O líder do governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), exigiu uma reestruturação da base aliada no Congresso Nacional após a derrota do governo na votação sobre o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
José Guimarães exige correção na base do IOF depois de derrota política
Após revés no Congresso com o IOF, José Guimarães cobra ajuste na base governista e defende nova articulação com PDT e PSOL para 2026.
Em uma das mais expressivas derrotas políticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025, o Congresso derrubou um decreto presidencial que previa a elevação do imposto, medida que visava reforçar a arrecadação federal.
Em entrevista concedida ao jornal O Globo na manhã desta quinta-feira (26), Guimarães classificou a movimentação do Legislativo como um “desserviço ao país” e cobrou mudanças imediatas na articulação política entre o Planalto, Câmara e Senado.
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Um revés simbólico para o governo Lula
O decreto que aumentava o IOF foi derrubado em votação relâmpago nas duas Casas Legislativas, com 383 votos contrários na Câmara e aprovação por aclamação no Senado.
A medida, que havia sido apresentada como parte de uma estratégia de ajuste fiscal para os próximos anos, foi rejeitada sem aviso prévio ao governo, gerando tensão entre o Executivo e o Congresso.
Hugo Motta e a articulação sem aviso
A condução da votação pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi duramente criticada por Guimarães.
Segundo ele, o parlamentar teria articulado a votação sem consultar o governo ou os líderes aliados, divulgando a pauta pelas redes sociais poucas horas antes da deliberação. “Foi um erro grave e um precedente ruim para a Casa”, afirmou o petista.
Reação do governo: busca por recomposição da base
Guimarães pede diálogo urgente com partidos aliados
O líder do governo afirmou que a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, deve convocar uma série de reuniões com todos os partidos da base.
Segundo Guimarães, é preciso reorganizar a base aliada e recompor a interlocução com os presidentes da Câmara e do Senado. “O problema ocorre nas duas Casas”, reforçou.
Proposta de federação entre PT, PDT e PSOL
Guimarães também revelou que pretende defender, dentro do PT, a formação de uma federação com o PDT e o PSOL para as eleições de 2026.
Para ele, unir forças entre os partidos de esquerda é fundamental antes de buscar alianças ao centro. “Temos que cuidar dos nossos. Depois, atrair o centro”, resumiu.
Consequências econômicas: bloqueios e cortes à vista
Contingenciamento no horizonte
A derrubada do aumento do IOF pode forçar o governo federal a rever seu planejamento orçamentário. Segundo Guimarães, o Executivo agora será obrigado a “arrochar, contingenciar, bloquear a todos e a tudo”, sinalizando possíveis cortes em diversas áreas da administração pública.
Substituição por Medida Provisória
Apesar da derrota, o líder negou que tenha havido erro estratégico por parte do presidente Lula.
De acordo com ele, o governo já planejava substituir o aumento do IOF por uma Medida Provisória, que deve estabelecer cortes de R$ 10 bilhões a R$ 20 bilhões até 2026, focando na contenção de gastos públicos.
Críticas à execução e à resistência fiscal
Lentidão na execução orçamentária
Guimarães não poupou críticas à lentidão da máquina pública na aplicação de recursos previstos no orçamento.
Segundo ele, a baixa execução compromete a credibilidade do governo e pode gerar descontentamento até mesmo entre os aliados. “Temos que fazer o que está no orçamento acontecer, senão perdemos a base e a confiança da sociedade”, declarou.
Revisão dos incentivos fiscais
Um dos caminhos defendidos por Guimarães para aliviar a pressão sobre o orçamento seria um corte linear nos incentivos fiscais, que atualmente somam cerca de R$ 800 bilhões. Segundo ele, muitos desses incentivos não são estratégicos e poderiam ser revistos sem prejuízo direto aos setores essenciais.
“Os de cima precisam pagar”
Em tom crítico, Guimarães também apontou para a resistência do empresariado e setores econômicos ao aumento de carga tributária, sugerindo que há uma elite econômica que não assume sua parte na contribuição fiscal.
“O Brasil está numa encruzilhada. Os de cima precisam pagar a conta que nunca pagaram”, afirmou.
Análise política: clima de 2026 já contamina o Congresso
Eleição antecipada
Um dos elementos destacados por Guimarães para explicar a derrota do governo foi o clima eleitoral antecipado que já se instalou no Congresso. “Ligaram o botão automático da eleição”, disse, referindo-se ao início precoce das movimentações políticas com foco em 2026.
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Reconfiguração do centro político
O resultado da votação do IOF expôs um novo realinhamento de forças no Legislativo, com deputados do centro e até da base se posicionando contra o Planalto.
Isso levanta dúvidas sobre a eficácia da atual articulação política do governo e sobre a capacidade de Lula em manter a governabilidade sem novas concessões.
Riscos jurídicos e reação no STF
STF pode ser acionado
Após a derrubada do decreto do IOF, aliados do governo passaram a considerar levar o tema ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A estratégia seria questionar a legalidade da derrubada de um decreto presidencial via votação emergencial, especialmente sem o devido tempo de discussão e articulação com o Executivo.
O que esperar nos próximos meses

Pressão por reformas e medidas fiscais
Com a queda da arrecadação esperada após a derrota do IOF, o governo Lula enfrentará maior pressão para avançar com reformas estruturais, especialmente no campo fiscal.
Medidas como a revisão de renúncias fiscais, reforma do imposto de renda e avanço na tributação de grandes fortunas voltam ao radar da equipe econômica.
Diálogo ou tensão permanente?
A maneira como o governo responderá à crise determinará se o episódio do IOF será um ponto de inflexão ou apenas mais um capítulo de instabilidade entre o Planalto e o Congresso.
Guimarães aposta no diálogo, mas reconhece que há ruídos internos graves na base aliada, além de uma oposição organizada e atuante.
Conclusão
A derrubada do decreto do IOF expôs fragilidades profundas na articulação política do governo Lula e abriu uma nova frente de desafios para a condução fiscal e institucional do país.
Para o líder do governo na Câmara, José Guimarães, o momento exige um reajuste imediato da base aliada, uma nova postura de diálogo com o Congresso e coragem para enfrentar resistências políticas e econômicas.
Em meio ao clima eleitoral antecipado de 2026, a governabilidade passa a depender não apenas de alianças partidárias, mas de um reposicionamento estratégico no tabuleiro político nacional.
Se o Planalto não agir rapidamente, os próximos embates no Legislativo podem comprometer a agenda de governo e o próprio projeto de reeleição — seja de Lula ou de seu sucessor político.
