A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prorrogou até 22 de abril de 2029 a autorização para a Telefônica Brasil, controladora da Vivo, realizar testes de conexão direta entre celulares e satélites, tecnologia conhecida como Direct-to-Device (D2D).
A autorização vale para todo o território nacional e também permite que os testes tenham caráter comercial, desde que respeitadas as condições do ambiente regulatório experimental criado pela agência. O novo prazo amplia significativamente a janela para a operadora avaliar a tecnologia antes de uma eventual regulamentação definitiva.
A decisão consta no Ato nº 11.334, publicado no Diário Oficial da União em 16 de setembro de 2026. A autorização anterior terminaria em 22 de outubro deste ano. Segundo informações divulgadas pelo Tele.Síntese, a extensão foi solicitada pela própria Telefônica, que considerou insuficiente o período original para realizar testes representativos.
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O que muda com a autorização da Anatel

Na prática, a decisão permite que a Vivo continue avançando nos experimentos de comunicação entre celulares convencionais e satélites, sem depender de uma antena ou equipamento externo instalado pelo consumidor.
O modelo D2D busca ampliar a cobertura de telefonia para regiões onde as redes terrestres tradicionais não estão disponíveis. Um celular compatível pode se comunicar diretamente com um satélite, que funciona como uma espécie de extensão da rede móvel.
A autorização da Anatel abrange todo o território brasileiro e não estabelece limite para a quantidade de estações móveis conectadas durante os testes. A possibilidade de exploração comercial também foi incluída nas regras do ambiente experimental.
Isso, porém, não significa que a Vivo já tenha lançado um serviço comercial de internet via satélite para todos os clientes. A empresa ainda precisa realizar os experimentos dentro das condições estabelecidas pela Anatel.
Vivo testa tecnologia que pode se conectar à Starlink
Os testes da Vivo estão relacionados às negociações mantidas pela operadora com a SpaceX, empresa responsável pela constelação Starlink.
A identidade da operadora brasileira parceira não foi divulgada oficialmente pela SpaceX em documentos apresentados à Federal Communications Commission (FCC), órgão regulador de telecomunicações dos Estados Unidos. No entanto, informações publicadas pelo Tele.Síntese apontam a Vivo como a empresa envolvida nas tratativas. As companhias não confirmaram publicamente o acordo.
A Starlink já desenvolve o serviço de conexão direta entre satélites e celulares, inicialmente chamado de Direct-to-Cell. O conceito permite que satélites equipados com tecnologia apropriada funcionem como uma extensão das redes móveis terrestres.
A eventual parceria entre Vivo e SpaceX, portanto, pode permitir que celulares compatíveis utilizem a infraestrutura orbital da Starlink para estabelecer comunicação em locais onde não há cobertura convencional. A extensão da autorização brasileira dá mais tempo para que esse modelo seja testado.
Como funciona a conexão direta entre celular e satélite
No modelo tradicional de telefonia móvel, o celular se comunica com uma estação rádio-base instalada em terra. Essa estação, por sua vez, integra o aparelho à rede da operadora.
No D2D, parte dessa infraestrutura é substituída por um satélite. O aparelho envia o sinal diretamente para o satélite, que encaminha a comunicação pela rede responsável pelo serviço.
A principal diferença para serviços tradicionais de internet via satélite está justamente no equipamento necessário. Em uma conexão convencional, o usuário normalmente precisa de uma antena instalada em um local fixo ou de um terminal específico.
No D2D, a proposta é utilizar o próprio celular, desde que ele seja tecnicamente compatível com o serviço e com as frequências utilizadas.
Isso abre possibilidades para comunicação em áreas rurais, rodovias, regiões remotas e outros locais onde a instalação de infraestrutura terrestre é difícil ou economicamente inviável.
Quais frequências a Vivo poderá utilizar
A autorização concedida pela Anatel permite que a Telefônica utilize as frequências de 2.567,5 MHz e 2.687,5 MHz, com largura de faixa de 5 MHz em cada frequência e potência máxima de transmissão de 100 watts.
As frequências fazem parte do espectro utilizado pela rede móvel da operadora. O modelo permite, portanto, que a tecnologia seja testada utilizando recursos associados à infraestrutura de telefonia móvel existente.
A autorização está vinculada ao Serviço Limitado Privado (SLP) e utiliza o licenciamento de estações do Serviço Móvel Pessoal (SMP).
O que significa operação em caráter secundário?
Esse é um dos pontos técnicos mais importantes da autorização.
A operação em caráter secundário significa que a Vivo não terá direito à proteção contra interferências provocadas por sistemas autorizados em caráter primário. Da mesma forma, a operação não pode causar interferência prejudicial a esses sistemas.
Se os testes provocarem interferência em sistemas de telecomunicações autorizados, as transmissões deverão ser interrompidas imediatamente.
A Telefônica também terá de fornecer informações e documentos à Anatel, colaborar com o acompanhamento do experimento, comunicar eventuais interferências ou riscos e apresentar um relatório ao término da autorização.
