variam conforme o valor da operação:
- 15% sobre ganhos de até R$ 5 milhões
- 17,5% sobre ganhos entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões
- 20% sobre ganhos entre R$ 10 milhões e R$ 30 milhões
- 22,5% sobre ganhos acima de R$ 30 milhões
Para operações bilionárias, como a realizada por Vélez em 2025, a incidência natural é a alíquota máxima, de 22,5%.
Tributação no Uruguai
O Uruguai oferece vantagens significativas:
- 10 anos de isenção total sobre rendimentos de fonte estrangeira.
- Após o período de isenção, a tributação segue baixa comparada ao Brasil.
- Não há imposto sobre herança, o que facilita planejamento sucessório.
- Estabilidade regulatória e câmbio previsível.
Em termos práticos, a mudança de país permitiu a Vélez operar dentro de um regime tributário menos oneroso, com previsibilidade jurídica e financeira — algo visto como estratégico para indivíduos com patrimônio multibilionário.
Planejamento patrimonial como objetivo central
Especialistas em finanças privadas apontam que a migração para o Uruguai se encaixa em uma estrutura de proteção patrimonial e sucessória adotada por diversos executivos da região.
Entre os motivos mais citados:
- Redução de carga tributária.
- Maior previsibilidade regulatória.
- Facilidade para reorganizar holdings internacionais.
- Benefícios sucessórios para herdeiros.
- Ambiente mais seguro para gestão familiar.
Essa combinação faz do Uruguai um polo crescente para milionários e bilionários latino-americanos.
Como a mudança impacta a relação com o Nubank
Nenhuma alteração na liderança
Apesar da mudança de país e das vendas recorrentes de ações, a liderança de David Vélez no Nubank permanece sólida. Ele segue como uma das figuras centrais na estratégia de longo prazo e continua exercendo papel ativo na operação global do banco digital.
A visão do mercado
Analistas apontam que a decrescente participação acionária não deve ser interpretada como perda de confiança no negócio. Pelo contrário, é vista como:
- Um passo natural após o IPO.
- Parte de uma transição rumo a um patrimônio mais diversificado.
- Uma estratégia de redução de risco concentrado.
Além disso, o Nubank amadureceu e hoje possui governança robusta, com equipes executivas que operam de forma independente da figura do fundador.
O contexto maior: bilionários e a busca por sistemas tributários mais leves
Um movimento global
A decisão de David Vélez se encaixa em uma tendência internacional: grandes empresários têm buscado residências fiscais alternativas para reduzir custos tributários e proteger seus patrimônios.
Entre os destinos mais procurados:
- Uruguai (América do Sul)
- Portugal (Europa)
- Emirados Árabes (Oriente Médio)
- Suíça (Europa)
- Singapura (Ásia)
O Uruguai, em particular, tem atraído brasileiros de alta renda desde 2020, especialmente por combinar proximidade, facilidade de acesso e benefícios fiscais claros.
Impactos para o Brasil
O Brasil, por sua vez, enfrenta dificuldades em reter grandes fortunas devido:
- À alta carga tributária.
- À incerteza regulatória.
- À ausência de políticas de incentivo fiscal a novos residentes.
- Ao debate contínuo sobre taxação de grandes patrimônios.
O caso Vélez apenas intensifica a discussão sobre como equilibrar arrecadação e competitividade internacional.
O que a venda representa para o Nubank
O banco segue forte
Os números recentes do Nubank — inclusive os divulgados em 2025 — mostram que a instituição continua sólida:
- Aumento consistente da carteira de crédito.
- Crescimento no número de clientes em toda a América Latina.
- Melhora no ROE e na eficiência operacional.
- Expansão internacional no México e na Colômbia.
Com isso, a venda de ações não altera a percepção positiva dos investidores sobre o futuro do banco digital.
A estrutura acionária continua equilibrada
Mesmo com a redução, Vélez segue como um dos principais acionistas individuais. O banco também possui uma composição acionária diversificada, com fundos internacionais, investidores institucionais e minoritários de varejo.
O que esperar daqui para frente
Novas vendas são possíveis
É provável que Vélez continue vendendo ações ao longo dos próximos anos, especialmente como parte de seu planejamento patrimonial. Esse tipo de operação:
- Não altera o controle do banco.
- Não implica desconfiança na empresa.
- Mantém sua posição ainda significativa.
O próprio Nubank manteve sua comunicação clara
A empresa reforça sempre que:
- A governança está estruturada.
- Há planejamento de longo prazo.
- A liderança do fundador permanece inalterada.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
