Uma empresa de apostas online ligada ao advogado Willer Tomaz pagou voos de jato executivo entre Portugal e França para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em 2025, segundo informações de uma investigação da Polícia Federal (PF) divulgadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (16). O caso envolve despesas de viagens, relações empresariais e a autorização para funcionamento de uma plataforma de apostas no Brasil.
Willer Tomaz é investigado em um desdobramento da Operação Sem Desconto, que apura suspeitas de fraudes em descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). De acordo com a reportagem, os investigadores também examinam suspeitas de repasses de recursos relacionados ao esquema.
Os documentos mencionados na investigação apontam que voos realizados por Flávio e pessoas próximas foram contratados por meio de empresas ligadas ao advogado. O episódio também trouxe à tona questionamentos sobre a trajetória empresarial da Rede Loto, responsável pela operação da casa de apostas BestBet, e sobre o processo de licenciamento da plataforma no Rio de Janeiro.
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Como foram os voos de jato executivo entre Portugal e França?

Segundo os registros descritos pela Folha de S.Paulo, pelo menos três trechos aéreos envolvendo Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz foram contratados por meio da Cathedral, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. A companhia é a única acionista da Rede Loto, que opera a plataforma de apostas BestBet.
O primeiro deslocamento identificado ocorreu em 11 de abril de 2025, entre Lisboa e Nice, no sul da França. A viagem foi contratada com a empresa de aviação executiva NetJets.
Em 23 de maio daquele ano, houve outro deslocamento, com partida de Cascais, cidade portuguesa situada a cerca de 30 quilômetros de Lisboa, e destino a Nice. De lá, o grupo seguiu para Paris. Conforme o relatório citado na reportagem, essa segunda viagem incluiu mais familiares, entre eles as esposas de Flávio e de Willer.
Os registros indicam que foram reservadas aeronaves Bombardier Challenger 350, modelo de jato executivo utilizado em viagens privadas. Os comprovantes das passagens foram encontrados no computador do advogado.
Quem pagou as viagens do senador?
A documentação citada na investigação associa a contratação dos voos à Cathedral Holdings S.A., sociedade constituída em Portugal em 16 de janeiro de 2025, com participação de brasileiros, entre eles Willer Tomaz, sua esposa, sua irmã, Jorge Barbosa Dias e um parente de Dias.
Há, porém, uma divergência entre as informações sobre a contratação das viagens e a versão apresentada pela defesa. O advogado da Rede Loto afirmou que os pagamentos foram realizados pessoalmente por Willer, e não pela empresa de apostas.
A defesa classificou os deslocamentos como passeios de lazer entre amigos e familiares, sem contrapartida de qualquer natureza. Também rejeitou tentativas de associar o advogado a práticas ilícitas.
Até as informações descritas na reportagem, a existência dos registros de viagem não comprova, por si só, que tenha ocorrido pagamento indevido ou que Flávio tenha participado de qualquer irregularidade.
O que Flávio Bolsonaro diz sobre a relação com Willer Tomaz?
O senador afirmou que sua relação com Willer Tomaz é exclusivamente de amizade. Em manifestação sobre o caso, Flávio rejeitou a associação entre essa proximidade pessoal e possíveis irregularidades.
Segundo o parlamentar, relacionar a amizade a práticas ilícitas seria uma ilação sem fundamento nos fatos.
A discussão ganhou repercussão porque os documentos investigados envolvem empresas relacionadas ao advogado, viagens internacionais e outros registros financeiros que estão sob análise da Polícia Federal. A apuração busca esclarecer as relações entre os envolvidos e a origem dos recursos associados às operações examinadas.
É necessário distinguir, entretanto, os fatos documentados das suspeitas investigadas. A identificação de uma pessoa em registros de viagens ou em sistemas empresariais não demonstra automaticamente participação em crimes.
Como a Rede Loto conseguiu autorização para operar apostas?
A Rede Loto recebeu autorização para atuar no mercado de apostas em maio de 2023, por meio da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), autarquia responsável pela regulação das loterias estaduais.
De acordo com os registros citados na reportagem, a empresa foi registrada na Junta Comercial de São Paulo em 17 de fevereiro de 2023. Em 27 de abril daquele ano, data em que a Loterj publicou pela primeira vez o edital de licenciamento em um jornal de grande circulação, a companhia apresentou 132 páginas de documentos às 9h09.
A autorização foi assinada em 25 de maio por Hazenclever Cançado, que presidia a Loterj naquele período. Ele havia sido nomeado pelo então governador Cláudio Castro e, segundo a reportagem, teria sido indicado por Flávio Bolsonaro.
Cançado não havia se manifestado até a publicação da matéria mencionada.
Por que as informações sobre os donos da empresa são questionadas?
Um dos pontos levantados na apuração diz respeito às regras de identificação dos beneficiários finais das empresas. Esse conceito se refere às pessoas físicas que, em última instância, são proprietárias de uma companhia ou exercem controle sobre ela.
Segundo a reportagem, a Loterj não exigia, naquele período, a identificação desses beneficiários nos mesmos moldes previstos nas regras federais. Por isso, a documentação apresentada no processo não mencionava Willer Tomaz e Jorge Barbosa Dias como acionistas da Cathedral.