Por que a Anatel prorrogou os testes até 2029?
A extensão está relacionada ao chamado sandbox regulatório, um ambiente criado para permitir que novas tecnologias sejam testadas sob regras específicas antes da definição de uma regulamentação permanente.
Em agosto, o Conselho Diretor da Anatel decidiu ampliar o sandbox de D2D até 22 de abril de 2029. A decisão atendeu a uma solicitação da Telefônica apresentada em junho, quando a empresa argumentou que o prazo restante não seria suficiente para conduzir testes representativos.
A agência também autorizou que as aplicações testadas possam ter caráter comercial e retirou o limite de estações móveis participantes do experimento.
O sandbox, contudo, pode terminar antes de abril de 2029 caso a Anatel aprove e coloque em vigor as especificações técnicas definitivas para a tecnologia.
O serviço já estará disponível para todos os clientes da Vivo?
Não.
A autorização para testes não equivale ao lançamento de um serviço nacional para consumidores. A Vivo poderá realizar experimentos dentro das condições estabelecidas pela Anatel e, no ambiente regulatório experimental, explorar comercialmente as aplicações autorizadas.
Ainda existem questões técnicas e regulatórias a serem definidas antes de uma oferta ampla e permanente.
Também será necessário considerar quais aparelhos poderão utilizar a tecnologia, quais serviços serão oferecidos e em quais condições os clientes terão acesso à conexão via satélite.
Quais celulares poderão usar a conexão via satélite?
A compatibilidade depende do aparelho e da tecnologia utilizada pela operadora e pelo sistema de satélites.
Por isso, não é correto afirmar que qualquer celular da Vivo poderá se conectar automaticamente à Starlink. A disponibilidade dependerá dos requisitos técnicos definidos para o serviço e da compatibilidade dos dispositivos.
Esse é um dos pontos que deverão ficar mais claros à medida que os testes avançarem e uma eventual oferta comercial for estruturada.
A Claro também já testou a tecnologia no Brasil
A Vivo não é a única operadora brasileira a experimentar conexões entre celulares e satélites.
A Claro participou anteriormente de um experimento realizado pela Anatel em São Luís, no Maranhão, em parceria com a empresa americana Lynk Global. O teste fez parte do ambiente experimental criado para avaliar aplicações de comunicação direta entre dispositivos móveis e sistemas de satélite.
A existência de experiências com diferentes empresas mostra que a tecnologia ainda está em fase de avaliação no mercado brasileiro. A regulamentação definitiva deverá definir as condições para sua utilização de forma mais ampla.
O que pode mudar para o consumidor
Se a tecnologia avançar para uma oferta comercial mais ampla, a principal mudança será a possibilidade de manter algum nível de conectividade em áreas sem cobertura tradicional de telefonia móvel.
O impacto pode ser especialmente relevante para pessoas que circulam por regiões rurais, estradas, áreas remotas e locais onde a construção de torres de celular apresenta dificuldades.
O D2D também pode funcionar como uma camada adicional de conectividade em situações nas quais redes terrestres ficam indisponíveis.
Isso não significa, necessariamente, que a conexão via satélite terá o mesmo desempenho de uma rede 4G ou 5G convencional. A capacidade, velocidade, latência e tipos de serviço disponíveis dependerão da tecnologia empregada e das condições de operação.
O que acontece agora

A Vivo ganhou mais tempo para testar a tecnologia dentro do ambiente regulatório da Anatel. A autorização atual permanece válida até 22 de abril de 2029, salvo mudança regulatória anterior.
Durante esse período, a operadora poderá realizar experimentos em território nacional e, dentro das regras do sandbox, desenvolver aplicações com possibilidade de exploração comercial.
A Anatel, por sua vez, continuará trabalhando na definição das especificações técnicas permanentes para o D2D. O resultado desses testes poderá contribuir para a formulação das regras que determinarão como a tecnologia funcionará no mercado brasileiro.
Para o consumidor, o ponto central é que a conexão direta entre celular e satélite está avançando de uma fase exclusivamente experimental para um estágio em que testes com possibilidade comercial já são permitidos, embora isso ainda não represente um lançamento nacional definitivo.
Conclusão
A prorrogação da autorização dá à Vivo mais tempo para testar a conexão direta entre celulares e satélites e avaliar como a tecnologia pode ser incorporada à rede móvel brasileira. Até abril de 2029, a operadora poderá avançar nos experimentos dentro das regras definidas pela Anatel, inclusive com aplicações de caráter comercial.
Para o consumidor, a principal expectativa é ampliar a conectividade em locais onde as redes terrestres ainda não chegam. No entanto, a oferta definitiva dependerá dos resultados dos testes, da compatibilidade dos aparelhos e das futuras regras estabelecidas pelo órgão regulador.
Por enquanto, portanto, a conexão via satélite ainda não substitui as redes 4G e 5G. O que existe é uma nova frente de desenvolvimento que pode permitir que celulares permaneçam conectados mesmo fora do alcance tradicional das antenas de telefonia.