Outro episódio citado foi um pedido de impugnação apresentado pela Modelo Informática, empresa concorrente no processo de licenciamento. Conforme a reportagem, o questionamento não chegou a ser analisado.
A Loterj declarou que a Rede Loto cumpriu todas as exigências previstas no edital e que nenhum integrante do processo apresentou impedimento à autorização.
Os questionamentos sobre a tramitação do licenciamento não significam, isoladamente, que a autorização tenha sido concedida de forma ilegal. Para estabelecer eventual irregularidade, seria necessário examinar as regras aplicáveis à época, os documentos apresentados e as decisões administrativas tomadas.
Empresa ligada a Willer faturou R$ 188 milhões com contrato da Loterj
A investigação também aponta uma relação comercial entre Willer Tomaz e uma empresa contratada pela Loterj. Segundo os dados do órgão citados na reportagem, o advogado é beneficiário final da companhia, que faturou R$ 188 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026.
O valor amplia o alcance dos questionamentos sobre as relações empresariais associadas ao caso. Ainda assim, faturamento não é sinônimo de lucro, e a existência de um contrato público não demonstra, por si só, a ocorrência de irregularidade.
Para compreender o significado desse vínculo, é necessário considerar o objeto do contrato, os serviços prestados, os pagamentos realizados e os critérios utilizados na contratação. As informações apresentadas na reportagem não permitem concluir, isoladamente, que o montante tenha relação com os pagamentos das viagens.
O que a Operação Sem Desconto investiga?
A Operação Sem Desconto apura suspeitas de fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios previdenciários, incluindo aposentadorias e pensões pagas pelo INSS.
Em 4 de agosto, a Polícia Federal realizou buscas na residência de Willer Tomaz em outra fase da investigação. Na ocasião, a defesa afirmou que a diligência estava relacionada ao fato de o advogado ser proprietário de uma aeronave utilizada pelo senador Weverton Rocha (PDT-MA) e negou que Willer fosse investigado na operação.
A PF também apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o parlamentar do PDT. Segundo as informações publicadas, naquele momento a operação não incluía suspeitas relacionadas a Flávio Bolsonaro.
O novo material divulgado pela imprensa amplia os questionamentos sobre as relações entre Willer e o senador do PL, mas a existência de registros envolvendo Flávio não equivale a uma conclusão criminal contra ele.
O que aparece nos registros de outra empresa ligada ao advogado?
Outro trecho do relatório da Polícia Federal, conforme a reportagem, indica que uma conta identificada com o nome de Flávio Bolsonaro aparecia como “usuário master” no acesso bancário da Alcazar Holdings, uma empresa offshore administrada por Willer Tomaz.
Uma offshore é uma empresa constituída em outro país, geralmente utilizada para administrar ativos ou realizar operações empresariais internacionais. A estrutura, por si só, não é ilegal, mas sua utilização pode ser examinada pelas autoridades quando existem suspeitas sobre a origem dos recursos ou a finalidade das operações.
A Alcazar era proprietária de um terço de um jato do qual Daniel Vorcaro, banqueiro ligado ao Banco Master, também era sócio. A investigação teria identificado ainda voos pagos pela Alcazar e pela Cathedral para Flávio e familiares em 2024 e 2025.
A assessoria do senador negou que ele tenha mantido uma conta com Willer ou com empresas ligadas ao advogado. Willer, por sua vez, afirmou que sua relação com Flávio é exclusivamente de amizade, sem vínculo financeiro ou societário.
A expressão “usuário master” indica uma classificação de acesso a um sistema, mas seu significado concreto depende das permissões associadas à conta. A informação, isoladamente, não permite afirmar que o senador fosse titular dos recursos ou tivesse propriedade sobre a empresa.
O que pode acontecer a partir da investigação?

O próximo passo depende da análise dos documentos, da origem dos pagamentos e das relações entre as empresas e as pessoas citadas. A Polícia Federal poderá aprofundar as diligências caso identifique elementos que justifiquem novas medidas investigativas.
Entre os pontos que podem ser esclarecidos estão quem efetivamente arcou com os custos dos voos, quais eram as relações financeiras entre os envolvidos e se houve alguma contrapartida relacionada às viagens ou aos negócios das empresas.
Também será necessário verificar se os procedimentos de licenciamento da Rede Loto respeitaram as regras aplicáveis em 2023 e se há elementos concretos que justifiquem questionamentos sobre os contratos vinculados à Loterj.
Até que os fatos sejam esclarecidos pelas autoridades competentes, as informações devem ser tratadas como elementos de uma investigação em andamento. A responsabilização criminal depende da comprovação dos fatos e do devido processo legal.
Conclusão
Os registros de voos internacionais, as relações empresariais de Willer Tomaz e o processo de autorização da Rede Loto ampliaram os questionamentos em torno do caso. A investigação da Polícia Federal deverá esclarecer a origem dos recursos utilizados nas viagens, os vínculos entre os envolvidos e a eventual existência de irregularidades. Até que os fatos sejam devidamente apurados, porém, não é possível concluir que Flávio Bolsonaro ou os demais citados tenham cometido crimes.
